Déficit de chuvas no Brasil vem aumentando nas últimas décadas


Terça-feira, 21 de julho de 2015, às 17h03


Elton Alisson, de São Carlos | Agência FAPESP – O déficit de chuvas em todo o Brasil vem aumentando nas últimas décadas e se tornando mais grave nos últimos anos.

A região Sudeste do país, por exemplo, que enfrentou em 2014 e 2015 o maior período de estiagem dos últimos 70 anos, entrará em meados de agosto – quando se inicia a estação mais seca do ano – com menos água do que tinha em 2014.

As constatações são de estudos realizados por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Alguns dos resultados dos estudos foram apresentados em uma conferência sobre a problemática da seca no Sudeste brasileiro, realizada na sexta-feira (17/07) durante a 67ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O evento ocorreu até sábado (18/07) no campus na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

 

Represa Jacareí, que compõe o Sistema Cantareira, em São Paulo, em novembro de 2014. Foto: Léo Ramos/FAPESP

Represa Jacareí, que compõe o Sistema Cantareira, em São Paulo, em novembro de 2014. Foto: Léo Ramos/FAPESP

 

“Temos uma situação de déficit de chuvas tremendo em todo o país, que representa uma situação muito grave. A quantidade de chuvas que entra nos sistemas de vazão está diminuindo e contribuindo para deixar nossa conta bancária hídrica cada vez mais no vermelho”, disse Paulo Nobre, pesquisador do Inpe.

Os pesquisadores do Inpe realizaram um estudo em que compararam os dados de registros de chuva no país no período entre 1960 e 1990 com os deste ano para estimar qual o atual “saldo da conta bancária de água” do país.

As projeções indicaram que a região Norte possui um saldo negativo de 6 metros cúbicos (m3) por metro quadrado (m2).

A região Nordeste tem um déficit hídrico em torno de 4 m3 por m2 e a região Sul está em uma situação de equilíbrio.

Já a região Sudeste está no “cheque especial”, com um saldo negativo de 3,5 m3 por m2.

“Isso representa grandes volumes de água que não foi usada para o crescimento de plantas ou o consumo humano, mas que, simplesmente, não entrou no ciclo hidrológico”, disse Nobre.

Em outro estudo, os pesquisadores analisaram a quantidade de chuvas durante os verão na região Sudeste a partir da década de 1960 até os últimos anos.

Algumas das constatações foram que, nas décadas entre 1960 e 1980, chegaram a ocorrer durante um mês ao menos duas chuvas de mil milímetros.

Nas décadas entre 1980 e 2000 essas chuvas se tornaram menos frequentes e raramente ultrapassaram 900 milímetros.

Já ao longo da década de 2000 e nos últimos anos as chuvas durante o verão no Sudeste mal ultrapassaram o volume de 100 milímetros.

“Desde 2010 vem chovendo abaixo da média no Sudeste do país. Com isso o nível dos reservatórios da região foram diminuindo e tivemos a grande seca de 2014 e 2015”, afirmou.

O total de chuvas que cai sobre o reservatório Cantareira – um dos que abastecem São Paulo e que tornou-se símbolo da seca no Estado de São Paulo – vem diminuindo de uma década para outra, afirmou o pesquisador.

“A seca de 2014 e 2015 foi um evento extremo de diminuição de longo efeito que fez com que a vazão do reservatório fosse decaindo nos últimos 20 anos”, avaliou Paulo Nobre.

Aumento da temperatura

De acordo com o pesquisador, um dos fatores que contribuiu para a maior depressão pluviométrica registrada no Sudeste do país este ano desde 1945 foi o aumento da temperatura na região e em outras partes do Brasil.

Um levantamento realizado por ele e colaboradores das médias de temperatura em todas as regiões do Brasil entre 1960 e 2010 apontou que a temperatura do país, como um todo, está aumentando.

“Estamos constatando que, ano após ano, o Brasil está ficando mais quente. E isso se deve, em grande parte, ao fato de que a temperatura do planeta está aquecendo devido, entre outros fatores, ao aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera”, afirmou.

O aumento da temperatura da atmosfera induz rapidamente a ocorrência de eventos extremos, como secas e inundações, no ciclo hidrológico, explicou Nobre.

Isso porque, quando o ar está mais quente, ele dissolve mais rapidamente o vapor d’água capturado da superfície e consegue gerar nuvens maiores, causando chuvas mais intensas.

“As chuvas intensas afetam toda a circulação planetária, ocasionando chuvas em um determinado local e seca em outros”, detalhou.

O aumento das emissões de gases de efeito estufa, como o CO2 na atmosfera, combinado com a elevação da temperatura tende a agravar, ainda mais as crises hídricas, ressaltou o pesquisador.

Utilizando o Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (BESM, na sigla inglês), desenvolvido com auxílio da FAPESP, os pesquisadores fizeram uma simulação em que quadruplicam a quantidade atual de CO2 encontrado na atmosfera no país – de 300 partes por milhão (ppms) – para estimar o que aconteceria na dinâmica da atmosfera.

As análises das simulações indicaram que a presença de 1,2 mil ppms de CO2 na atmosfera induziria a um aumento do número de dias consecutivamente secos no país.

A seca que aconteceu na região Sudeste do país poderia tornar-se mais frequente e haveria um aumento da ocorrência de períodos longos e estiagem no Nordeste e na Amazônia e na América do Sul, de um modo geral.

Em contrapartida, também haveria um aumento na frequência de dias com precipitação intensa, distribuídas em períodos de estiagem mais longos.

“As projeções apontam que o clima do Brasil no futuro terá mais condições como as que estamos vivendo agora, com enchentes no vale dos rios Itajaí e Tubarão, em Santa Catarina, e do rio Madeira, na Amazônia, e secas mais frequentes no Nordeste e Sudeste”, afirmou Nobre.

Espécie de salpa - um plâncton gelatinoso - descoberta durante a expedição Tara Oceans. Foto: Divulgação/Tara Oceans

Espécie de salpa - um plâncton gelatinoso - descoberta durante a expedição Tara Oceans. Foto: Divulgação/Tara Oceans

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