Copa do Mundo: Mais protestos no Tatuapé

Sexta-feira, 13 de junho de 2014 às 15h14


Gerson Soares

O Tatuapé está nas páginas dos jornais de todo o mundo. Infelizmente não é por ser um bairro gostoso de morar ou por boas notícias, mas sim pela ação dos manifestantes e policiais que se enfrentaram nas ruas do bairro.

Os conflitos desta quinta-feira (12) marcaram novamente a história do Tatuapé nas manifestações contra a Copa do Mundo e reivindicações por políticas sociais mais condizentes. Policiais militares usando a força bruta contra manifestantes na estação do metrô Tatuapé, Carrão e Rua Apucarana, ganharam as páginas da mídia no Brasil e no mundo.

Segundo o Exame.com, o defensor público Carlos Weis criticou a ação policial julgando-a desproporcional. Esta é a mesma opinião da Anistia Internacional, como noticiou O Globo do Rio de Janeiro. A ação provocou ferimentos na correspondente da CNN no Brasil, Shasta Darlington. Em manchete a rede divulgou as ações da PM paulistana: “A polícia brasileira dispara gás lacrimogêneo contra os manifestantes da Copa do Mundo”. Shasta informou que “os críticos estão furiosos com o governo brasileiro por gastar milhões de dólares na Copa do Mundo em vez de habitação de baixa renda, hospitais e escolas”. Ela foi ferida no pulso e a produtora Barbara Arvanitidis, também da CNN, que estava ao seu lado, sofreu ferimentos devido a estilhaços de bomba. Outros jornalistas foram feridos, enquanto tentavam registrar os fatos.

O The Guardian, de Londres, em maio já apontava o “cheiro de conflito no ar e abuso de policiais nas favelas do Rio”. A ONG Anistia Internacional divulgou na sua página do facebook que a polícia de São Paulo “fez uso desproporcional da força para reprimir uma manifestação pacífica na zona Leste de São Paulo”. E prossegue: “Digam ao governador e ao secretário de Segurança Pública de São Paulo que a liberdade de expressão e manifestação pacífica são direitos humanos, inclusive durante a Copa do Mundo”, diz o comunicado que afirma que diversas pessoas ficaram feridas.

Hoje, na página sobre a Copa do Mundo no Brasil, o título do jornal americano The New York Times (NYT) era o seguinte: “Futebol e discórdia interna, em exposição para o mundo ver”. A reportagem continua, dizendo que “O Brazil reafirmou sua reputação como uma potência do futebol mundial no jogo de abertura da Copa do Mundo, dando início a festas de rua em todo o país, mas as grandes fissuras na política ficaram expostas ao público internacional”. O site do jornal ainda menciona que Dilma e Blatter sentaram-se lado a lado, “mas não fizeram quaisquer declarações públicas”.

Assim como NYT, as agências de notícias nacionais e internacionais divulgaram a insatisfação do povo, a revolta. Elas afirmam que o país continua pobre, as pessoas foram despejadas das favelas dos entornos dos estádios e que a imagem do Brasil que está sendo retratada não é a mesma que pode ser vista aqui.

No Tatuapé, a maioria das pessoas manifestou-se de maneira pacífica, apesar de alguns mascarados terem atirado pedras, arrancado postes de sinalização e ateado fogo em sacos de lixo, ação típica dos black blocs. No entanto, estes foram atos isolados, próximo ao Sindicato dos Metroviários, na Rua Serra do Japi, imediações da Radial Leste até a Rua Platina.

Os metroviários também participaram de uma manifestação contra a Copa do Mundo e para a readmissão dos grevistas demitidos, promovida segundo a assessoria da entidade, por centrais sindicais. O sindicato informou ainda que a categoria não teve participação nas ações violentas próximas à sua sede no Tatuapé.

Black blocs em ação contra a PM na Rua Serra do Japi esquina com Rua Platina. Foto:  Rodrigo Abd/AP

Black blocs em ação contra a PM na Rua Serra do Japi esquina com Rua Platina. Foto:  Rodrigo Abd/AP

A imagem de um rapaz sem camisa, que enfrentou a PM na Rua Apucarana, em frente à sede do Corpo de Bombeiros, viaja pelo mundo. Mesmo depois de estar dominado pelos militares, um deles espirrou spray em seu rosto. Em seguida, já prostrado com o rosto no chão, outro policial ajoelhou-se ao seu lado de modo a pressionar-lhe ainda mais. A PM dessa forma demonstra descontrole, sem necessidade.

É lamentável que as ações dos representantes do governo, que estavam há mais de 10 quilômetros do local, sentados em lugares reservados e dispondo de todos os privilégios, não possam ser contestados pela população que os elegeu, paga seus salários, os banquetes servidos e também as remunerações de quem os agride. Ao exigirem uma satisfação e alguma palavra para tantos protestos, os manifestantes recebem sobre suas cabeças o gás lacrimogêneo, as balas de borracha, os cassetetes dos guardas.

Respeitando a autoridade que deve impor a ordem, não se pode admitir um retrocesso a cada dia nos direitos humanos. Se a Copa do Mundo esta sendo usada com oportunismo por tantas categorias e sindicatos, o povo também tem o direito de usar a exposição mundial do evento para se manifestar contra o que todos no Brasil conhecem, só esquecem, viram as costas para não ver.

É lamentável perceber que a democracia existente no Brasil não evolui. Ao invés de dar satisfações concretas e imediatas às aspirações do povo, o governo se protege atrás dos militares. A presidente do país teve uma ótima oportunidade para falar diretamente à população, dispensando as ondas do rádio e TV estatal, usando toda a mídia reunida no Itaquerão. Seria um momento único de aproximação, nem que a partida tivesse de começar um pouco atrasada, todos iriam gostar de ouvir esse diálogo.

Ronaldo, Pelé, Lula, Rebelo e os principais organizadores do evento também poderiam falar diretamente da zona Leste de São Paulo, aclamada como a mais populosa e lembrada como uma das mais esquecidas. Com suas palavras poderiam encerrar as manifestações, prometendo agora mais sete anos desse mesmo empenho, divulgação, marketing e bilhões de dólares para a melhoria da vida e a verdadeira implantação da justiça no país, na sua maior abrangência, em todas as áreas e para todas as pessoas.

Os lucros e os dólares falam mais alto na Copa da Fifa, tudo é voltado para isso. A Copa do Mundo não é uma unanimidade na realidade brasileira, porque a imagem do país não é essa que aparece na propaganda despejada na mídia, a custo de mais alguns milhões. De todos os fatos aqui descritos, existe mais um que não pode ser desprezado e por isso a esperança existe. Ao mesmo tempo que tenta exportar apenas a imagem de um Brasil rico e bonito, o governo proporciona o motivo para que os manifestantes apareçam para o mundo todo e a verdade seja justa com a história.

PM evacua manifestantes na estação Tatuapé do metrô. Foto: midianinja

Policiais prendem manifestante na Rua Apucarana no Tatuapé. Foto: Nelson Antoine/AP

alotatuape

Autor: alotatuape

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