Leia a entrevista do professor Collins, diretor do National Institutes of Health – EUA

Em entrevista concedida à Agência FAPESP após o término da palestra, Collins falou sobre as perspectivas futuras de colaboração com cientistas brasileiros e sobre os grandes avanços da medicina que deverão despontar nos próximos anos.

Francis Collins, cientista conhecido por liderar o Projeto Genoma Humano, destaca áreas para potenciais colaborações com pesquisadores brasileiros Foto: Léo Ramos

Francis Collins, cientista conhecido por liderar o Projeto Genoma Humano, destaca áreas para potenciais colaborações com pesquisadores brasileiros Foto: Léo Ramos

Agência FAPESP – O que esperar no futuro da parceria com o Brasil e, mais especificamente, com a FAPESP?
Francis Collins – O Brasil está crescendo muito rapidamente e muito recurso vem sendo investido em pesquisa e no treinamento de um número crescente de jovens cientistas. Não sou capaz de prever em que posição estará a ciência brasileira daqui a cinco anos, mas quero estar certo de que estaremos intimamente alinhados para aproveitar as oportunidades que serão abertas. Fiquei muito feliz em anunciar, como exemplo, o lançamento desse esforço conjunto com a FAPESP de um projeto sinérgico realmente bom que envolve um pesquisador de Harvard e outro da USP. Cada um deles conta com as habilidades apropriadas para esse incrível projeto que possibilitará descobrir novas drogas. Não estou certo de que poderíamos imaginar algo assim dez ou 15 anos atrás. Uma das razões pelas quais estou feliz de estar aqui, nesta manhã, é a oportunidade de falar com a liderança da FAPESP sobre formas para desenvolver oportunidades mais regulares para esse tipo de proposta conjunta, em que um pesquisador é financiado pelo NIH e outro pela FAPESP.

Agência FAPESP – Qual a sua opinião sobre os projetos que são apresentados nessas chamadas conjuntas de propostas? O senhor está satisfeito com os projetos submetidos?
Collins – Sim, mas eles poderiam ser mais numerosos. É preciso divulgar e ampliar o conhecimento sobre essas oportunidades. Precisamos deixar mais claro que estamos muito interessados em projetos significativos. Tradicionalmente, muito do que temos feito em parceria com o Brasil tem relação com doenças infecciosas. Como a dengue, por exemplo. Ontem [21/05] estive no [Instituto] Butantan para ver o que está sendo feito em nossa colaboração com o instituto. Um dos objetivos é conseguir uma vacina contra a dengue realmente eficaz, algo desesperadamente necessário, pois a doença está se tornando cada vez mais frequente. Há uma série de oportunidades nas chamadas doenças tropicais negligenciadas, sobre as quais fico feliz em dizer que atualmente são menos negligenciadas. Temos uma longa tradição de trabalho com colegas brasileiros no que se refere à doença de Chagas e, certamente, ainda há mais que poderia ser feito. Há também a leishmaniose, que aparentemente está se tornando mais frequente do que a doença de Chagas. Também há oportunidade em HIV-Aids, com o crescente potencial de desenvolver uma vacina realmente eficaz. Há um início de esforço colaborativo nesse campo. Em todos os lugares que visitei esta semana no Brasil encontrei muita empolgação também na área de neurociência. Seria ótimo se conseguíssemos descobrir meios de fortalecer essa possibilidade. Há ainda o câncer e os tumores raros que supostamente ocorrem com maior frequência em algumas partes do mundo. Não penso que haverá um foco estreito, mas um largo leque de oportunidades. Há áreas mais fortes, como a de vacinas. Há algumas áreas que vêm se desenvolvendo rapidamente. Percebemos que o Brasil está em ascensão em termos de apoio à ciência e como isso é traduzido em talentos e em ideias ambiciosas. Não sei exatamente onde isso vai parar, mas é empolgante participar desse processo.

Agência FAPESP – Qual é a importância da colaboração internacional no cenário atual da pesquisa em biomedicina?
Collins – É fundamental. Se quisermos realmente aproveitar os melhores talentos disponíveis no mundo para produzir os resultados mais estimulantes, não devemos ficar presos às fronteiras dos países. Nenhum país possui todos os talentos. E os cientistas são muito bons em reconhecer esse fato, eles costumam trabalhar muito bem juntos. Outra razão são os recursos. Se temos um problema realmente difícil, qual país será capaz de solucioná-lo sozinho? Por que não unir forças e dividir custos?

Agência FAPESP – Quais lições aprendidas com a coordenação de pesquisas em biomedicina nos Estados Unidos poderiam ser úteis aos brasileiros?
Collins – Acho que uma de nossas vantagens é ter um rigoroso sistema de análise por pares, pois nunca seremos capazes de financiar todas as propostas de pesquisa submetidas. Ter projetos revisados por outros especialistas na área realmente ajuda a decidir como investir os recursos. Também é necessário fazer escolhas e definir prioridades. Mas estamos aprendendo que isso não deve ser organizado de forma a esmagar as ideias realmente inovadoras. Essas ideias podem soar excêntricas, mas a ciência excêntrica também é importante. É preciso ter um portfólio separado para ideias altamente inovadoras, para que não tenham de concorrer com projetos bem descritos e que claramente serão bem-sucedidos. Caso contrário, estes últimos terão prioridade. Temos elementos em nosso portfólio destinados aos inovadores, como o New Innovator Awards, o Transformative Research Awards e o Pioneer Award. Em termos de outras lições aprendidas, é realmente necessário que a maior parte da pesquisa seja organizada de baixo para cima (bottom up), ou seja, direcionada pelas ideias dos pesquisadores. Não é desejável controlar demais esse processo. Mas há momentos em que algo aparece e um único pesquisador não será capaz de fazer. Nesse caso, é preciso liderança e a comunidade científica precisa pensar em como organizar isso. Não teríamos uma BRAIN Initiative se ficássemos esperando um pesquisador propor essa ideia. É necessário um equilíbrio entre o bottom up [de baixo para cima] e o top down [de cima para baixo].

Agência FAPESP – E sempre assumir riscos?
Collins – Sim, e não ter medo de falhar. Se você não está fracassando é porque está precisando assumir mais riscos.

Agência FAPESP – Quais avanços podemos esperar em Medicina nos próximos anos?
Collins – A pesquisa sobre o câncer está avançando de forma rápida, em parte por causa da capacidade de identificar o que determina a malignidade em nível individual. E isso possibilita personalizar o atendimento em vez de usar um tratamento padrão. Também oferece pistas para o desenvolvimento de novas drogas, mais eficazes do que a quimioterapia padrão. O número de medicamentos desenvolvidos nos últimos anos cresceu rapidamente, baseado nessas pistas. Isso é realmente animador. Se tenho câncer hoje, por exemplo, quero que o tumor seja sequenciado para ver quais são exatamente as mutações de DNA e quero olhar essa nova lista de drogas contra o câncer direcionadas a mecanismos específicos e avaliar qual delas funcionaria no meu caso. Outra área com a qual estou bem empolgado é a de microbioma. Estudos sobre os microrganismos que vivem em nós e o papel que eles desempenham nas doenças. Estamos percebendo que esses são grandes atores em doenças como diabetes, obesidade e talvez autismo, por exemplo. É uma oportunidade única, não apenas de entender essa relação, mas de realmente interferir. Você pode imaginar que, com uma mudança apropriada na dieta ou uso de um probiótico, poderia programar esse microbioma para ajudar e não fazer mal ao organismo. Essa é uma grande oportunidade e foi a genômica que tornou possível. Conhecemos o microbioma porque ele tem DNA e podemos descobrir o que há lá usando sequenciamento genético. Outra área que adoraria ver avançar nos próximos cinco anos e encontrar o caminho da aplicação clínica é a de células-tronco e terapias celulares. De células retiradas do próprio indivíduo e modificadas no tipo de células necessárias para tratar o fígado ou o rim ou a anemia falciforme, doença com a qual o Brasil se preocupa muito. Poderíamos curar essa doença tirando uma biópsia de pele de um portador, transformando-a em células-tronco e usando essa capacidade muito inteligente de editar o genoma chamada CRISPRs [clustered regularly interspaced short palindromic repeats], isto é, consertar a mutação e pegar essas células, diferenciá-las em células do sangue e devolvê-las ao paciente. Acredito que seja algo que devemos investir fortemente. Não vejo por que não funcionaria e a mesma abordagem poderia ser usada para muitas outras doenças. Alzheimer, por exemplo, eu adoraria ver progressos nos próximos cinco anos. É muito difícil. Estamos investindo muito nessa área e focando em pessoas que ainda não possuem sintomas, mas que sabemos ser propensas [à condição] com base em seu risco genético ou em um exame que mostra a presença de placas amiloides. A ideia é intervir precocemente para tentar evitar o processo, em vez de esperar até que a doença esteja instalada e muitos neurônios tenham sido perdidos. Precisamos fazer algo sobre o Alzheimer ou essa doença vai quebrar a economia de todos os países em razão do envelhecimento da população. Todas essas áreas estão cheias de potencial, mas, para saber qual chegará primeiro, não tenho uma bola de cristal.

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Autor: alotatuape

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