Desumanidade e burocracia revestem Saúde contra pacientes que precisam de remédios


Quinta-feira, 9 de abril de 2015, às 19h15 – atualizado às 22h28


Burocrata, chamado pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) de médico-revisor, a denigre, até à própria profissão, ao negar medicação a paciente, devido sua interpretação errática de um simples código, esquecendo que em primeiro lugar vem o ser humano, a vida e depois viria a letra. Já alertamos sobre auxiliares da entidade filantrópica que se arrogam de poder diante dos mais humildes, recebendo-os com o mau-humor e a pressa característicos do funcionalismo público – estes então, sustentados pela população que atendem de mal a pior, acabam servindo de modelo a outros tantos.

Gerson Soares

Considerado o pai da Medicina, consta no Juramento de Hipócrates, abraçado pelos médicos que se formam, o seguinte:

“(...) Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém (...)”. (Brasil, versão de 1.771, adotada pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo).”

Hipócrates, gravura por Peter Paul Rubens, 1638. Cortesia da Biblioteca Nacional de Medicina. Foto: Wikipédia

Hipócrates, gravura por Peter Paul Rubens, 1638. Cortesia da Biblioteca Nacional de Medicina. Foto: Wikipédia

Depois uma reportagem publicada em fevereiro de 2014, o Alô Tatuapé passou a ter um contato mais apurado com o universo de pessoas que chegam de longe, de muito longe até, para retirar os remédios na Farmácia de Alto Custo da Vila Mariana, hoje com melhores instalações do que no ano passado, mesmo tendo mudado de endereço e se afastado sobremaneira do acesso ao metrô e às linhas de ônibus, estando o posto agora, próximo à Av. Rubem Berta e deixando para trás os poucos metros que separavam o antigo endereço – instalado num prédio que chegou a uma situação degradante – das estações Santa Cruz e Vila Mariana do Metrô, causando transtornos a milhares de pacientes.

Após a inauguração, Alô Tatuapé publicou mapas e a melhor maneira encontrada na época para chegar ao novo posto, instalado na Av. Dr. Altino Arantes, 1344, a fim de facilitar a vida daqueles com os quais compartilhamos os sofrimentos em janeiro do ano passado, o que nos trouxe a este ponto e nos impulsionará adiante. No início, as novas instalações em um prédio reformado suportaram bem a demanda, no mês passado (março) faltavam copos para beber água. Lá estava o bebedouro, mas o sedento precisava arranjar a própria vasilha. Um mês antes, em fevereiro deste ano, o banheiro masculino do andar térreo estava desativado, obrigando a qualquer um (deficiente ou não) ter de subir um lance de escada. Em março, a situação piorou e o banheiro feminino também foi interditado.

Humildes são as pessoas para ali encaminhadas, muitas delas. Vêm de longe e enfrentam fome, frio, chuva para retirar o precioso remédio para as suas próprias vidas ou para seus entes mais queridos, como é o caso dos transplantados que não podem viver sem os remédios imunossupressores, mas voltam para casa de mão abanando, com a simples frase de que “deve ficar ligando para ver se chegou o remédio”. Sem defesa aceitam e se vão.

Mas quando chegam ao posto, precisam estar com tudo muito bem certinho, caso contrário enfrentarão a arrogância, a burocracia e principalmente a desumanidade que é o que mais choca e constrange. Quando vem de um médico, a sensação é de que não há esperança, pois ele é o ser que pode ajudar, mas ao negar a medicação a um paciente que pode vir a falecer, por causa de uma única letra ou um único número escrito por engano no inexpugnável Laudo para Autorização/Dispensação de Medicamentos Excepcionais e Estratégicos (LME), tornasse mais que um vilão da saúde, compartilha com o caos que aí existe no país e com a desumanidade de um sistema totalmente superado e antiquado.

 

vida

 

A Secretaria de Estado da Saúde, se nega a responder as nossas perguntas desde a reportagem do ano passado, nega-se a marcar uma entrevista com o secretário da pasta para que possamos dizer-lhe pessoalmente a humilhação pelo qual passam os pacientes mais pequeninos, aqueles que mal conseguem ler os letreiros de um ônibus e ligam para a redação a fim de obter informações.

Há duas semanas, no mínimo, temos recebido reclamações de que os telefones da Farmácia de Alto Custo da Vila Mariana estão fora de uso, não atendem, dão sinal de ocupado. Imaginamos ser a demanda de trabalho, mas hoje constatamos que os quatro números divulgados não funcionam e deixam sem informações os pacientes que precisam dos remédios. Sem saber o que fazer, seguindo o instinto de sobrevivência dirigem-se ao posto de saúde e lá dão de cara com a indiferença e o excesso de burocracia. O serviço da Farmácia de Alto Custo da Vila Mariana, melhorou é bem verdade, mas está longe de ser um modelo.

Quando faltam remédios, os pacientes devem ter paciência, mas quando falta humanidade fica muito difícil. Aguardamos a resposta da SPDM, como sempre, para esta questão, a dos telefones. Às 19h33 não havíamos recebido nada, mas não culpamos a entidade, sabemos que a burocracia e a blindagem da Secretaria de Estado da Saúde não lhes permite nem mesmo falar ou se pronunciarem sem o aval do patrono.

Então que seja dado o aval da população, que aqueles que não conseguem suas medicações e enfrentam o descaso se reúnam e não mais aceitem esse sistema fracassado, que por um lado se vangloria dos feitos magníficos e dos aparelhos instalados em modernos hospitais, dispositivos de última geração, das campanhas humanitárias, mas por outro continua utilizando guias xerográficas, preenchidas a caneta e arroga-se negar o medicamento ao necessitado, que traz a guia escrita pelo médico exausto, que preencheu uma letra ou um número errado na arcaica LME. Depois de horas de trabalho dedicadas à saúde dos pacientes, de tantas outras de estudos e atualizações, o doutor precisa preencher quadradinhos em formulários hediondos, ao invés de simplesmente tocar num botão do computador e enviar o pedido de remédios diretamente aos computadores dos postos de saúde, onde já deveria constar o nome dos pacientes, principalmente daqueles que utilizam medicação contínua e a retiram mensalmente.

Mais uma vez, pedimos uma reunião com o secretário Uip da pasta da Saúde. Queremos que ele reconheça estas verdades e todas as outras que mantemos publicadas em nosso site, e se caso estivermos errados e enganados que nos desminta, teremos satisfação em publicar sua versão destes fatos.

À médica revisora da SPDM, que hoje negou, pelo menos a um paciente transplantado, os remédios necessários à manutenção de sua vida, esperamos que só tenha feito isso por engano de suas diminutas convicções, a este. Nossa esperança, é que a outros não tenha prejudicado, com seu esquecimento do juramento que fez e do qual será cobrada.

 


Depois do questionamento enviado à assessoria da SPDM nesta manhã, coincidindo com as ligações recebidas pela nossa redação, comprovando que há aproxidamente 15 dias as linhas 5594-5992/93/94/95, deixaram de funcionar, às 20h de hoje (9) a entidade enviou o seguinte comunicado sobre as linhas telefônicas:

“A linha telefônica da Unidade de Farmácia Vila Mariana, 5074-4700, está funcionando normalmente. Desde 12 de março de 2.015, com a instalação do PABX, este é o número telefônico de contato de pacientes e usuários com a referida Unidade de Farmácia. Importante ressaltar que os pacientes foram informados, desde o mês de fevereiro, que este seria o novo número telefônico da Unidade e que os números anteriores estariam inoperantes a partir da mesma data.

A corroborar com a informação prestada, ampla divulgação interna foi feita na Unidade de Farmácia, com comunicados expostos em Salas de Atendimento, Filipetas e Impressos. A título de ilustração, encaminhamos anexo, como documentação da preocupação que temos em informar, com responsabilidade e correção, pacientes e usuários".


Nota da redação: Há bastante tempo, nos colocamos à disposição da SPDM para divulgação de notas e comunicados importantes como este – a mudança ou instalação de telefones –, a qualquer momento que seja necessário. Porém, ressaltamos que em nenhum momento recebemos aviso sobre a mudança anunciada hoje. O Alô Tatuapé recebe ligações diárias de pessoas buscando informações sobre a Farmácia de Alto Custo da Vila Mariana e acessos ao site sobre o assunto, a principal questão atualmente é sobre os telefones que não funcionam. Esperamos que com a ampla divulgação citada pela assessoria da entidade, os pacientes possam conhecer o novo número. Vale lembrar que estivemos no posto nos meses de fevereiro e março e não recebemos a filipeta divulgada, nem qualquer material ou ainda tivesse sido possível ver cartazes.

Filipeta: Xerox recortada, artesanal. Foto: SPDM

Sala de espera: cartão fixado num quadro de avisos, chamado de cartaz. Foto: SPDM

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