Discussão Rosa no Senado


Quinta-feira, 16 de outubro de 2014 às 21h18


Mamografias fora da idade recomendada devem ser feitas com moderação, dizem médicos.

Elina Rodrigues Pozzebom e Marilia Coêlho da Agência Senado

Sala de comissões do Senado durante audiência pública interativa que a Procuradoria Especial da Mulher, do Senado, promove dentro do projeto Quintas Femininas. O evento é a primeira edição especial do projeto em alusão ao Outubro Rosa. Da esquerda para a direita, Carolina Fuschino, Arn Migowski, Nara Beú e Lilian Marinho. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A qualidade da informação e o rastreamento e prevenção do câncer de mama por meio de mamografias foram discutidos, nesta quinta-feira (16), em audiência pública sobre o Outubro Rosa, realizada no âmbito do programa Quintas Femininas, da Procuradoria Especial da Mulher no Senado. A moderação na frequência do exame na faixa etária abaixo da recomendada pelo Ministério da Saúde, que é de 50 a 69 anos, foi uma das orientações dadas pelos profissionais que participaram do debate.

De acordo com a médica Carolina Fuschino, da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), o ideal é direcionar a realização das mamografias para a chamada faixa prioritária, na qual há maior impacto na diminuição da mortalidade, mas sem abandonar as outras. A partir dos 40 anos, acrescenta, algumas organizações médicas sugerem que se faça o exame para o chamado rastreamento — para mulheres com baixa probabilidade de desenvolvimento de tumores — porque também há um impacto na mortalidade, embora menor.

— A mamografia não é um exame que não vai ter efeitos colaterais. Se você aumenta muito o número de mamografias ao longo da sua vida, essa radiação a que você vai estar submetida tem efeitos cumulativos. Isso não vai ter um impacto importante para surgimento de cânceres. Mas, a partir do momento em que você começa a fazer mais cedo, essa radiação vai ser maior ainda — explicou.

A mudança de postura se deve, entre outros pontos, ao chamado overdiagnóstico. De acordo com Arn Migowski, sanitarista, epidemiologista, tecnologista da Detecção Precoce e Apoio à Organização de Rede do Instituto Nacional de Câncer (Inca), muitos dos casos detectados num estágio bem inicial poderiam nem mesmo ter se desenvolvido e se tornado câncer. Além disso, pesquisas demonstram que, mesmo com o crescimento do diagnóstico precoce de tumores nas mamas, a sobrevida das mulheres não aumentou significativamente.

Os dois médicos mencionaram um estudo canadense que acompanhou por 25 anos grupos de mulheres que se submeteram ao rastreamento por mamografia e outras que fizeram apenas o exame físico. A sobrevida, o tempo de vida e o risco de morte nos dois grupos foram idênticos, não houve diferença estatística importante. Apesar de o estudo ter sido considerado uma “bomba” na postura terapêutica adotada até então, Carolina Fuschino salientou que a realidade canadense não pode ser transportada para outros países.

— No Canadá, um mês depois de detectado o tumor, a paciente já está em tratamento. No Brasil não conseguimos nem rastrear — registra.

Ambos os médicos também refutaram a ideia de que o rastreamento se tornou inútil e concordaram que ele deve ser realizado após debate com o profissional médico, considerando malefícios e benefícios. Eles insistiram que a educação, a percepção corporal e uma vida saudável, com alimentação equilibrada, são essenciais para a saúde da mulher.

16/10/2014, 16h00

Procuradoria Especial da Mulher debate câncer de mama

A Procuradoria Especial da Mulher (PEM) debateu nesta quinta-feira (16) o tema “Câncer de mama: informação transparente e decisão consciente”. O debate integra a campanha Outubro Rosa, que dedica este mês para a divulgação de medidas preventivas da doença.

Tirania do rosa

A ativista Lilian Marinho, da Rede Feminista de Saúde, Diretos Sexuais e Reprodutivos, acusou a construção, por todo o Brasil, de uma “tirania do rosa”, com a iluminação de monumentos em várias cidades em alusão ao chamado Outubro Rosa e a imposição de um “véu da alegria” que acaba mascarando as verdadeiras necessidades: o fim da desinformação e o incremento da comunicação; e a atuação rápida nos casos diagnosticados de câncer de mama e colo de útero, pois o tempo é a melhor arma para o tratamento. Segundo disse, o Estado brasileiro não pode somente lançar uma suspeita de câncer sobre uma mulher sem garantir a ela continuidade e rapidez no tratamento em caso de diagnóstico positivo.

— Queremos que com o Outubro Rosa [a atenção] se estenda, para que se garanta a essas mulheres o que vem depois, tratamento e acompanhamento — propõe.

Apesar de elogiar a campanha, que semeia a necessidade do cuidado, Lilian criticou os problemas de comunicação entre a população-alvo e as entidades e profissionais da área de saúde envolvidos com o tema. Algumas mulheres na faixa de 40 anos, por exemplo, exigem o direito assegurado em lei de fazer a mamografia preventiva, mas o Sistema Único de Saúde (SUS) mal consegue garantir o procedimento à faixa etária prioritária, dos 50 aos 69 anos, observa.

Além disso, ela aponta falta de infraestrutura como a existência de poucos laboratórios de alto risco para câncer, a lentidão na continuidade do tratamento e interesses econômicos e da indústria de medicamentos e de aparelhos — que levam a discussões sobre qual mamógrafo é melhor, analógico ou o digital, quando há lugares sem nenhuma opção — como fatores que lesam o direito de cada mulher ser tratada e, em casos extremos e não mais tratáveis, de ter uma sobrevida digna, sem dor e sofrimento.

Lilian Marinho também cita fatores como as desigualdades regionais, a falta de atenção a grupos específicos como presidiárias, albinas e moradoras de rua como problemas para a universalização do atendimento.

Assim como Lilian Marinho, Carolina Fuschino também aponta a falta de comunicação, de uma relação próxima e com empatia entre médico e paciente e de informação de qualidade como entraves ao diagnóstico e tratamento do câncer de mama e de colo de útero.

— No Brasil, não temos um estudo que mostre como está se dando, na prática clínica, a transmissão do conhecimento para o paciente, para ajudar na decisão do tratamento e do rastreamento. A comunicação é muito difícil — lamenta.

Ela cita que a ausência de informação é tanta que o Outubro Rosa pode passar até mesmo uma mensagem equivocada, de que a mamografia evita o câncer de mama, como se fosse uma vacina, em vez de somente detectá-lo precocemente.

16/10/2014, 18h44

'Sobrediagnóstico' é risco na luta contra o câncer de mama, dizem especialistas

Estudos recentes no Canadá e em outros países mostraram que o aumento no número de mamografias preventivas do câncer de mama levou a uma explosão no número de diagnósticos da doença, sem que tenha havido uma redução significativa na detecção de casos em estágio avançado. Além disso, as mulheres, em muitos casos, têm sido expostas a tratamentos de risco e desnecessários. É o chamado "sobrediagnóstico", tema do encontro “Quintas Femininas” desta semana, promovido pela Procuradoria Especial da Mulher do Senado.

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Autor: alotatuape

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