Ética teve Julio Botelho, “o maior ponta direita do mundo”


Domingo, 20 de maio de 2018 às 13h46


Em 1956 ele já jogava na Fiorentina, time italiano. Foi um dos primeiros jogadores brasileiros contratados por times estrangeiros. Naquele mesmo ano, ele já conquista o primeiro Scudetto. Ainda hoje, o jogador brasileiro é lembrado como herói, aqui ou lá.

Foram necessários somente dois anos para que Julinho Botelho se consagrasse em Florença (Firenze, região da Toscana), cidade italiana que o venera. Chegou em 1956 e voltou em 1958, ano no qual um episódio marcaria sua gloriosa história pessoal e de atleta do futebol. O homem que calou o Maracanã, “nasceu em 29 de julho de 1929 e surgiu como estrela nos campos de várzea da Penha, bairro tradicional da capital paulista”, está escrito na revista comemorativa do Cinquentenário do União Rio Branco Esporte Clube, fundado por ele em 1962.

 

1992, Itália: Julio Botelho é homenageado pelo jornal La Nación, ao seu lado o filho Carlos Botelho. Foto: arquivo pessoal

 

Titular absoluto da Seleção Brasileira, não teve no time as glórias que merecia em nome de sua integridade moral, mas nas vezes que vestiu a camiseta verde e amarela mostrou porque mereceu a frase dita por Pelé: “O maior ponta direita do mundo” – Revista do Esporte década dos anos 1950/60. Julinho retribui, dizendo na mesma entrevista: “Sozinho, ele vale por uma boa equipe”.

 

Quadro visto na Escola Julio Botelho, no bairro da Penha, fundada pelos filhos do jogador. A homenagem ao pai traz as páginas da entrevista de Pelé e Julinho Botelho à Revista do Esporte, por volta dos anos 1950/60. Foto: aloimage

 

Convocado em 1958 para a Copa do Mundo na Suécia, se integraria à Seleção Brasileira de Futebol na Itália, mas declinou da convocação em nome dos seus princípios éticos. “Julinho Botelho... o legado da ética e da humildade”, escreveu o site Tardes de Pacaembu. Luciano Ubirajara Nassar também publicou um livro sobre ele, com o título: Julinho Botelho – Um Herói Brasileiro –Editora Expressão e Arte.

 

Time do Rio Branco em 1966: Julinho Botelho (1º E), depois que voltou da Itália estava em plena forma. Aqui vemos também Alfredo Mostarda (4º E/D), ex-jogador do Palmeiras e da Seleção Brasileira. Entre craques anônimos, os dois palmeirenses (Julinho fez parte da “academia de futebol do Palmeiras”), todos escreveram um belo capítulo da história do esporte com sua arte. Foto: URBEC / arquivo ALOSP

 

“Entre 2012 e 2013, escrevi a história dos 50 anos do time fundado por Julinho e descobri não só a figura do jogador de futebol, mas o quanto sua conduta influenciou e ainda influencia gerações no bairro da Penha. Uma história digna da ética, entre as várias atitudes que permearam sua vida”, afirma o escritor.

 

Capa da Revista Comemorativa “Cinquentenário União Rio Branco E. C., time fundado por Julio Botelho – 1962 - 2012”, de autoria de Gerson Soares, publicada em fevereiro de 2013. “Devemos sempre nos lembrar da incansável colaboração de Amândio Martins que não mediu esforços para o sucesso desse trabalho que é mais um documento histórico sobre esse atleta excepcional e suas façanhas”, diz o autor.

Leia um trecho da revista comemorativa “Cinquentenário União Rio Branco E. C., time fundado por Julio Botelho – 1962 - 2012”, autor Gerson Soares (pp. 12, 13, 14), publicada em 2013.

“Jogando na Itália, longe de casa, Julinho recebe notícias de que o pai estava mal de saúde, e embarca para o Brasil. Deve-se lembrar que naquela época demorava-se até cinco dias para chegar. Segundo a família, ele chegou poucos dias antes do falecimento de Francisco e tomou importantes providências. Logo após o funeral, retornou para a Itália. Chegando nas primeiras horas da manhã de um domingo, foi dispensado para descansar, mas disse: “Vou jogar em homenagem ao meu pai”. E jogou muito contra o Milan naquela tarde. Somente após a partida, os companheiros o viram chorando copiosamente no vestiário.

Suas atuações, seu exemplo de conduta moral dentro e fora do campo, lhe valeram alta valorização no exterior, principalmente na Itália. Depois de jogar na Fiorentina durante três temporadas e ser idolatrado pela fanática torcida da terra dos gênios da arte, Julio se tornara entristecido, alegando saudades do Brasil e da Penha, queria voltar. Isso preocupava os italianos que lhe ofereceram todos os tipos de benefícios para que ficasse. Segundo se afirma, até mesmo um contrato com o valor em branco, para que ele marcasse quanto queria ganhar lhe foi oferecido. Outros times da Europa também o contratariam, mas ele voltou ao Brasil em 1958.

Ainda na Itália, mais um episódio inusitado ficaria na história de Julio Botelho ao ser convocado (ele e Joel) para a ponta-direita da Seleção Brasileira pelo técnico Vicente Feola, a fim de disputar a Copa do Mundo de 1958 na Suécia. Em telegrama foi recomendado pelo chefe da Delegação Brasileira Paulo Machado de Carvalho (dirigente do futebol brasileiro ao lado de João Havelange e chefe das delegações de 1958 e 1962, ficou conhecido como Marechal da Vitória por essas duas conquistas) que ele se incorporasse à delegação na Itália, após um jogo preparatório contra a Fiorentina. Munido daquele comunicado, o atleta senta-se em frente a uma máquina de escrever e redige uma carta. Nela pede dispensa da convocação ao Chefe da Delegação, “pois não achava justo que um jogador que atuasse fora do Brasil tirasse a vaga de um atleta que estivesse jogando no futebol brasileiro”, deixando claro que isso não era por menosprezo para com seus colegas ou com a Pátria, pelo contrário, afirmava que eles já estavam finalizando a preparação física e técnica, quanto a ele (Julio) “seria um estranho chegando nessa reta final de trabalho”. Agradeceu, pediu desculpas, e com esse gesto criou a oportunidade para que outro gênio despontasse para o mundo. E dizia com sua modéstia: “Se eu tivesse ido, talvez o Brasil não tivesse a felicidade de ver o Mané Garrincha naquela copa”.

A torcida florentina ainda guarda recordações de Julio. Em sua despedida lhe deram um Alfa Romeo e ainda hoje existe um fã clube onde o brasileiro desponta como um dos ídolos. Os companheiros também se despediram com um livro dedicatório, e quanto à diretoria seria até redundante dizer que fizeram tudo para mantê-lo no time. Em 1992, foi chamado à Itália para receber uma grande homenagem, e acompanhado pelo filho Carlos Botelho foi recebido com honrarias, ao lado dos campeões que conquistaram o primeiro Scudetto do time em 1955/56, mesmo ano da sua contratação”.

Ottawa, Canadá: país é um dos destinos dos brasileiros que se aventuram em busca de organização e estabilidade. Foto: Wikipedia

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