Hospital São Paulo, motivo de orgulho por quase 100 anos dedicados à vida


Quinta-feira, 25 de junho de 2015, às 08h36 - atualizado às 12h46 - atualizado dia 26 de junho às 08h10 para ajustes.


“Eu não queria escrever agora estas linhas, mas por ter sido salvo nessa instituição preciso e me sinto impulsionado a defendê-la na primeira pessoa”. O pequeno relato que segue fará parte do livro, ainda sem título, do jornalista e escritor Gerson Soares.

Carência antiga, milagres e fatos

“A carência de recursos do Hospital São Paulo é antiga. Criado sob a ótica de oferecer mais saúde à população há quase 100 anos, além disso, ainda é uma escola de medicina. Por seus corredores já passaram centenas de milhares de alunos que se tornaram médicos e fizeram milagres.

Milagres não propriamente ditos, no sentido lato, mas diante da profissão que abraçaram, dedicando-se a salvar vidas que por um fio quase se esvaem, como a minha. Porém, há 11 anos assim como hoje (junho/2015), esses milagres também se referem à mais pura falta de elementos básicos para o atendimento e desenvolvimento do aprendizado, da medicina. Quando lá estive internado, à instituição faltava até micropore, uma espécie de fita adesiva para fixar curativos pós-cirúrgicos, também empregados em sondas e bandagens.

Na falta desse item, tão básico, as enfermeiras precisavam usar o esparadrapo, que com o tempo inflama a pele e acaba deixando em carne viva o local. Pacientes acamados, em UTIs, precisam ter seus curativos trocados diariamente e até várias vezes por dia, e a fixação é praticamente sempre no mesmo local do corpo, o uso de esparadrapo no lugar do micropore – que é antialérgico e fixa mais suavemente – acaba esfolando a pele do paciente a cada troca. Carreguei marcas por anos devido à falta desse artigo.

Esses pequenos detalhes só conhece quem passa por eles; médicos, enfermeiros e auxiliares também têm conhecimento. A comida servida, a demora nos exames e resultados, outras pessoas, como os visitantes, não conseguem lembrar disso ou se esquecem para sempre. Quem teve a pele marcada, não.

No São Paulo, também faltava fraldas e quando isso acontecia, além da situação constrangedora, às vezes as enfermeiras eram obrigadas a improvisar. Não estou falando sobre fraldas para crianças. Muitos pacientes, adultos, acamados ou na UTI não podem ser levados ou mesmo se dirigir sozinhos ao banheiro e precisam resolver suas necessidades fisiológicas no leito.

Nos últimos anos, tenho escrito muitas palavras sobre a atuação da Secretária de Estado da Saúde de São Paulo – já que é neste estado em que estou estabelecido e conheço bem melhor do que outros –, do Ministério da Saúde e do governo brasileiro quanto àquilo que entende como SUS (Sistema Único de Saúde), mas os ouvidos se fecham a reclamações que não atingem o calo de ninguém, só a dignidade humana de classes menos privilegiadas. No mês de junho de 2015, o Hospital São Paulo, que é um modelo para essa unidade da federação e para o Brasil, sofre com o descaso de um governo que gasta milhões em outras áreas e se esquece da Saúde.

Certamente diriam: “Nossos investimentos na área da Saúde são de tantos e tantos milhões”. As aspas são por minha conta e devo admitir que é verdade. Acompanhando as ações do governo do estado de São Paulo, percebemos esses recursos na aquisição de equipamentos para diversas instituições, além das unidades hospitalares construídas. Porém, o estado mais rico da União se esquece dos detalhes que são tão importantes quanto comprar leitos bonitos e equipados com motores de acionamento elétrico. São Paulo tanto se expandiu que está incapacitado de abrir os próprios olhos e enxergar o próprio pé, de buscar na própria história o quanto foi feito por verdadeiros heróis anônimos e conhecidos da medicina e enfermagem. Um patrimônio humano e histórico que está sendo corroído pela insensatez, pela perda de valores, perda da irmandade e do patriotismo.

Como permitir que o Hospital São Paulo chegasse à situação calamitosa divulgada entre os dias 18 e 19 de junho de 2015 em toda a mídia? Uma situação ditada pelo tempo e anunciada pela diretoria da instituição, sobre a crise financeira, ninguém ouviu? Médicos residentes entraram em greve no dia 23 daquele mês, não buscavam melhores salários, mas sim condições de atendimento ao público, que segundo os próprios médicos podiam contrair doenças e infecções mutuamente devido à superlotação das salas onde aguardavam atendimento. Sim, salas, pois nos corredores e quartos não havia mais vagas.

Dois meses após receber alta, em fevereiro de 2004, tive de voltar para fazer uma biopsia. Minha condição física não era das melhores, minhas pernas inchavam rapidamente se ficasse em pé. Levantei às 5 horas e às 8 horas da manhã mais pareciam duas mortadelas amarradas nas pontas pelas minhas meias e os meus sapatos, principalmente a perna direita. Tive de aguardar o médico que faria a biópsia por aproximadamente 8 horas. O procedimento estava marcado para as 6 horas da manhã e eu mal me alimentara, ainda tinha certas restrições de alimentos e água. Mas naquele andar do hospital não havia leito disponível. Depois de muito tempo entre ficar em pé e sentado, posições que também não eram nada confortáveis, consegui com insistência uma poltrona no corredor, próximo a UTI. Como não estava internado, nenhuma alimentação recebi. Apesar de ter pedido alguma coisa para comer, não foi possível receber alimento nenhum, pois não havia comida para quem não estivesse internado. Talvez, se eu fosse um cachorrinho com cara triste... A poltrona foi colocada em frente às enfermarias, onde há poucas semanas estivera acamado, ali fiquei olhando a comida sendo servida.

Me considero um privilegiado por estar vivo, graças ao Hospital São Paulo e à pronta ação que recebi em situação de extrema emergência. O procedimento cirúrgico, realizado por uma das equipes mais conceituadas na área de Cardiologia do estado e do país, mudou ainda mais a minha vida, para melhor.

Se tivesse acontecido em meio à fase que o hospital atravessa neste dia 25 de junho de 2015, talvez eu morresse e não poderia deixar estas linhas escritas, pois a entidade precisa priorizar este ou aquele caso, decidir quem será atendido ou não, quem vive ou morre, quem continua com dor. Como afirmar se teriam condições de me atender e realizar a cirurgia à qual fui submetido, que garantiu minha sobrevivência, após ser diagnosticado como praticamente sem chance de viver?”

Fotomontagem: aloart

Fotomontagem: aloart


Coincidindo com a atual crise por que passa o Hospital São Paulo, da qual não pode ser olvidada a anterioridade que levou aos fatos que hoje ali se desenrolam, antecipei este trecho sobre alguns momentos vividos nessa instituição – pela qual guardo lembranças pessoais e muito carinho – que a todos deveria causar orgulho e não envergonhar as classes médica e de enfermagem.

Aos que detém o poder, a história também cobrará suas responsabilidades e o legado que lhes coube deixar. Se não forem escamoteadas, as ações graves também serão conhecidas, assim como as alvissareiras.

Fica uma pergunta àqueles que decidem os rumos da nação e bradam aos quatro ventos sobre suas benfeitorias e investimentos: A medicina do SUS é para os brasileiros e não deveria ser uma escolha de médicos e enfermeiros quem será atendido, a eles deveriam ser dadas as condições e cobrados os atos pertinentes às suas profissões. Um paciente ter de esperar quatro meses para marcar um exame no Hospital São Paulo, instituição referencial do país, e depois mais três para executá-lo é humilhante. Vocês deixariam, por exemplo, suas mães doentes esperarem tanto tempo?

Antecipo-me à negativa, que se assim for dada, é preciso que as autoridades tomem consciência urgente, de emergência e olhem por aqueles mais humildes que recorrem às suas providências. Hoje, não daqui cem anos.

Residentes do Hospital São Paulo entram em greve

 

Visão diminuta para  decisões tão importantes. Ilustração: aloart

Visão diminuta para decisões tão importantes. Ilustração: aloart

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Autor: alotatuape

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2 Comentários

  1. GERSON Boa noite…
    Parabéns sempre li e como sempre,fico sempre muito orgulhosa de você….

    DEUS te abençoe…

    Tia

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    • alotatuape

      Tios são os irmãos dos pais, que muitas vezes os substituem sobre a Terra. Muito grato pelo comentário. Gerson

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