Inventário descobre duas espécies de morcego ainda inéditas em Sergipe


Sexta-feira, 13 de março de 2015, às 17h01

Embrapa Tabuleiros Costeiros – A Embrapa acabou de concluir um inventário da fauna da Reserva do Caju, em Sergipe. A equipe de pesquisadores identificou 60 espécies de aves, 13 de pequenos mamíferos – inclusive marsupiais – e 17 espécies de morcegos, duas – Epitesicus brasiliensis e Molossops temmincki – nunca registradas em Sergipe. “São insetívoros de pequeno porte geralmente pouco frequentes em inventários, e cuja captura enriquece bastante o rol de espécies do estado”, avalia o biólogo da UFS Patrício Rocha, que coordenou a atividade.

Morcego Molossops temmincki. Foto: Divulgação UFS

Ele explica que essas espécies de morcegos, apesar de não estarem ameaçadas e serem amplamente distribuídas no Nordeste e outras regiões, são localmente raras e de hábitos noturnos, tornando difícil seu avistamento ou registro. “Elas ocorrem numa área muito vasta, mas não são numerosos em cada local. Por isso esse achado foi um tanto inesperado e surpreendente para nós”, explica.

Os morcegos são animais com funções biológicas importantes nos ecossistemas. Os insetívoros atuam como controladores de populações de insetos, e os frugívoros, polinívoros e nectarívoros são polinizadores e dispersores de sementes de diversas espécies de plantas e árvores – mais de 500 apenas nas regiões tropicais. “À noite, as plantas abrem suas flores para facilitar o acesso desses animais, que em troca polinizam e garantem a multiplicação das espécies”, conta Rocha.

Localizada à beira do rio Vaza-Barris, próximo à foz, a reserva constitui um rico e exuberante substrato da diversidade do litoral nordestino, com remanescentes da Mata Atlântica, manguezais, restingas, coqueirais, braços de marés e apicuns, sendo berço de diversas espécies animais. No entorno da reserva estão comunidades tradicionais cujo sustento depende fortemente da integridade ambiental da região, como a Ilha Mem de Sá, onde 75 famílias vivem da pesca artesanal e da coleta de mariscos.

Câmera ativada por movimento é usada para registrar fauna.  Foto: Saulo Coelho

Gavião caramujeiro. Foto: Divulgação UFS

Visita guiada por trilhas ecológicas na reserva. Foto: Saulo Coelho

Os resultados mostram uma rica diversidade, além de ocorrências inéditas e relevantes. Os registros mais curiosos do trabalho revelaram a presença da cuíca, um dos menores marsupiais do mundo, os passarinhos figuinha-do-mangue (Conirostrum bicolor), endêmico da região, chorozinho de papo preto (Herpsilochus pectoralis), considerado vulnerável de acordo com o registro de espécies ameaçadas mantido pelo Ibama, e o cabeça-vermelha, também conhecido como galo campina e cardeal do Nordeste (Paroaria dominicana). “O cabeça-vermelha é uma espécie endêmica da Caatinga, e sua captura nesta região indica que a reserva provavelmente esteja sendo utilizada como local de soltura de aves apreendidas”, explica o biólogo Juán Manoel Aguilar. Ele considera que a Reserva do Caju se constitui um importante espaço de conservação dessas espécies de aves.

A Reserva do Caju é considerada um berço de biodiversidade, onde vivem protegidas diversas espécies, das quais algumas vulneráveis e outras raramente avistadas. São 763,37 hectares da região chamada também Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) mantida pela Embrapa Tabuleiros Costeiros, no litoral Sul Sergipano, a 20 quilômetros do centro de Aracaju.

Oficializada em caráter permanente, a reserva ocupa a maior parte dos 910,81ha do campo experimental de Itaporanga d’Ajuda, onde a Unidade da Embrapa desenvolve pesquisas em agricultura de base ecológica e mantém bancos ativos de germoplasma (BAGs) – áreas para conservação de recursos genéticos de coco e mangaba de relevância mundial.

Cabeça-vermelha ou cardeal do nordeste é típico da caatinga. Foto: Saulo Coelho

Riqueza e diversidade

Riqueza e diversidade

A Embrapa realizou o inventário de fauna na área no final de 2014, contando com a parceria de mestrandos e doutorandos das Universidades Federais de Sergipe (UFS), Minas Gerais (UFMG) e Paraíba (UFPB), com a orientação de pós-doutorandos bolsistas do CNPq.

A prática de campo envolveu ao todo cinco mestrandos do Programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação da UFS e dois doutorandos em biologia da UFMG e UFPB, sob a supervisão dos biólogos Juán Manoel Aguilar e Patrício Rocha, pós-doutorandos pela UFS/CNPq e especializados, respectivamente, em ornitologia (estudo das aves) e mastozoologia (estudo dos mamíferos). As disciplinas previam a inventariação de fauna das principais áreas remanescentes da Mata Atlântica no estado, e a equipe propôs à Embrapa iniciar pela reserva. “Foi um feliz casamento de interesses, com resultados positivos para as duas instituições”, revela Patrício.

Foram dez dias de imersão da equipe na reserva, com dez camera traps (dispositivos com sensores de movimento e câmera de foto e vídeo para monitorar mamíferos de dia e de noite), quatro armadilhas de captura do tipo Sherman (em formato de gaiola, para pequenos animais) oito redes tipo ‘neblina’ de 12 mm para captura de aves e mais oito redes para morcegos, além de olhares atentos na observação por binóculos. As aves capturadas foram marcadas com anéis para identificação e rastreamento.

O trabalho de inventariação rendeu um rico acervo de imagens fotográficas e em vídeo. Todos os animais capturados nas armadilhas foram catalogados e fotografados para compor o banco de dados, e as camera traps registraram diversas espécies de mamíferos e aves em seus hábitos diurnos e noturnos, além do trânsito de moradores das comunidades da região que atravessam a área para pescar no rio e catar mariscos nos manguezais.
Patrício Rocha explica que a existência de uma RPPN federal na região é fator importante de conservação, pois abriga importantes segmentos de restinga, ecossistema litorâneo de grande relevância.

Plano de Manejo

Plano de Manejo

Para o cientista florestal da Embrapa Lauro Nogueira, responsável pela conservação e manejo da reserva, o trabalho de inventariação foi extremamente proveitoso e rico, e as informações serão fundamentais para subsidiar futuras ações do Plano de Manejo, aprovado e publicado pelo ICMBio no primeiro semestre de 2014. Os dados obtidos renderão, também, uma rica massa crítica de trabalhos acadêmicos sobre a biodiversidade na Mata Atlântica em Sergipe.

Elaborado por uma equipe de mais de 20 profissionais de diversas áreas, tanto da Embrapa como da UFS, contando com a colaboração da Conservação Internacional – Brasil, da ONG SOS Mata Atlântica e da Sociedade de Estudos Múltiplos, Ecológica e de Artes (Semear), o plano engloba a caracterização da área e as principais ações de gestão do espaço para os próximos cinco anos.

A primeira parte, de diagnóstico, contém uma detalhada caracterização da reserva, do campo experimental e do seu entorno, abordando os aspectos culturais e históricos, de solo, relevo e clima, flora, fauna, ameaças externas, sistemas de gestão, infraestrutura, equipamentos, comunidades do entorno e suas atividades econômicas.

A seção de planejamento traz o zoneamento do local em áreas silvestre, de proteção, visitação, transição e recuperação. Essa parte descreve, ainda, as ações e projetos específicos de gestão, fiscalização, pesquisa e monitoramento, comunicação e educação ambiental.

Conhecimento

Conhecimento

É na transferência de tecnologias e na transmissão de conhecimentos que a Embrapa tem fortalecido a Reserva do Caju. O campo, como um todo, consiste numa grande vitrine de conhecimentos e tecnologias sustentáveis aplicadas à agricultura, com técnicas que se fundamentam em base ecológica, buscando alternativas de incremento da produção para os agricultores com redução ou eliminação de danos ao ambiente.

Vários projetos de pesquisa são conduzidos no Campo de Itaporanga, envolvendo diversas Unidades da Embrapa e instituições parceiras, como universidades e centros de pesquisa. Estudos para desenvolver melhores práticas de manejo para as culturas, controle de pragas, variedades de coqueiro e experimentos com minhocultura são exemplos de pesquisas feitas no campo e nas comunidades vizinhas.

Pesquisas envolvendo agroecologia, com o desenvolvimento de agroecossistemas e culturas consorciadas, além de gestão ambiental e experimentação participativa com comunidades tradicionais e assentamentos, também fazem parte da gama de projetos da Embrapa na unidade de conservação e seus arredores.
Para garantir a qualidade genética e prevenir riscos de extinção de espécies como os coqueiros anão e híbrido, a Unidade mantém no campo bancos ativos de germoplasma (BAGs). Os BAGs de coqueiros, desde 2006, integram a Rede Internacional de Recursos Genéticos de Coco (Cogent, sigla em inglês), coordernado pelo Bioversity International, sendo referência para a América Latina e Caribe (ICG-LAC). Da mesma forma, acessos da mangabeira são mantidos no campo para conservação de seus recursos genéticos.

Estrutura

Estrutura

Os espaços edificados do campo estão em fase de conclusão de uma importante reforma, terá em breve um centro de treinamento e transferência de tecnologia para estudantes, produtores, assistentes técnicos e multiplicadores de conhecimentos.

Recursos da emenda parlamentar nº 1328.0005 da Lei Orçamentária Anual (LOA 2014), no valor de R$ 300 mil, do então deputado federal sergipano Mendonça Prado, possibilitaram obras e instalações para uma estrutura completa para treinamentos, oficinas, visitas guiadas, instalação de vitrines tecnológicas qualificadas e ações de educação ambiental e transferência de tecnologia em geral.

O auditório já existente está sendo completamente reformado e terá novo acabamento. Após a reforma, terá 225 m² com a construção de um novo espaço de convivência, copa de apoio para eventos e galeria de exibição permanente de tecnologias, produtos e serviços. Outras ações contemplam a construção de novos espaços para o laboratório de pólen e depósito de materiais. A casa-sede da fazenda também receberá melhorias, com a implantação de salas para reuniões e apoio administrativo.

De acordo com o chefe-geral da Unidade, Manoel Moacir Macedo, o novo espaço será um marco na política de transferência de tecnologias da Embrapa Tabuleiros Costeiros. “Ainda este ano poderemos oferecer aos nossos públicos um local bastante qualificado e com estrutura ideal para a troca de conhecimentos e experiências. Estaremos, inclusive, preparados para dar todo o suporte necessário às atividades da Agência Nacional de Assistência Técnica (Anater)”, declarou.

Visitas

Visitas

A Reserva do Caju está aberta a todos que queiram conhecer de perto como aplicar tecnologias com foco na sustentabilidade ambiental, social e econômica. Ao longo dos anos, milhares de estudantes em idade escolar e universitários, além de agricultores familiares, pesquisadores e produtores, têm visitado o campo experimental para conhecer como são feitas as pesquisas.

Quem visita o campo pode ver como são implementados os sistemas agroflorestais (SAFs), respeitando a sucessão ecológica das espécies, o processo de produção de um fertilizante biológico usando restos de comida do dia a dia, de que maneira as minhocas podem ajudar no processo de decomposição para formação do húmus, como o uso de fossas sépticas biodigestoras pode ser a solução para a destinação de dejetos sanitários, entre diversas outras abordagens ecológicas.

Três trilhas ecológicas de extensões diferentes por dentro da área da reserva também podem se incluir à visita à fazenda da Embrapa. Essa atividade normalmente é realizada com alunos de nível fundamental e médio, no âmbito do programa Embrapa & Escola, e é coroada com o plantio de uma árvore com o nome da respectiva escola no Bosque Embrapa&Escola.

Para agendar uma visita ao Campo Experimental de Itaporanga d’Ajuda – Reserva do Caju, entre em contato com o Serviço de Atendimento ao Cidadão da Embrapa Tabuleiros Costeiros pelo telefone (79) 4009-1344 ou através do e-mail tabuleiros-costeiros.eventos@embrapa.br.

A Embrapa Tabuleiros Costeiros é a primeira Unidade da Embrapa a possuir uma RPPN federal. O reconhecimento oficial foi feito em 2011 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). De acordo com o decreto de 2006 que regulamenta as RPPNs, áreas como a Reserva do Caju só poderão ser utilizadas para o desenvolvimento de pesquisas científicas e visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais.

alotatuape

Autor: alotatuape

Share This Post On

Enviar um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*