Médicos sem fronteiras


Publicado em 25 de setembro de 2013

 

Logo dos Médicos Sem Fronteiras, conhecidos em todo o mundo pela sua abnegação. Foto: MSF / Divulgação

Logo dos Médicos Sem Fronteiras, conhecidos em todo o mundo pela sua abnegação. Foto: MSF / Divulgação

Médicos Sem Fronteiras ou Médecins Sans Frontières, somente pelo uso destes termos muito pode ser deduzido sobre o sentimento que criou esta organização médico-humanitária internacional, respeitada por sua independência política e religiosa, que se mantem atuando em qualquer parte do mundo sobre o lema de levar ajuda às pessoas que precisam, além disso sua missão também é tornar públicas as mais diversas situações com que se defrontam. Isso só é possível graças às doações que recebem mundialmente; só no Brasil são mais de 50 mil doadores.

“A organização foi criada em 1971, na França, por jovens médicos e jornalistas, que atuaram como voluntários no fim dos anos 60 em Biafra, na Nigéria. Enquanto a equipe médica socorria vítimas em uma brutal guerra civil, o grupo percebeu as limitações da ajuda humanitária internacional: a dificuldade de acesso ao local e os entraves burocráticos e políticos faziam com que muitos se calassem frente aos fatos testemunhados. MSF surge, então, como uma organização médico-humanitária que associa socorro médico e testemunho em favor das populações em risco”.
O texto entre aspas foi reproduzido na íntegra do site www.msf.org.br, que pertence à organização, pois assim como ele descreve com simplicidade a grande iluminação que deve atuado em prol de sua criação, a abnegação dos mais de 30 mil profissionais que trabalham pelo alívio das dores e sofrimentos humanos ainda permanecem imperceptíveis, inaudíveis para muita gente. Essa situação já mudou bastante com o acesso às novas tecnologias de divulgação e a própria globalização das notícias deve ter beneficiado sobremaneira esse trabalho grandioso, mas sempre há muito por fazer num mundo tão conturbado e atribulado por guerras, fome ou sinistros interesses.
Em 1999, Médicos Sem Fronteiras, recebeu o Prêmio Nobel da Paz “em reconhecimento pela ação humanitária imparcial e independente, livre de qualquer influência política ou militar”. E o trabalho continua há mais de 40 anos.

Médicos sem Fronteiras atuam em graves situações nos mais distantes locais do planeta. Foto: MSF / Divulgação

Médicos sem Fronteiras atuam em graves situações nos mais distantes locais do planeta. Foto: MSF / Divulgação

DIÁRIO DE BORDO

Kelly Cavalete – Enfermeira

Parte 8 – Moçambique, 18 de janeiro de 2013

Feliz ano novo, pessoal!

Por aqui, mais uma passagem de ano em projeto, longe dos familiares, dos antigos amigos… Vem aquela dor da saudade e o questionamento sobre os objetivos da vida. Mas, no final, a decisão é a de seguir em frente e continuar a luta pela garantia dos direitos humanos a todas as pessoas; mais especificamente, o acesso à saúde. Passou o Natal, o ano novo e os centros continuaram como se nada estivesse acontecendo. Lotados de pacientes, as mesmas problemáticas.

Semana passada aconteceu um encontro muito importante para a análise dos serviços prestados nas unidades sanitárias: o Comitê Provincial, no qual todos os diretores distritais da cidade aprensentaram os dados de cada unidade sanitária pelas quais são responsáveis. Estavam presentes cerca de 80 pessoas entre profissionais de saúde, gestores e parceiros, como MSF. Em plenos dias 27 e 28 de dezembro, a sala estava lotada.

Médicos sem Fronteiras atuam em graves situações nos mais distantes locais do planeta. Foto: MSF / Divulgação

Médicos sem Fronteiras atuam em graves situações nos mais distantes locais do planeta. Foto: MSF / Divulgação

Francelise Cavassin – Farmacêutica

O Fantasma da Febre Lassa

Bo, 12 de abril de 2013

Dois meses completos e sigo feliz por estar aqui, me dedicando a um trabalho tão especial. Tenho trabalhado muito, mas, no final do dia, sinto-me satisfeita com tantos resultados bons, e isso me motiva!

Deixando de lado a triste realidade materno-infantil que enfrentamos todos os dias, a região de Bo também é endêmica para uma doença que poucos conhecem: a tal da “febre de Lassa” (lassa fever, em inglês). E é sobre ela que resolvi escrever hoje.

A febre de Lassa é uma doença hemorrágica viral. O vírus foi identificado pela primeira vez durante uma epidemia na cidade de Lassa, na Nigéria – daí o nome. A doença é endêmica em países situados no oeste da África – os mais atingidos são Nigéria, Serra Leoa, Guiné e Libéria. Aqui, em Serra Leoa, o primeiro surto foi relatado em 1996, quando 470 casos foram identificados. Claro que já deveria existir antes, mas a ajuda humanitária não estava presente… Desde então, mais e mais casos vem sendo confirmados, o que não é nada bom. O hospital de referência que trata os casos fica em Kenema, cidade próxima daqui e, por isso, todo paciente positivo do nosso hospital deve obrigatoriamente ser transferido para lá.

A doença é transmitida pelo rato. E, devido às condições de vida absurdamente precárias da população, é uma missão praticamente impossível erradicar o vírus aqui. Sim, por que todas as casas são construídas diretamente sobre o chão batido (onde se dorme também), com paredes de barro e, na maioria das vezes, sem janelas e portas. Como não há eletricidade, não preciso dizer que ninguém possui geladeira e nem lindos potinhos plásticos (que facilmente compramos em qualquer loja de 1,99) para guardar e preservar o alimento, certo? Resultado: os ratos fazem parte da família e de sua comida. O fato é que, mesmo caso alguém da família identifique, por exemplo, que um pão está com a marca do dentinho do rato, ela não vai jogar o pão todo fora – precisa comer! – e, sim, somente o pedacinho que está roído. E esse é um perigo muito grande: o rato pode ter feito xixi ou defecado em outra parte do pão. Outro problema é a água, que é claro que não é encanada, e fica armazenada dentro de latas ou outros reservatórios que, se não forem bem tampado, podem facilmente tornarem-se fonte de contaminação.

Também se pode transmitir a doença de pessoa para pessoa. A pessoa já contaminada pode passar o vírus durante relações sexuais, por meio de gotículas salivares (se espirrar ou tossir em alguém e afete a mucosa da outra pessoa – olhos, boca, nariz), se o doente vomitar em alguém (que possa entrar em contato com a mucosa) e também pelo sangue (nesse caso o indivíduo saudável teria que ter uma lesão na pele para que o sangue contaminado afetasse seu organismo). No estágio mais crítico da doença, o paciente começa a sangrar pelos olhos. É muito triste.

E isso significa que, como trabalhamos diretamente com pacientes graves, estamos diariamente expostos a muitas dessas possibilidades (inclusive a do vômito). Claro que por trabalharmos no hospital o risco é maior, porém, todos os profissionais daqui devem ter consciência e não deixar alimentos descobertos sobre a mesa ou o fogão. E não pensem que por morarmos em casas limpas e melhores estamos livres dos ratos, viram? Volta e meia recebemos visitas.

Bom, são vários os problemas. O vírus é semelhante ao do ebola, ou seja, pegou, praticamente morreu. Não achem que estou exagerando, não. As chances de cura são bem pequenas e, basicamente, são efetivas quando se descobre a tempo que o indivíduo tem a febre de lassa. Só que esse já é o primeiro problema: existe só um teste no mundo capaz de identificar se o paciente é positivo ou não e que só funciona se a pessoa estiver com a carga viral bem elevada, senão dá negativo. Ou seja, se o paciente apresentar febre e já for submetido ao teste, poderá já estar doente, mas o teste dará negativo. Segundo o protocolo, deve-se proceder com o teste no terceiro dia de febre alta e que não tenha sido minimizada e quando o teste de malária for negativo. Problema? Às vezes, o paciente já morre nesta fase, antes de saber o que o aflige.

O que acontece é que nosso hospital não tem capacidade para assumir os casos de febre de Lassa, porque todos os pacientes com suspeita da doença precisam ficar em isolamento total até o resultado do exame, que demora, em média, de 24 a 48 horas para ficar pronto. Nós temos uma ala de isolamento aqui no hospital – que tem acesso somente para aqueles que vestem aquelas roupas de astronauta, sabem? – para os nossos pacientes e funcionários, mas eles ficam ali somente até receberem o resultado do teste. Se o teste for positivo, são imediatamente encaminhados para o hospital em Kenema.

Temos uma ambulância só para o transporte de pacientes febre de Lassa positivos. Temos um médico só para cuidar desses pacientes aqui, para garantir que os protocolos estejam sendo seguidos e para estudar mais sobre essa doença, que de certa forma é bem pouco conhecida e ainda gera muitas questões sobre diagnóstico e tratamento.

E tem tratamento? A resposta é sim. E aqui aponto o segundo (ou terceiro ou, de repente, o quarto) problema: só existe um laboratório no mundo que fabrica o medicamento para tratar a doença e a produção (em quantidade) dessa droga é bem baixa. Ou seja, não existe tratamento para todo mundo. Tem mais gente doente do que medicamento disponível no mercado. Além do mais, o medicamento é caríssimo e absolutamente inviável para essa população pagar pelo tratamento.

Espero tê-los deixados melhor informados sobre essa doença que é um tanto desconhecida e muito negligenciada.

Um grande abraço e até a próxima!

Fran

 

Leia as notícias completas no próprio site da organização em português ou em inglês: www.msf.org. Participe com sua ajuda, acessando o site da organização.

 

alotatuape

Autor: alotatuape

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