Cidade Linda modelo zona Leste de São Paulo


Domingo, 17 de dezembro de 2017 às 10h


Doria na verdade, apesar das boas ações, quer espantar a feiura para debaixo do tapete com o seu programa “Cidade Linda”, assim poderá passear pelas ruas pintadas sem observar-lhe as mazelas, mas se esquece do que verdadeiramente ocorre na cidade, não quer ver ou está virando o rosto para aquilo que sabe polêmico e de difícil solução. Leia tudo sobre o Centro Esportivo do Tatuapé abandonado pela Prefeitura  

Gerson Soares

“Ah! Mas ele acabou com a cracolândia”, diriam. Esta é uma das verdades que já se fazem presentes na administração do prefeito João Doria. Ele cumpriu o que prometeu e o programa de recuperação dos dependentes químicos e a extinção dos traficantes, foram feitas em conjunto com o Governo do Estado de São Paulo, a Polícia Militar e outros órgãos, também é preciso lembrar. Essa não foi uma obra isolada.

 

Perigo na porta: barracos improvisados ficam ao lado de uma das mais movimentadas vias de São Paulo, onde as multas são diárias. Motoristas correm risco e moradores sem teto também. Tudo isso acontece ao lado da Subprefeitura Mooca há tempos, e só aumentam. Foto: aloimage

 

No entanto, o prefeito ainda ignora questões cruciais na zona Leste e um dos pontos que cito abaixo, quanto à favela que está sendo erguida no sopé do Viaduto Bresser, é exatamente o tráfico de drogas e os mesmos pequenos furtos e incidentes que ocorriam nas proximidades da Cracolândia.

Esclarecendo que nada temos contra a administração do atual Prefeito, elogiamos aquilo que fez e faz de bom. Deixando claro que à zona Leste nos referimos pelo conhecimento que obtivemos ao longo de 27 anos de reportagens, livro e edições históricas sobre bairros como Mooca, Tatuapé, Vila Formosa, Penha, Belém e Belenzinho, Carrão, entre outros, localizados nesta parte da cidade.

Citamos três questões prementes e atuais para análise do senhor Prefeito:

– Número de barracos que crescem assustadoramente ao lado do Viaduto Bresser

Inaugurado o 11º CTA - Centro Temporário de Acolhimento, que segundo a divulgação da Prefeitura conta com uma infraestrutura espetacular, esta unidade está muito próxima à favela que se forma ao lado da linha do trem e abaixo do Viaduto Bresser na Mooca. Por ali passam alunos da escola e faculdade SENAI, trabalhadores do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer - IBCC, acrescentando a estes os visitantes e parentes, além dos transeuntes que se dirigem ao Terminal de Ônibus ao lado da Estação Bresser do Metrô. Ninguém se atreve a cortar caminho por entre os barracos. O posto de gasolina que existia no local é tomado por eles, depois de tantos anos de trabalho como os proprietários de comércios daquela área poderiam imaginar tamanho desastre, ao lado da Subprefeitura Mooca. Em agosto último, o subprefeito da Mooca Paulo Sérgio, falou sobre o Viaduto Bresser: “Existe uma ação multidisciplinar na área, realizada por diversos órgãos como Secretaria de Direitos Humanos, Secretaria do Trabalho, Secretaria da Assistência Social e outras”. Enquanto várias secretarias trabalham os barracos aumentam sem parar e em novembro já ocorreu um incêndio que felizmente não afetou a estrutura do viaduto, nem feridos graves.

 

Barracos ao lado do Viaduto Bresser: venda de drogas, pequenos furtos e ataque a pedestres e estudantes. Foto: aloimage

 

– Velocidade na Radial Leste e congestionamentos

Se a Avenida 23 de Maio é um corredor de ligação com a zona Sul, a Radial está para a zona Leste da mesma forma para o Centro. Então, porque em uma se alcança os 60 km/h e na outra os 50 km/h? Ainda, argumentamos: Segundo o próprio Prefeito não é o aumento de velocidade que vai causar mais acidentes de trânsito e sim “a imprudência e falta de perícia”. Quais providências sua gestão está tomando para amenizar os congestionamentos intermináveis dessa área da cidade? Pelo que se sabe nenhuma.

 

Congestionamento na Radial Leste: as filas podem atingir quilômetros na direção Leste da cidade. Esta imagem foi feita logo no início da manhã, neste período de início de férias, quando o movimento de carros é menor. Não há projetos divulgados para melhorar esta situação. Foto: aloimage

 

– O abandono total do Centro Esportivo Brigadeiro Eduardo Gomes – CEBEG (que já teve vários nomes tão longos quanto este, mas que nunca recebeu a atenção merecida).

Sobre o CEBEG, em particular, abordado mais recentemente em reportagens no mês de setembro, as respostas das secretarias responsáveis pela sua administração nos levaram a concluir que a Prefeitura não dará continuidade ao projeto do CEU Carrão, iniciado e abandonado pelo possível candidato ao Governo do Estado de São Paulo pelo PT, ex-prefeito Fernando Haddad. Mas o atual prefeito João Doria também não responde sobre o que fará com o monumento ao desperdício de verbas públicas que já passa a ser habitado por moradores sem teto e esconde um criadouro de pernilongos atrás dos tapumes, ao lado da EMEI Quintino Bocaiuva.

 

Obra inacabada do CEU Carrão que não terá continuidade no Centro Esportivo do Tatuapé, milhões desperdiçados para criar pernilongos. No local onde está a câmera havia um ginásio poliesportivo que foi demolido para erguer este monumento à má administração pública. Foto: aloimage

 

Em contrapartida ao resumo exposto, o Parque Ibirapuera acaba de ganhar carros elétricos, entregues a Guarda Civil Metropolitana (GCM), pela BYD do Brasil, companhia chinesa que opera no país desde 2015. Alguém conhece? A estratégia da empresa com esse tipo de doação a órgãos governamentais brasileiros, reflete-se na ideia de projetar a marca e ser a primeira a vender carros elétricos no País.

Portais da zona Leste

Apontamos três pontos dos bairros da Mooca e Tatuapé, que ao lado do Brás, são considerados os portais da zona Leste. Eles parecem passar despercebidos pelo eficaz e trabalhador Prefeito de São Paulo, que classificou corretamente o Tatuapé de periferia, ofendendo a todos com sua sapiência. E, se periféricos são esses bairros, como portais da zona mais populosa da cidade que governa o que poderia ser dito de bairros como Carrãozinho próximo a São Mateus ou em outro extremo Guaianazes e Itaquera. Há outros ainda mais distantes.

 

Esgoto a céu aberto na zona Cerealista, no Brás: mau cheiro e a possibilidade de proliferação de doenças através de pombos e outros animais e insetos, ao lado dos caminhões que abastecem a cidade. Foto: aloimage

 

Brás: Sujeira e degradação ao lado de um dos cartões de visita da cidade

Estivemos na manhã deste sábado (16) na zona Cerealista. Lá visitamos o Mercado Municipal de São Paulo (Mercadão) que goza de reputação turística, ao lado do fétido Tamanduateí –pobre destino sofre esse rio histórico. Atravessando-o em direção à Rua Santa Rosa, há aproximadamente 500 metros do Mercadão, o que encontramos é repulsivo. Sujeira e esgoto a céu aberto, ao lado de caminhões que abastecem a cidade. Uma zona degradada sobre a qual já falamos (leia aqui a reportagem feita durante a gestão Haddad: Ponto turístico, mas o entorno é para espantar turistas).

 

Rua Santa Rosa esquina com Avenida Mercúrio: A cidade feia que não está nas redes sociais do prefeito: imundície ao lado dos caminhões que abastecem a cidade. Há poucos metros de um dos mais importantes cartões postais da cidade, o Mercado Municipal. Foto: aloimage

 

Acrescento este ponto apenas para informar aos leitores que a cidade linda do senhor Prefeito é antes uma utopia do que realidade. Convive com a feiura lado a lado. Doria demonstra ser mais um político a viver em meio a um universo paralelo onde só existem flores, pássaros coloridos e belezas mil, viagens a palácios encantados das mil e uma noites. Um sonho infantil para distrair crianças inocentes.

Hospital Municipal do Tatuapé

A frase dita em visita surpresa ao Hospital Municipal do Tatuapé – Dr. Carmino Caricchio (HMT), provocou constrangimento ao prefeito João Doria, depois de se compadecer da situação das pessoas que por ali sofrem com a falta de investimentos na saúde e atendimento digno aos pacientes. Permita-nos senhor Doria, dizer que essas pessoas sofrem há pelo menos 25 anos no HMT, quando iniciamos as atividades deste veículo de comunicação. Sobre o HMT já escrevemos inúmeras vezes e até promovemos um debate – inédito na época e único até hoje – entre candidatos à vereança na Câmara Municipal de São Paulo no pleito do ano 2000, tendo como convidado de honra o diretor dessa casa de saúde.

 

Entrada do Pronto Socorro do HMT: falta de investimentos e administração levam pacientes a procurar farmácias das imediações para conseguirem remédios e fazer consultas a farmacêuticos que nada podem fazer para ajudá-los. Foto: aloimage

 

Todos os candidatos do bairro e imediações compareceram ao encontro. Após o debate, mesmo sendo eleitos vários deles, o que se viu foi a decadência ainda maior da instituição. A farmácia que o senhor visitou, há décadas foi mantida por voluntários, devido a simples omissão das autoridades em fornecer medicamentos. Essa omissão, 20 anos depois das nossas primeiras reportagens no hospital – à época de Maluf e o seu Plano PAS –, a falta de medicamentos aos necessitados se torna motivo de investigações da Lava Jato no SUS. Mesmo assim, graças ao esforço de médicos responsáveis, o HMT era referência em tratamento de queimados e destacava-se em outras especialidades.

Zona Leste precisa de projetos sérios

Portanto, nem todos os jornalistas ficam “sentados na frente do computador”, como escreveu o Prefeito em suas redes sociais, referindo-se à imprensa. Alguns deles possuem conhecimento de causa e já até se cansaram de lembrar às autoridades o quanto são relapsas quando se omitem sobre a área mais populosa da cidade. Sabemos bem que isso começou com a instalação da elite paulistana por volta do final do século XIX, com a chegada dos imigrantes para trabalharem na cidade que se expandia e precisa de operários e mão-de-bra especializada. Admitidos nas fábricas, legava-se a eles conviver em cortiços, os menos qualificados. Tempos depois, muitos foram varridos aos confins da zona Leste em programas governamentais, junto com migrantes nordestinos.

Mas essa situação não precisa ser perpetuada, precisa ser resolvida. Morar na periferia não é demérito, como se manifestou o Prefeito, após a gafe no Tatuapé. Essa é mais uma verdade. Estejam presentes os prefeitos de São Paulo na periferia ou não, levando consigo a empáfia que lhes é notória depois de eleitos, pouco importa passar algumas pinceladas de tintas nas calçadas e cortar o mato, isso é obrigação. O importante é ter atitudes positivas e eficazes quanto aos reais problemas. Deixemos as pinturas aos pintores.

Investir no Hospital do Tatuapé ajuda acabar com o sofrimento das pessoas pelas quais se compadecem as autoridades. Permanecer duas horas nos seus carros, para chegarem de São Miguel Paulista ao Tatuapé durante as manhãs, ajuda entender o que significa congestionamento na zona Leste. Pegar o ônibus às 18h no ponto em frente ao IBCC, ou atravessar a Radial Leste para chegar até o terminal e estação Bresser passando embaixo do Viaduto Bresser, por volta das 22h ao sair da escola e até antes, seria uma boa experiência para que os administradores da cidade entendessem o que está se formando ali e o medo que isso acarreta a homens e mulheres, jovens e moças.

A ZL precisa de projetos sérios. Fazer propaganda do trabalho aos domingos não interessa, vários setores do funcionalismo público também trabalham nesse dia. O prefeito João Doria, acaba de doar seu salário e o 13º a entidades que praticam assistência social. Fazendo o alarde de sempre. Parabéns! O valor do salário do Prefeito de São Paulo é de R$ 24,1 mil. João Doria é o criador do LIDE, um grupo de empresários cujo sucesso está acima da média nacional. Quem pode ingressar no Lide? “Empresas brasileiras e multinacionais com faturamento igual ou superior a 200 milhões de reais anuais”. Esse salário distribuído e divulgado aos quatro ventos, certamente não fará falta a ele.

Centro Esportivo do Tatuapé: Abandono pela Prefeitura, causa perigo para a saúde pública 

Estação Carrão do metrô, cuja passarela atravessa a Radial Leste e um dos campos que ocupam a área: antes uma das muitas chácaras existentes no Tatuapé. Foto: aloimage

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Autor: alotatuape

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