No coração dos corais da Amazônia


Sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017, às 20h


À medida que percorremos a região central dos recifes em nosso terceiro dia de mergulhos, eles se fazem de dificeis para serem encontrados, mas continuam nos surpreendendo a cada descida. Confira as imagens

Greenpeace Brasil

Segunda-feira, 30 de janeiro: Poucos minutos antes de o submarino emergir, no meio do oceano Atlântico , uma chuva fina a nossa frente pegou toda a equipe do Esperanza de surpresa. Fazia calor naquele fim de tarde e a água vinda de cima literalmente caía muito bem.

 

Conjunto de ouriços brancos e rodolitos. Os ouriços brancos costumam usar fragmentos de outros organismos para se esconder e, assim, se defender de predadores. Esperanza, um dos três navios do Greenpeace, está na região da foz do rio Amazonas, no Amapá, para a campanha “Defenda os Corais da Amazônia. O objetivo é observar debaixo d’água, pela primeira vez, os recifes de corais. White sea urchins and rhodoliths. White urchins often use fragments of other organisms to hide and to defend themselves from predators.  Esperanza, one of the three Greenpeace vessels, is in the region of the Amazon river mouth, Amapá State, for the campaign “Defend the Amazon Reef”. Foto: Greenpeace

Conjunto de ouriços brancos e rodolitos. Os ouriços brancos costumam usar fragmentos de outros organismos para se esconder e, assim, se defender de predadores. Esperanza, um dos três navios do Greenpeace, está na região da foz do rio Amazonas, no Amapá, para a campanha “Defenda os Corais da Amazônia. O objetivo é observar debaixo d’água, pela primeira vez, os recifes de corais. White sea urchins and rhodoliths. White urchins often use fragments of other organisms to hide and to defend themselves from predators. Esperanza, one of the three Greenpeace vessels, is in the region of the Amazon river mouth, Amapá State, for the campaign “Defend the Amazon Reef”. Foto: Greenpeace

 

O dia terminou com três mergulhos realizados. Um sucesso, pois temíamos que as ondas fortes inviabilizassem a expedição. Em cada um deles, entre 90 e 100 metros de profundidade, as imagens nos trouxeram novidades, revelando um pouco mais da intimidade dos recifes, feitos de corais, esponjas e rodolitos ao redor.

 

Recife mancha, formado por rodolitos fusionados, com lírios-do-mar. No centro, há uma esponja. Foto: Greenpeace

Recife mancha, formado por rodolitos fusionados, com lírios-do-mar. No centro, há uma esponja. Foto: Greenpeace

 

À medida que percorremos a região central, foi possivel perceber que os recifes não são uma formação uniforme e contínua, mas fragmentos espalhados entre regiões de areia. Como uma caça ao tesouro, usamos o sonar do Esperanza para vasculhar o relevo do fundo do mar em busca de pistas para a descida do submarino.

 

O peixe olho-de-boi, ou olhete, nada sobre uma cama de rodolitos, com esponja amarela ao fundo. Foto Greenpeace

O peixe olho-de-boi, ou olhete, nada sobre uma cama de rodolitos, com esponja amarela ao fundo. Foto Greenpeace

 

Eduardo Siegle, oceanógrafo professor da Universidade de São Paulo, iniciou os mergulhos do dia. Foi considerado o de menos sorte, pois quase não avistou peixes e recifes. Havia muita areia por todos os lados. Para ele, no entanto, que estuda as correntezas oceânicas, a viagem debaixo d’agua foi perfeita. “Vimos muitos bancos de areia marcados pelas ondas. Isso nos dá indicativos do regime de correntes que passam por esta região. Elas são bem fortes”, explica.

 

Banco de areia com marcas de ondas. Foto: Marizilda Crupe/ Greenpeace

Banco de areia com marcas de ondas. Foto: Marizilda Crupe/ Greenpeace

 

A segunda descida foi realizada por um dos cientistas a bordo do Esperanza, o professor de Geologia Oceânica Nils Asp, da Universidade Federal do Pará. O piloto era John Hocevar, diretor da campanha de Oceanos do Greenpeace USA. Nils é conhecido por sua personalidade tranquila, de fala mansa, mas ao sair do submarino, sua excitação extravasou em belas palavras:

“Eu me tornei oceanógrafo sonhando com um dia como este, mas não sabia se ele chegaria. Entrar nesse submarino me lembrou do porquê escolhi a profissão”, disse, encharcado pela chuva. Ele contou que, quando criança, passava muitas tardes assistindo aos programas de Jacques Cousteau, o mais famoso explorador dos oceanos do mundo. Se inspirava nele, imaginando como seria viver no fundo do mar. “Eu cresci, comecei a trabalhar na universidade e a fazer pesquisas. Passo muito tempo dentro do escritório, envolto com burocracias. Ainda bem que, hoje, pude me conectar com a minha antiga paixão”.

 

Laje de rodolitos fusionados, o que comprova a atuação das fortes correntes marinhas na dinâmica da região, indicando também a possibilidade de erosão. Foto Greenpeace

Laje de rodolitos fusionados, o que comprova a atuação das fortes correntes marinhas na dinâmica da região, indicando também a possibilidade de erosão. Foto Greenpeace

 

O terceiro a mergulhar foi Remi Barroux, jornalista francês do Le Monde. Remi saiu do submarino com a animação de quem sai de uma montanha russa. Pelo caminho, ele se deparou com uma enorme raia-manta de aproximadamente 2,5 metros.

 

No destaque, um coral-negro com uma serpente-do-mar e ao fundo alguns rodolitos. Foto Greenpeace

No destaque, um coral-negro com uma serpente-do-mar e ao fundo alguns rodolitos. Foto Greenpeace



Os recifes de corais da Amazônia continuam nos surpreendendo. A tripulação e toda a equipe envolvida nas operações do submarino trabalham quase 20 horas por dia, mas não vemos desânimo ou mal humor a bordo. Existe uma aura de amor e esperança em cada um de nós para que nosso trabalho aqui chegue em todo o continente e alcance mentes e corações.

 

Uma raia-manta cruza o caminho do nosso submarino. Foto Greenpeace

Uma raia-manta cruza o caminho do nosso submarino. Foto Greenpeace

 

É com essa energia que esperamos conquistar mais e mais defensores para os corais da Amazônia, que mal conhecemos, e já nos encantam, mas precisam da nossa proteção. Entre nessa luta com a gente.

Pesquisas para inovação a partir de ativos da biodiversidade brasileira foram apresentadas em encontro promovido pela empresa com o programa BIOTA, da FAPESP. Foto: Wikimedia Commons

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