A política no Brasil não tem jeito

Domingo, 22 de junho de 2014 às 8h53 – atualizado às 12h55

Gerson Soares

“Eu quero dizer que é possível criador e criatura conviverem. É possível que a presidenta e o ex-presidente terminem juntos este governo”. Estas foram algumas das palavras usadas pelo ex-presidente Lula, para demonstrar seu apoio à candidatura da presidente Dilma Roussef ao Palácio do Planalto em Brasília, durante convenção do PT que oficializou sua reeleição. A maneira como o fez, coloca-a desconfortavelmente sob sua supervisão, numa alusão de quem manda e continuará mandando nas ações do governo é ele, Lula. Dilma exaltou a Copa do Mundo, como incansavelmente vem fazendo. O que o PT está fazendo pelo Brasil a história registra, resta saber se constará na memória dos brasileiros quando forem às urnas. Se o partido merecer ganhará. Se não, nem a vitória na Copa o salvará.

Por outro lado, e se esta fosse uma estória de contos de fadas, estaria escrito assim: “Muito longe dali, num outro reino…”. Mas não estamos num mundo encantado, o candidato à presidência Aécio Neves, aceitou o apoio do Partido Solidariedade de Paulinho da Força Sindical. Ao lado do mineiro, neto de Tancredo, estava um dos homens com envolvimentos obscuros investigados pela Polícia Federal. Outro partido que o apoiará é o PTB do ex-deputado Roberto Jefferson, preso por envolvimento no Mensalão. Esses apoios vieram em boa hora, quando os minutos e segundos do horário político gratuito na TV contam, pelo que parece, mais do que os ideais – onde o importante é convencer o público indeciso e arregimentar as massas pode garantir o sucesso ou a derrota na campanha eleitoral. No palanque do Partido Solidariedade estavam os líderes do PSDB, Geraldo Alckmin e José Serra de São Paulo. Aécio foi imediatamente questionado pelos jornalistas sobre os apoios recebidos durante a convenção do partido de Paulinho do qual participou, e disse: “O apoio não muda minhas convicções”. Mas pegou mal.

Essas alianças, que lhe darão a oportunidade de falar um pouco mais a um público que busca se definir, podem fazer a diferença. No entanto, poderão levar outro montante diretamente ao polo contrário desta campanha, que também demonstra carisma, Eduardo Campos e Marina Silva – segundo apontavam as pesquisas, sozinha, ela poderia derrotar Dilma Roussef nas próximas eleições. Porém, Marina amargou as injustiças do sistema burocrático que lhe impôs as regras rígidas à fundação de seu partido Rede Sustentabilidade. Com isso, não conseguiu ser registrado a tempo de concorrer em outubro, lembrando-nos do jargão advocatício: “Aos amigos o direito, aos inimigos a justiça”. Neste caso, acrescentaríamos a burocracia.

 

Protesto de professores no Rio de Janeiro, é só um exemplo, da desilusão com a atual forma de fazer política. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Protesto de professores no Rio de Janeiro, é só um exemplo, da desilusão com a atual forma de fazer política. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

 

Marina não aceitou apoios que julgou incompatíveis com seus pensamentos, há algum tempo também rejeitou permanecer no governo petista a troco de contrariar suas convicções. Por fim, aliou-se a Eduardo Campos – sob protestos de ala do Rede –, que assim como Aécio apresenta propostas modernas e possui uma história de vida parecida, sob o aspecto de seguir os passos de Miguel Arraes, seu avô. Marina é nascida na floresta de Chico Mendes e apesar de ter acreditado nos antigos ideais petistas, pulou fora quando percebeu que já não fazia parte daquelas marés. Eduardo também faz alianças. Alckmin já disse que a vaga de vice ao governo de São Paulo é do PSB, partido do candidato. Porém, a vice da chapa, Marina rebateu que seu partido não participará da aliança.

Os candidatos à presidência do Brasil, Aécio e Eduardo, foram duramente sabatinados no programa Roda Viva da TV Cultura. Ambos não responderam se aceitariam o tipo de apoio que o Brasil se cansou de ver e a política do toma lá da cá, que levou a população às ruas das grandes cidades para protestar no ano passado – e continuam protestando – contra as nocivas consequências que os emaranhados tentáculos sufocantes dos partidos de aluguel causam aos apoiados e à população do país. Aceitando os apoios que recebeu, Aécio já respondeu às perguntas dos jornalistas. Eduardo deve estar observando a opinião pública.

Lembrar as atitudes de Marina deve fazer parte deste cenário complexo. Ela sim com um apoio considerado ilibado, do ainda presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, que declarou em entrevista a Veja, na semana passada, sua simpatia pela candidata a vice-presidente na chapa do PSB. Num reino hoje imaginário, ambos, Joaquim e Marina, poderiam formar uma chapa talvez imbatível e quiçá não fizessem alianças em detrimento de suas convicções, nem precisassem delas para governar, já que sua maior aliança seria com o povão, parte imensa deste Brasil brasileiro, onde se encontram suas raízes. Voltando à realidade, agora essa aliança só daqui a quatro anos. Portanto, é preciso observar o presente e prestar atenção aos fatos.

Os apoios a Aécio, que pode afrontar a hegemonia dos últimos 12 anos do petismo, foi uma péssima notícia no aspecto do que se pode esperar no futuro. O candidato promete uma nova forma de gestão, extremamente atualizada com pessoas independentes de partidos, mas continua usando velhos métodos. Os ideais continuam sendo medidos pelo que se pode mostrar na TV e não naquilo que os brasileiros esperam de um verdadeiro líder. Alguém que os conduza à modernidade, onde a politicagem traiçoeira seja banida. Parece que sem o horário gratuito essa mensagem jamais chegaria ao conhecimento dos eleitores. E se não chega é porque não se conhecem. Na matemática, que não mente, se isso acontece, a conta não fecha. A política brasileira não toma jeito.

alotatuape

Autor: alotatuape

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