Holocausto brasileiro

Gerson Soares

13 de Março, às 11h32

O repórter José Franco e o fotógrafo Luiz Alfredo da revista O Cruzeiro, em 1961, documentaram o que passava no hospício de Barbacena, Minas Gerais, tendo como testemunha a lente de uma câmera fotográfica. Luiz Alfredo fotografou gente tomando água do esgoto que jorrava a céu aberto, crianças misturadas com adultos, mulheres nuas sujeitas à promiscuidade e ao abuso sexual, viu a comida preparada com carnes cortadas no chão, espreitadas pelos urubus. José Franco escreveu “A sucursal do inferno”, que ganhou cinco páginas no mês de maio daquele ano, na maior revista do país. A reportagem demonstrou que o Brasil reproduzia o modelo dos campos de concentração nazista, menos de duas décadas depois do fim da II Guerra Mundial.

O jornalista Hiram Firmino e a fotógrafa Jane Faria do jornal Estado de Minas, venceram 18 anos de blindagem, após uma entrevista com o então secretário da saúde do estado, Eduardo Levindo Coelho. Em 1979, depois de driblar o mau humor do diretor do Colônia, como era conhecido o hospício mineiro, passaram por uma ala com 400 mulheres nuas, logo no primeiro dos 16 pavilhões existentes. Entre suas conclusões, publicadas na série de reportagens “Os porões da loucura”, o Colônia existia mais para fins políticos do que terapêuticos.

Pessoas foram levadas para o Hospital Colônia de Barbacena, desde o início do século XX, sem motivos realmente patológicos ou critérios médicos. Alguns perderam os documentos ou pegos fumando maconha, como constatou Hiram Firmino. Mas muitos lá foram deixados e esquecidos por atitudes comportamentais como perder a virgindade antes do casamento, ou reclamar que da amante do marido.

Por abusar do álcool, homossexualismo, ter tido a dupla infelicidade de ser estuprada por um rico comerciante ou sem cometer crime algum, uma pessoa poderia ser enviada para o inferno num dos “trens de doido”. Expressão que pegou, depois que o escritor Guimarães Rosa o publicou num de seus contos, “Soroco, sua mãe, sua filha”. Os trens desembarcavam os condenados diretamente no Hospital Colônia, assim como fizeram os nazistas em seus campos de concentração.

No ano de 1979, o cineasta Helvécio Ratton teve de vencer as dificuldades e torcer para que a súbita abertura da cortina que envolvia o Colônia não fosse fechada novamente, antes que pudesse produzir um documentário sobre a situação que testemunhava. Durante as filmagens de “Em nome da razão”, como ficou intitulado seu filme sobre o hospício de Minas Gerais, o cineasta não entendia como as famílias, a medicina e o Estado brasileiro permitiram que tais fatos ocorressem, durante tanto tempo. O cineasta não pode filmar as cenas vistas em 1970, pelo também inconformado professor da Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, Ivanzir Vieira, anos antes em 1970, quando foi surpreendido antes da aula, por dezenas de cadáveres espalhados no chão do pátio interno da faculdade em grotescas posições. Homens e mulheres desnudados, deixando à mostra suas intimidades, material humano que seria comercializado por 50 cruzeiros cada um, cerca de 200 reais hoje. O valor não importa.

Trechos de apresentação do livro

“O livro-reportagem ‘Holocausto brasileiro’ da jornalista Daniela Arbex, resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil. (...) Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.

Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros do Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. (...) Os pacientes do Colônia às vezes comiam ratos, (...) dormiam sobre capim, eram espancados e violados. (...) Pelo menos 30 bebês foram roubados de suas mães. (...) Morriam também de choque. (...) Nos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam a cada dia. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades de medicina do país, sem que ninguém questionasse. Quando houve excesso de cadáveres e o mercado encolheu, os corpos foram decompostos em ácido, no pátio do Colônia, diante dos pacientes, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida (...)”.

Daniela Arbex recebeu o prêmio Esso de jornalismo (o mais aclamado da categoria) pela série “Holocausto brasileiro”, publicada desde 2011 no jornal Tribuna de Minas, onde trabalha como repórter especial há 20 anos. Consta ainda em seu trabalho, a vinda do psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro na luta pelo fim dos manicômios que também visitou o Colônia em 1979, levado pelo psiquiatra brasileiro Antônio Soares Simone, perseguido pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) por isso e por ter convocado uma coletiva de imprensa, a pedido do médico italiano, inspirador da Lei 180 que aboliu os hospitais psiquiátricos na Itália e leva seu nome. Diante da grande imprensa nacional ele disse: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como esta”. Suas declarações chegaram até mesmo ao New York Times.

Capa do livro-reportagem "Holocausto brasileiro", de Daniela Arbex.

Capa do livro-reportagem "Holocausto brasileiro", de Daniela Arbex.

Trecho de “Holocausto brasileiro

“(...) Pressionada, a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), que passou a gerir a totalidade dos hospitais públicos do estado, em 1977, período em que as antigas fundações de assistência de saúde do Estado se fundiram, aprovou, em 1980, o Projeto de Reestruturação da Assistência Psiquiátrica. (...) Os porões da loucura, finalmente, começaram a ser abertos (...)”

Depois de ler o livro-reportagem de Daniela Arbex, temos mais uma vez a certeza de que não erramos quando afirmamos que existe um lado sombrio que nos atormenta, é difícil não mencionar a existência de um pano que cobre a Saúde no Brasil. A cortina tapa o sol como uma peneira aqui e ali surgem as brechas para mostrar seus bastidores. Milhões de pacientes sofrem e morrem pela falta de assistência ou o atraso dela. Falta de orientação, falta de interesse. Neste século XXI, onde qualquer pessoa pode fazer um filme suficientemente bom para mostrar uma situação qualquer, a sombra que acobertou durante quase um século a desumanidade e a loucura dos sadios em Barbacena, Minas Gerais, deve ser lembrada e nunca mais esquecida por todo o país.

Luiz Alfredo, da Revista O Cruzeiro, em 61. Autor do conjunto de fotos do holocausto brasileiro. Facebook Tribuna de Minas 2011

Luiz Alfredo, da Revista O Cruzeiro, em 61. Autor do conjunto de fotos do holocausto brasileiro. Facebook Tribuna de Minas 2011

Esgoto a céu aberto era fonte de água para internos. Luiz Alfredo (1961)/Museu da Loucura. Facebook Tribuna de Minas

Esgoto a céu aberto era fonte de água para internos. Luiz Alfredo (1961)/Museu da Loucura. Facebook Tribuna de Minas 2011

 Pacientes nus era rotina na instituição psiquiátrica. Luiz Alfredo (1961)/Museu da Loucura. Facebook Tribuna de Minas 2011


Pacientes nus era rotina na instituição psiquiátrica. Luiz Alfredo (1961)/Museu da Loucura. Facebook Tribuna de Minas 2011

Realidade da Colônia era a de um campo de concentração, onde homens e mulheres morriam de inanição. Fotos: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961). Facebook Tribuna de Minas 2011

Realidade da Colônia era a de um campo de concentração, onde homens e mulheres morriam de inanição. Fotos: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961). Facebook Tribuna de Minas 2011

Luiz Alfredo, aos 77 anos, vivendo em Niterói. Facebook Tribuna de Minas 2011

Luiz Alfredo, aos 77 anos, vivendo em Niterói. Facebook Tribuna de Minas 2011

Flagrante do fotógrafo Luiz Alfredo, realizado em 1961, revela cenário de horror de Hospital Colônia. Fotos: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961). Facebook Tribuna de Minas 2011

 

Como não haviam colchões, pacientes dormiam sobre capim, sem condições de higiene, atraindo insetos. Luiz Alfredo (1961)/Museu da Loucura. Facebook Tribuna de Minas 2011

Trapos humanos eram abandonados nos leitos sem acesso a remédios. Luiz Alfredo (1961)/Museu da Loucura. Os pontos pretos vistos na foto, são moscas. Facebook Tribuna de Minas 2011

Carnes usadas para alimentar os internos eram cortadas no chão em área aberta. Luiz Alfredo (1961)/Museu da Loucura

Pavilhão onde internos dormiam no "leito único", nome oficial para substituição de camas por capim. Fotos: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961). Facebook Tribuna de Minas 2011

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Holocausto Brasileiro, book trailer do livro de Daniela Arbex   

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Autor: alotatuape

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