Grupo investiga efeito da reposição hormonal no cérebro


Quarta-feira, 12 de agosto de 2015, às 09h49


Karina Toledo, do Rio de Janeiro | Agência FAPESP – A reposição de estrogênios em mulheres no período de peri e pós-menopausa tem sido associada em estudos observacionais com humanos a uma melhora da concentração, memória, humor e sono, bem como a um retardo do declínio cognitivo.

Para desvendar os mecanismos moleculares pelos quais esses hormônios sexuais afetam o cérebro, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) têm realizado experimentos com ratas, nas quais uma condição semelhante à menopausa é induzida com a retirada cirúrgica dos ovários – os órgãos mais importantes para a produção de hormônios sexuais femininos.

Dados do estudo foram apresentados pela pesquisadora Grace Schennato Pereira Moraes durante a nona edição do Congresso Mundial do Cérebro (IBRO 2015), realizado no Rio de Janeiro de 7 a 11 de julho.

 

Estrogênio: reposição hormonal pode ser benéfica para o cérebro de mulheres na menopausa. Imagem: Wikimedia Commons

Estrogênio: reposição hormonal pode ser benéfica para o cérebro de mulheres na menopausa. Imagem: Wikimedia Commons

 

“Avaliamos os animais por meio de testes comportamentais e somente 12 semanas após a cirurgia começamos a notar um declínio na memória, bem como indícios de depressão e ansiedade. O tratamento com estradiol, a forma mais ativa de estrogênio, foi capaz de reverter os sintomas mesmo sendo iniciado após essas 12 semanas”, contou Moraes em entrevista à Agência FAPESP.

Segundo a pesquisadora, os resultados contrariam a corrente teórica segundo a qual existiria uma janela de oportunidade para que a terapia hormonal consiga evitar o declínio cognitivo causado pela ausência de hormônio. Aparentemente, os benefícios seriam obtidos mesmo com uma reposição tardia.

“Na prática, é isso que acontece com muitas mulheres, que apenas iniciam o tratamento quando se sentem incomodadas com os sintomas”, disse Moraes.

Um dos testes usados para avaliar a memória consiste em colocar a rata em uma caixa com dois objetos idênticos no centro durante cerca de 10 minutos. Os pesquisadores avaliam o tempo que o animal passa explorando os objetos. Alguns dias depois, o roedor é colocado no mesmo ambiente com um objeto igual ao existente na sessão de treino e outro, diferente.

“Supomos que o animal consegue se lembrar do objeto já conhecido quando ele passa mais tempo explorando o novo. É um teste simples, mas bem padronizado na literatura científica”, explicou Moraes.

Para avaliar a memória de medo condicionado, o animal é colocado em uma caixa na qual todas as vezes que um determinado som é emitido ele recebe um leve choque nas patas. O roedor então associa o som ao desconforto e a resposta comportamental típica, sempre que o escuta, é ficar paralisado (freezing).

“Em seguida nós colocamos a rata em uma caixa diferente, na qual ela pode se movimentar normalmente. O animal controle, quando ouve o som, imediatamente fica imobilizado. Nas ratas operadas, nós quantificamos a manifestação desse comportamento de freezing. Quanto mais parecido for o resultado com o do grupo controle, sinal de que melhor está a memória”, disse a pesquisadora.

Os sinais de depressão foram avaliados por um teste conhecido como nado forçado – muito usado na triagem de drogas com ação antidepressiva. O roedor é colocado em um recipiente com água e os pesquisadores medem o tempo que ele permanece nadando para tentar escapar. Os animais deprimidos costumam desistir mais rapidamente e começam a boiar. Medicamentos com efeito antidepressivo, em geral, aumentam o tempo em que o animal continua nadando.

Já a ansiedade foi medida colocando o animal em uma espécie de labirinto com formato de cruz, no qual há duas hastes cobertas e duas descobertas. Quanto mais ansioso estiver o roedor, mais tempo ele tende a passar nos braços fechados, explorando menos as regiões abertas.

O passo seguinte foi medir o desempenho das ratas nos mesmos testes comportamentais após dois diferentes protocolos de tratamento com estradiol. No primeiro, uma única injeção do hormônio foi dada diretamente no hipocampo das ratas na 12ª semana após a cirurgia. No segundo, o tratamento foi feito por via oral durante cinco semanas, sendo que o início também foi na 12ª semana pós-cirúrgica.

O protocolo agudo melhorou o desempenho das ratas no teste de reconhecimento de objetos e de nado forçado, que mede a depressão, tornando o resultado equivalente ao do grupo controle. No entanto, não houve melhora no teste de medo condicionado e nem no labirinto em cruz, que avalia ansiedade.

“Esses dois sintomas parecem não estar relacionados com a presença de estradiol, pelo menos não no hipocampo. Agora estamos investigando se teria algum efeito a aplicação desse hormônio na amígdala”, comentou Moraes.

Após o tratamento crônico de cinco semanas, os pesquisadores notaram melhora no desempenho da memória de reconhecimento de objetos. Os outros testes comportamentais ainda não foram aplicados nesse protocolo terapêutico.

A análise do tecido cerebral das ratas feita na 12ª semana após a cirurgia para retirada dos ovários revelou queda na expressão dos receptores de estrógenos no hipocampo. Para Moraes, no entanto, ainda seria precoce afirmar que essa seria a causa do declínio cognitivo observado.

“Pretendemos agora avaliar a expressão desses receptores na sexta semana após a cirurgia, antes que os sintomas tenham se manifestado”, disse.

Segundo a pesquisadora, nessa região cerebral, existem dois tipos de receptores de estrógeno: alfa e beta. A melhora observada nos testes de memória parece estar associada a uma maior ativação dos receptores alfa. Já a diminuição dos sintomas depressivos parece associada à ativação dos receptores do tipo beta.

“Supomos que a ativação dos receptores de estrogênio no hipocampo teria permitido que os neurônios envolvidos na consolidação da memória fossem recrutados mais adequadamente. Mas por enquanto isso é apenas especulação. Agora faremos experimentos para tentar comprovar essa teoria”, disse.

Os resultados mais recentes foram divulgados em julho na revista Psychoneuroendocrinology. Dados dos experimentos também foram publicados em dois artigos na Neurobiology of Learning and Memory, em outubro de 2014 e janeiro de 2013.

Na avaliação da pesquisadora, os achados indicam que a reposição hormonal pode ser benéfica para o cérebro de mulheres na menopausa. Moraes alerta, no entanto, que o tratamento não é indicado para todas.

“Antes é preciso uma boa avaliação médica e o levantamento do histórico familiar. A principal contraindicação é a existência de casos de câncer de mama entre parentes próximos”, disse.

Perimenopausa

A cirurgia para retirada dos ovários foi necessária durante a pesquisa porque as ratas, ao contrário das mulheres, não entram naturalmente na menopausa. Uma das limitações do estudo conduzido na UFMG, portanto, é não mimetizar com precisão a queda lenta e gradual na produção dos hormônios sexuais durante o período conhecido como perimenopausa.

A perimenopausa tem início por volta de 40 anos e dura cerca de uma década, até a última menstruação. É durante essa fase que sintomas desagradáveis como ondas de calor, depressão, insônia, ansiedade e agressividade costumam se manifestar mais fortemente.

Além disso, as ratas submetidas à cirurgia para retirada dos ovários ainda possuem o cérebro jovem, o que pode criar um viés nos resultados de experimentos que visam identificar a ação da reposição hormonal no sistema nervoso central.

Para contornar essas questões, Moraes inicia uma colaboração com um grupo da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FORP-USP), liderado pela professora Janete Franci, que tem desenvolvido trabalhos que visam validar um modelo animal capaz de mimetizar o processo de perimenopausa em ratas.

As pesquisas contam com a participação de diversos bolsistas da FAPESP, como Paulo de Tarso Silva Barros, Karin Viana Weissheimer, Arikawe Adesina Paul e Cristiane Mota Leite.

Segundo Franci, descobriu-se há alguns anos que o composto químico conhecido como diepóxido de 4-vinilciclohexeno (VCD na sigla em inglês), liberado durante a fabricação de borracha sintética, inseticidas e alguns tipos de plásticos, destrói os folículos existentes nos ovários femininos, que são as estruturas onde os óvulos são armazenados, podendo causar infertilidade.

“Quando as ratas completam 30 dias de idade, começamos a tratá-las com injeções de VCD durante 15 dias e aguardamos outros 80 dias para que comecem a surgir os sintomas de falência ovariana. Estamos interessados em estudar as alterações de humor nesses animais durante esse período de transição, para ver se são parecidos com as observadas nas mulheres”, contou a pesquisadora.

Os testes comportamentais já feitos, contou Franci, mostraram que as ratas nas quais a perimenopausa foi induzida apresentaram mais sintomas de depressão (nado forçado) e ansiedade (labirinto em cruz) quando comparadas ao grupo controle.

“Agora estamos fazendo novos testes que sugerem que elas se tornam também mais agressivas. Em parceria com o grupo da UFMG pretendemos investigar por que isso acontece. No modelo animal podemos estudar o cérebro para descobrir o que mudou, algo que não podemos fazer nos estudos com humanos, e também testar que tipo de medicamento pode ser usado para evitar que esses sintomas indesejados apareçam”, disse Franci.

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