A revolução silenciosa das energias renováveis

Quinta-feira, 17 de julho de 2014 às 7h10

Ricardo Abramovay

Grandes saltos tecnológicos estão derrubando drasticamente custos da geração eólica e solar. Mas mega-corporações resistem às fontes limpas e decentralizadas.

A renovação do Protocolo de Quioto não pode ser o objetivo dos países em desenvolvimento nas duas próximas conferências do clima, a que acontece em dezembro deste ano em Lima e a de 2015, em Paris, onde se espera um novo acordo global. A afirmação é chocante, uma vez que Quioto apoia-se em dois princípios aparentemente incontestáveis, sob o ângulo da justiça ambiental. O primeiro é que embora as responsabilidades pela redução nas emissões de gases de efeito estufa sejam comuns, elas devem ser diferenciadas: quem mais emite hoje e mais emitiu no passado deve obter as menores possibilidades de continuar lançando na atmosfera os gases que respondem pelo aquecimento global. Se há lugar remanescente para emissões este deve ser preenchido pelos países cuja ocupação do espaço carbono foi, até aqui, relativamente baixa. Disso decorre o segundo princípio que distingue países que historicamente mais emitiram (os do Anexo I, no jargão da diplomacia do clima) e os outros (não Anexo I). Os países do Anexo I deveriam, pelas regras de Quioto, ter responsabilidades legalmente obrigatórias de reduzir as emissões, enquanto que para os demais os compromissos seriam bem mais tênues.

 

 

Num espaço de 140 hectares de terras improdutivas na Base Aérea de Nellis, Nevada, 70 mil painéis solares são parte de uma matriz de energia solar fotovoltaica que a partir de 2007 deveria gerar 15 megawatts de energia solar para a base. Foto: Força Aérea dos EUA / Airman 1st Class Nadine Y. Barclay

Num espaço de 140 hectares de terras improdutivas na Base Aérea de Nellis, Nevada, 70 mil painéis solares são parte de uma matriz de energia solar fotovoltaica que a partir de 2007 deveria gerar 15 megawatts de energia solar para a base. Foto: Força Aérea dos EUA / Airman 1st Class Nadine Y. Barclay

 

Até recentemente, estes princípios e a diferenciação deles decorrente poderiam ser defendidos sobre a base da constatação de que as formas predatórias de acesso à energia eram as mais baratas: carvão, petróleo, gás e hidrelétricas construídas em situações que comprometem os serviços ecossistêmicos correspondiam à maneira mais acessível de garantir o direito à energia elétrica a populações pobres. E é sobre a base deste argumento que se intensifica a pressão sobre as áreas de reserva na Amazônia, bem como para novos empreendimentos em petróleo, gás e carvão, no mundo todo e em particular na América Latina.

O que fica cada vez mais evidente, a partir do início da atual década é que este argumento vai deixando de ser verdadeiro. O avanço recente nas energias renováveis modernas (solar, eólica, biomassa e geotérmica) está superando as mais otimistas expectativas. E parte decisiva deste avanço ocorre acoplada à própria revolução digital, dando lugar a um processo inédito e altamente promissor de descentralização na maneira como, desde o início do século XX, a energia foi gerida.

*Ricardo Abramovay é professor Titular do Departamento de Economia da FEA/USP

Fonte: Rebia – original em Outras Palavras

alotatuape

Autor: alotatuape

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