Bom Parto: As imagens de ontem

Gerson Soares

Neste domingo de Páscoa, repassamos a reportagem de ontem que levou ao conhecimento das autoridades e dos moradores a realidade que existe no Largo Nossa Senhora do Bom Parto. Como afirmei ontem, não vejo como responsabilizar a Prefeitura pela falta de educação do povo que frequenta a praça. Certamente, nas escolas os professores ensinam que isso não se faz, que lixo é no lixo e pichar só emporcalha a cidade. Se quiser se manifestar contra algo, o cidadão tem vários meios para fazê-lo, não será pichando e estragando o bem de todos que ele irá levar sua mensagem. Isso não é cidadania.

Lembrei-me de um olhar vago, que guardava em sua mente no fundo dos olhos claros, um milhão de palavras a serem ditas sobre toda aquela sujeira. Os olhos daquele senhor pareciam dizer-me algo, queriam dizer para eu escrever alguma coisa, a fim de que alguém fizesse sua praça voltar ao que era antes. Seu nome eu não sei, pois na euforia do registro jornalístico, ele ficou próximo às mesas e eu acabei indo conversar com os guardas municipais, que estacionaram sua viatura no centro da praça.

Mas imagino que esse senhor exigia mais respeito com sua praça. As imagens de ontem, não são as mesmas de 50, 60 anos, não é mesmo meu amigo. Quando me ouviu falar com os outros sobre o quanto aquela bagunça destoava das antigas festas juninas e quermesses que só conheço por fotos, dirigi-lhe o olhar e aqueles olhos brilharam mesmo encobertos pelas pálpebras, seus lábios cerrados quase se abriram para dizer algo. As rugas da face do ancião falaram tanto e tão alto que a ele, talvez, não fosse preciso usar palavras para expressar toda sua indignação. Seu olhar disse tudo o que havia para ser dito. As palavras ficaram para a próxima reportagem, quando as coisas melhorarem.

Naquela época, na sua época, as pessoas faziam as coisas com mais amor. Tudo era mais simples e bem feito, preocupavam-se com os detalhes. Hoje só se preocupam com o quanto podem ter para gastar, consumir e nessa praça que você viu se transformar tantas vezes, agora as pessoas vem para se embebedar. E com isso ninguém tem de reclamar, a vida é de cada um, mas a sujeira que leve consigo para onde for.

Jovens rapazes e até as meninas, bonitas, como disse um dos frequentadores entrevistados por mim, se drogam hoje na velha praça. Ele estava tão decepcionado quanto eu, quanto você meu velho. Pouco posso contra tanta desfaçatez, mas não vou me calar, isso eu lhe prometo. Suas palavras estão aqui e poderiam ser resumidas em uma só: RESPEITO, ou em duas: RESPEITO, RESPEITO.

Deixo a você que curte o Bom Parto e o Tatuapé com amor, não as imagens tristes, porque dessas esperamos nos despedir, mas algumas imagens que marcaram épocas diferentes, onde curtir não era se drogar e fazer bagunça. Boa Páscoa.

 

Igreja N. Sra. do Bom Parto,  década dos anos 50. Foto: acervo Alô Tatuapé, doada por Irinéia Vilhioti Martorelo.

Igreja N. Sra. do Bom Parto,  década dos anos 30. Foto: acervo Alô Tatuapé, doada por Irinéia Vilhioti Martorelo.

Passarinheiros que se reuniam no Largo Nossa Senhora do Bom Parto em grande número para trocar informações e dicas de criação dos pássaros. Foto: aloimage/2001

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Autor: alotatuape

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