Corante extraído do açafrão pode ser útil no combate à dengue


Segunda-feira, 20 de abril de 2015, às 15h47


Por Karina Toledo | Agência FAPESP – Um composto extraído da raiz da cúrcuma (Curcuma longa L.), também conhecida como açafrão-da-índia, está sendo testado com sucesso por pesquisadores da cidade de São Carlos (SP) no combate às larvas do mosquito transmissor da dengue.

Em experimentos realizados na USP de São Carlos, composto foi adicionado à água de criadouros do mosquito transmissor e eliminou 100% das larvas após 8 horas de exposição à luz solar. Foto: divulgação

Em experimentos realizados na USP de São Carlos, composto foi adicionado à água de criadouros do mosquito transmissor e eliminou 100% das larvas após 8 horas de exposição à luz solar. Foto: divulgação

A pesquisa está sendo conduzida no Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (Cepof), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela FAPESP, sob coordenação do professor da Universidade de São Paulo (USP) Vanderlei Bagnato.

“A curcumina, uma das substâncias que conferem a cor alaranjada ao açafrão, possui propriedades fotodinâmicas naturais. Na presença da luz, ela induz a produção de espécies reativas de oxigênio, que são altamente tóxicas”, disse Bagnato.

Por serem transparentes, explicou o pesquisador, as larvas do Aedes aegypti são particularmente sensíveis ao efeito fotodinâmico. O corante se acumula no intestino do inseto após ser ingerido com a água do criadouro. Quando a substância é ativada pela luz, induz a produção de moléculas de oxigênio singlete, que danificam de forma fatal o tecido do trato digestivo.

O princípio é semelhante ao da terapia fotodinâmica empregada experimentalmente no combate a células tumorais e agentes infecciosos.

Em parceria com a empresa PDT Pharma, o grupo do Cepof também está avaliando em três ensaios clínicos a eficácia do corante à base de curcumina no combate a fungos causadores da micose de unha, na descontaminação bucal e no tratamento de úlceras venosas.

Em experimentos in vitro realizados no Instituto de Física (IF) da USP de São Carlos, o composto já se mostrou eficaz para matar microrganismos.

Nos últimos dois anos, durante o mestrado de Larissa Marila de Souza pelo programa de pós-graduação em Biotecnologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), o uso do corante no combate às larvas de Aedes vem sendo testado sob a orientação de Bagnato e de Cristina Kurachi, professora no Instituto de Física de São Carlos (IFSC) – com a colaboração da pesquisadora Natalia Inada, também do IFSC.

“Por enquanto, os experimentos têm sido feitos apenas em laboratório, com um sistema padronizado e controlado. O objetivo é determinar a concentração mínima necessária para matar as larvas sem causar impactos ambientais”, contou Inada.

Os pesquisadores estão comparando o efeito da terapia fotodinâmica com uso de luz solar, luz branca comum e luz de LED azul. No ensaio mais bem-sucedido, 100% das larvas presentes na amostra morreram depois de oito horas de exposição à luz solar, sendo que a taxa de mortalidade começou a subir após as duas primeiras horas. Foi usado no experimento o corante em uma concentração de 15 microgramas para cada mililitro de água.

Usado também como tempero, o açafrão ou cúrcuma está sendo pesquisado para o combate à dengue. Foto: Sanjay Acharya / Wikipedia

Usado também como tempero, o açafrão ou cúrcuma está sendo pesquisado para o combate à dengue. Foto: Sanjay Acharya / Wikipedia

“O melhor resultado observado foi com a luz solar, o que é ótimo, pois não seria viável economicamente instalar lâmpadas para iluminar todos os criadouros naturais do mosquito. Outro fato importante observado é que, mesmo nos dias nublados, o experimento foi repetido e observamos uma mortalidade importante, ou seja, não é necessário que o criadouro receba iluminação direta para que o método funcione”, afirmou Inada.

Segundo a pesquisadora, a exposição à luz solar foi suficiente para em 24 horas degradar completamente o corante em derivados menores, cuja toxicidade está no momento sendo estudada pelos pesquisadores.

“Antes de levar a pesquisa de campo para os criadouros naturais, precisamos ter total certeza de que as substâncias resultantes da fragmentação fotoquímica da curcumina são inofensivas a outros seres vivos, como algas, peixes, humanos e animais domésticos que eventualmente tenham contato com a água do criadouro”, disse Inada.

Alguns estudos preliminares de toxicidade vêm sendo realizados por Souza com brotos de feijão e com oligoquetas – um tipo de minhoca que costuma ser encontrada nos criadouros e serve de alimento para as larvas de Aedes. O grupo busca parcerias para a realização de ensaios com espécies maiores e mais complexas.

“Como o composto à base de curcumina se degrada num período de 24 horas, a aplicação nos criadouros teria de ser periódica, no caso de ser adotado em uma estratégia de prevenção da dengue. Para testar a viabilidade da proposta seria necessário haver interesse das autoridades sanitárias”, comentou Bagnato.

Curcumina sintética

O processo de extração do corante, que tem como matéria-prima o açafrão moído, foi desenvolvido em parceria com pesquisadores da UFSCar que integram o grupo do Cepof e a empresa PDT Pharma.

“Com o uso de solventes, obtivemos uma mistura de curcumina e outras substâncias muito parecidas, denominadas curcuminoides, como a mono-demetoxicurcumina e a bis-demetoxicurcumina. Mas esse extrato bruto não é apropriado para uso como fotossensibilizador, pois é contaminado com uma série de outras substancias orgânicas da planta. É necessário um intenso processo de purificação”, explicou o químico Kleber Thiago de Oliveira, professor da UFSCar.

No entanto, explicou Oliveira, o processo de extração e purificação a partir do produto natural seria inviável para uso em larga escala. Para resolver o problema, a equipe do Grupo de Síntese de Compostos Heterocíclicos com Atividades Fotossensibilizadoras da UFSCar desenvolveu um método para produzir uma curcumina sintética, com a mesma estrutura química encontrada no corante natural.

“Além de permitir a produção em larga escala, o processo é mais sustentável. O fato de não ter a presença dos outros curcuminoides não tem diminuído significativamente a atividade da molécula nos estudos em andamento. Ao contrário, o uso de curcumina sintética tem trazido dinâmica, amplitude, versatilidade e reprodutibilidade aos experimentos”, avaliou Oliveira.

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