A geração que está deixando o Brasil


Segunda-feira, 8 de maio de 2017 às 16h34


Abastecidos primeiramente com ímpeto e vontade, munidos pela falta de esperança – diante de tanta injustiça social, impunidade e corrupção –, os jovens brasileiros saem do país em busca de novos horizontes.

Gerson Soares

A cada dia que conversamos com um garoto ou garota conhecidos desde pequeninos ou aqueles que entrevistamos para esta matéria, vemos que eles demonstram gana de partir em busca de novas oportunidades e quando voltam são outros, têm mais “bagagem”. As redes sociais viabilizaram ampla comunicação e eles vislumbram sua vida em países onde as coisas estão funcionando melhor do que por aqui. Atualmente, o Brasil é conhecido em países que recebem esses mesmos jovens como uma terra de corrupção, onde os valores morais de quem deveria dar exemplo, andam circulando nos lamaçais, envergonhando a sociedade brasileira.

 

Ottawa, Canadá: país é um dos destinos dos brasileiros que se aventuram em busca de organização e estabilidade. Foto: Wikipedia

 

É certo também que não se pode generalizar, mas o termo “generalização” parece ter se tornado uma via de escape para quem vive transgredindo a ética e os bons costumes. Generalizar os erros das classes dominando, singra em uma linha tênue entre o certo e o errado. Moral e justiça deveriam ser as regras em um país, aqueles que admitem o contrário em seus meios também têm uma parcela de culpa. Portanto, a generalização acaba caindo no uso e a impressão que fica não é nada boa quando se trata de ordem e progresso no país. A corrupção tem provocado revolta nacional, enquanto diminui as chances de todos, desde as perspectivas para os jovens até à falta de cuidado com os mais velhos, enfermos e remédios.

Paladinos da justiça, apoiados por milhões de brasileiros, tentam com todas as suas forças acabar com a “doença” causada pelos corruptos no Brasil, mas ainda parecem ser poucos diante do que indicou recente pesquisa Datafolha, apontando o ex-presidente Lula em 1º lugar no primeiro turno das eleições presidenciais a serem realizadas em 2018. Apontado pelo Ministério Público Federal que coordena a Lava Jato, como chefe de uma organização criminosa que lesava o país através de espetacular esquema de desvios de verbas públicas e propinas, de acordo com esse respeitável instituto de pesquisas o ex-presidente tem chances reais de voltar ao poder, eleito em segundo turno contra figurões do calibre de Geraldo Alckmin (atual governador de São Paulo) e João Doria (atual prefeito da cidade de São Paulo), sendo Marina Silva (um fenômeno, que apesar de ter desaparecido após o pleito de 2014, ainda é cotada para vencer Lula), a única com chances reais para derrotá-lo. Sua plataforma eleitoral, honestidade e justiça social, baseia-se diametralmente oposta ao que tenta provar a respeito de seu oponente.

Nesse sentido, há até quem conteste a pesquisa do Instituto Datafolha, mas lembrando das eleições presidenciais de 2014, apesar de todas as denúncias contra corruptos na Petrobras, a compra de uma usina sucateada nos Estados Unidos, entre outros fatos, incluindo suspeitas de que a presidente do país estaria envolvida, a mesma foi reeleita. Seu segundo mandato durou menos de dois anos, arrastando-se através de um longo processo de impeachment, escancarando ainda mais as entranhas da corrupção no país e os conluios políticos. Seu impedimento foi aprovado no dia 31 de agosto de 2016, ditando a derrocada da era petista no poder; saiu deixando um déficit devastador nas contas governamentais, acima dos 189 bilhões.

Diante dos fatos aqui expostos, os agentes da Lava Jato e o juiz Sergio Moro, protagonistas da maior operação contra a corrupção já vista no país, devem sentir o mesmo pesar dos jovens brasileiros que deixam as belezas mil do Brasil, vendo exauridas suas chances num futuro próximo, diante de tanta confusão para suas mentes ainda em formação. Graças aos paladinos que persistem talvez a próxima geração consiga enxergar seu país com outros olhos.

Os mais jovens – temos conversado com pessoas na faixa que gira em torno dos 17, 19 aos 30 anos –, por sua vez, querem o imediatismo que lhes é inato e não podem ser acusados por falta de patriotismo – algo que realmente não se encontra em qualquer esquina num país desmantelado. Os motivos que os impelem cada vez mais são os intercâmbios culturais, a conquista de aprender novas línguas e culturas, um novo tipo de aprendizado e modelo de vida, estudos e um modo diferente de encarar seu futuro.

Para alguns pode parecer novidade esse tipo de comportamento, mas não é. Há muito tempo, os “moços” de famílias abastadas e aqueles mais aventureiros que não se intimidavam com o risco, saíam e percorriam os países como o próprio Brasil, em busca de oportunidades. Muito se dirigiram aos Estados Unidos, outros à Índia e citamos estes países apenas para exemplificarmos extremos continentes e culturas totalmente diferentes – assim como a difusão das ideias nas mentes que os percorreram.

 

Estados Unidos, Austrália e Canadá, estão no topo das ambições dos brasileiros por uma vida melhor. Foto: Wikipedia

 

O ÊXODO E O FATOR POLÍTICO

Atualmente, vemos que o favorecimento aos jovens brasileiros veio com a facilitação dos meios. Claro, o dinheiro ainda é primordial para conseguir o feito de viajar, mas os jovens se redescobrem em outros países trocando informações e aprendendo a falar um idioma universal, o inglês. Quem já se comunica nessa língua – assim como nos séculos passados –, tem facilitada a vida de estudante. Essa antiga condição, a dos estudos “no estrangeiro”, hoje é encarada de formas diversas e recebe outros nomes: intercambista, turista, forasteiro, aventureiro, oportunista, trabalhador diferenciado. Seja lá qual for o nome que se dá a esse costume de viajar pelo mundo em busca do novo, neste caso partindo do Brasil, o fato ocorre na atualidade com frequência e volume sem precedentes. Os destinos, Canadá e Austrália estão no topo da lista.

Mais importante ainda é fazer uma reflexão sobre essa demanda que cresceu bastante nos últimos anos. Os jovens brasileiros perderam a esperança no seu próprio país? Alguém dúvida que o cenário irreconhecível do Brasil de hoje, irá se perpetuar?

Eles cresceram vendo a educação se deteriorar, os pais a reclamar de tantas faltas nas áreas da saúde, economia, segurança, aumento da violência – sem nada poderem fazer. As pessoas mais humildes sendo achatadas por um sistema que os deixa à margem dos serviços públicos. As estatísticas dos desempregados, acima de 14 milhões, dão o tom da ânsia de olhar as portas abertas em outras terras, com muita informação disponível sobre tomar novos rumos, procurar países melhores e mais organizados. Um comportamento que cresce tão assustadoramente quanto a decadência que está sendo mostrada ao mesmo mundo que verá os meninos e meninas do Brasil batendo às suas portas, em busca de algo que o seu próprio país já não lhes oferece.

Um jovem com 18 anos nasceu em 1998. Tomando como medida a tenra idade dos 12 anos, onde passaria a interpretar melhor seus anseios, presenciou um impeachment presidencial tendo como causa primordial a corrupção e a falta de ética, presenciou os fatos revelados pelos três anos da operação Lava Jato, viu o pleno aumento do desemprego, o sucateamento da educação e ficamos por aqui, para não complicar ainda mais, sendo estes motivos mais do que suficientes criarem dezenas de questões numa mente ainda em desenvolvimento.

Partem os jovens brasileiros, a fim de se afastarem desse cenário conturbado demais para se encaixarem. Na bagagem, a lembrança da terra das mil maravilhas, onde não faltam lindas praias e lugares paradisíacos ou as mais belas terras para que um explorador se aprofunde. No entanto, esse paraíso tropical, está sendo causticado por sistemas governamental, político e judiciário, tão ou mais distantes da realidade vislumbrada pelos jovens do que o próprio mar e as terras que separam os continentes, onde eles pretendem aportar.

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