O Brasil tinha mares repletos de invertebrados no período devoniano


Quinta-feira, 24 de março de 2016 às 17h03


Peter Moon | Agência FAPESP – Quando se pensa em paleontologia, a primeira imagem que quase sempre vem à cabeça é a de um dinossauro. Há quem recorde os mamutes ou tigres-dentes-de-sabre. Mas quem é que vai lembrar de moluscos e invertebrados? “Pouco se fala dos invertebrados no Brasil, diz Jeanninny Carla Comniskey, doutoranda em paleontologia. Os paleontólogos, segundo ela, “sofrem” com a falta de interesse sobre invertebrados e com o pequeno número de profissionais na área. Ela está se especializando num grupo de animais denominados tentaculitóideos, que viveram no período devoniano, há 400 milhões de anos, nos mares gelados que então cobriam partes do território brasileiro.

Tentaculitoideos viveram há 400 milhões de anos nos mares gelados que então cobriam partes do território brasileiro (foto: Tentaculitoideos do gênero Homoctenus da bacia do Paraná/Coleção do Laboratório de Paleontologia da UFPR/Jeanninny Carla Comniskey)

Tentaculitoideos viveram há 400 milhões de anos nos mares gelados que então cobriam partes do território brasileiro (foto: Tentaculitoideos do gênero Homoctenus da bacia do Paraná/Coleção do Laboratório de Paleontologia da UFPR/Jeanninny Carla Comniskey)

À época, o Brasil encontrava-se próximo ao Polo Sul. “Os trabalhos publicados no hemisfério Norte nem citam a existência de tentaculitoideos no Brasil e na América do Sul”, queixa-se Comniskey. Seus autores professam a teoria tradicional. “Acham que não poderia haver tentaculitóideos por aqui, pois as águas eram frias e não seria possível haver uma grande diversidade de gêneros e espécies. Possuímos poucos gêneros se comparado ao hemisfério Norte, é verdade, porém eles aparecem em grandes quantidades e em diversos afloramentos.” Os tentaculitoideos, segundo ela, não só existiam por aqui como também eram numerosos. Há registros na Argentina, Bolívia, Brasil, Peru e Uruguai. No Brasil, os registros da bacia sedimentar do Paraná são os mais abundantes e conhecidos.

Comniskey realizou a primeira revisão sistemática das espécies achadas nas outras bacias, as do Amazonas e do Parnaíba. “O objetivo era estudar todos os holótipos [os espécimes-tipo que definem uma espécie].” A paleontóloga pesquisou 39 amostras de coleções científicas com 153 espécimes (34 do Amazonas e 119 do Parnaíba), todos do devoniano médio. Verificou a ocorrência de cinco espécies, menos que as sete conhecidas do Paraná.

Dossiê

Tentaculitoideos do gênero Homoctenus sp da bacia do Paraná/ Coleção do Núcleo de Estudos Paleontológicos da UERJ/Jeanninny Carla Comniskey

Tentaculitoideos do gênero Homoctenus sp da bacia do Paraná/ Coleção do Núcleo de Estudos Paleontológicos da UERJ/Jeanninny Carla Comniskey

 

O trabalho faz parte do dossiê “Macroinvertebrados do Devoniano Brasileiro e suas afinidades paleobiogeográficas,” publicado no Boletim do Museu Emílio Goeldi, Ciências Naturais, e que compõe um painel do estado atual do conhecimento dos grupos de invertebrados do devoniano brasileiro. Comniskey é doutoranda na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da Universidade de São Paulo (USP). Sua pesquisa é apoiada pela FAPESP.

“Pouco se conhece sobre o bicho que habitava a concha”, diz Comniskey. Sabe-se apenas que os tentaculitoideos viviam dentro de uma pequena concha com cerca de 1,8 cm, de formato cuneiforme, delgada e comprida, que podia ser lisa ou ter anéis. “Acredita-se que da ponta da concha emergiam tentáculos, daí o nome do grupo. Aqueles animais viviam no fundo do mar, não se sabe se solitários ou em grupos.”

A preservação das conchas é a única evidência no registro fóssil da passagem dos tentaculitoideos pelo planeta, pois eles desapareceram há 360 milhões de anos, na extinção em massa que pôs fim ao devoniano. “Uma linha de pensamento defende que os tentaculitoideos guardam afinidade com os vermes. Diferentemente, acredito que eles têm mais afinidade com os moluscos.”

Comniskey comparou as sete espécies da bacia do Paraná com as cinco dos afloramentos do Amazonas e do Parnaíba. “Olhando o material percebe-se que são espécies distintas. O tamanho e o formato das conchas difere, assim como a espessura dos anéis.” As espécies do Paraná são mais antigas, têm em torno de 410 milhões de anos. Já as espécies do norte do Brasil viveram há 380 milhões de anos. “Isso pode indicar que a bacia do Paraná não manteve contato com as outras duas, pelo menos no devoniano.”

Além do problema já citado da temperatura das águas, outra razão para que a existência desse grupo de invertebrados marinhos no Brasil seja praticamente desconhecida no exterior tem a ver com o seu estado de preservação. Os fósseis de tentaculitoideos do Brasil deixam a desejar, quando comparados àqueles de outras regiões. “O estado de preservação é pobre. O material é muitas vezes fragmentado e achatado, comprimido”, diz Comniskey. Isto pode ter a ver com a anatomia desses primos distantes dos moluscos. A concha dos tentaculitoideos é dividida em quatro partes: a câmara embrionária, a região juvenil, a região adulta e a da abertura, de onde saíam os tentáculos. “Em sua maior parte, só se acham as partes adulta e da abertura. Os fósseis são encontrados em arenitos e siltitos, o que dá uma ideia de que aqueles animais poderiam ter vivido tanto perto da área de arrebentação das praias, quanto em ambientes mais profundos.”

Longe da inexistência, havia sim diversidade entre os gêneros de tentaculitoideos brasileiros. Diversidade que tende a aumentar: a pesquisadora recentemente submeteu ao periódico Zootaxa um outro trabalho com a descrição de sete novas espécies para a bacia do Paraná.

A Era dos Peixes

A Era dos Peixes

O devoniano é mundialmente conhecido como a Era dos Peixes. Foi quando eles evoluíram e dominaram os oceanos. Havia magníficos peixes dotados de carapaças ósseas chamados dunkleosteus. Foi quando surgiram os primeiros tubarões. Mas nada, nenhum resto de peixe jamais foi encontrado nas rochas brasileiras. Só conchas. Há registro de uma ocorrência apenas na Bolívia. “Meu sonho é achar peixes do devoniano no Paraná”, diz Comniskey.

 

Tentaculitoideos do gênero Homoctenus sp da bacia do Paraná/ Coleção do Laboratório de Paleontologia da UFPR/Jeanninny Carla Comniskey

Tentaculitoideos do gênero Homoctenus sp da bacia do Paraná/ Coleção do Laboratório de Paleontologia da UFPR/Jeanninny Carla Comniskey

 

Pesquisadores buscam encontrar peixes do devoniano no Paraná há pelo menos 40 anos. “E ninguém achou nada. Se existisse, já teríamos encontrado”, explica o paleontólogo Renato Pirani Ghilardi, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Bauru. “Achamos que há um problema de preservação nas bacias devonianas brasileiras”, explica o pesquisador, que co-organizou o dossiê de Macroinvertebrados do Devoniano Brasileiro. O clima e as condições geológicas e oceânicas da região não contribuiem para a preservação dos fósseis. “O esqueleto dos peixes é composto de fosfato, e as conchas dos invertebrados, de quitina e carbonato. Parece que não tem jeito de os fósseis fosfatados serem preservados.”

As primeiras expedições de coleta de material devoniano no Brasil datam da virada dos séculos 19 para o 20. Muito pouco foi estudado. “Há caixas e mais caixas cheias de fósseis guardadas, por exemplo, no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), que nunca foram abertas.” E não o foram por uma razão simples: faltam paleontólogos de invertebrados. No caso daqueles que estudam os vertebrados, há dezenas de profissionais no país. “Mas só sete ou oito de invertebrados, em instituições de ensino e pesquisa”, conta Ghilardi.

Apesar de poucos em número, esses pesquisadores estão revelando um panorama de biodiversidade impressionante para o devoniano brasileiro. Além dos tentaculitoideos, existiam cerca de 15 espécies de trilobitas, um grupo enorme de artrópodes extintos. Também havia cnidários, hoje representados pelas águas-vivas; bivalves ancestrais do mexilhão; e dez espécies de braquiópodes, animais pequenos semelhantes aos moluscos que ainda hoje vivem fixos no fundo do mar.

O estado de conservação é sofrível. “Não é possível fazer microscopia eletrônica porque não se preserva o esqueleto, só o molde dos bichos”, diz Ghilardi. “A partir do estudo das rochas, no entanto, consegue-se inferir a temperatura da água, a quantidade de oxigênio em solução, e até se havia atividade vulcânica. Daí é possível saber que, nos pontos onde aqueles animais viviam, a água era fria e o ambiente anóxico, com pouco oxigênio.”

Ghilardi observa que um dos eventos marcantes do devoniano, a extinção Kacak, pôde ser identificado nos fósseis brasileiros. “Foi um evento que extinguiu muitas espécies. As que conseguiram sobreviver apresentaram redução de tamanho, daí serem conhecidas como fauna lilliputiana”, alusão a Lilliput, uma ilha ficcional do clássico As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, habitada por gente minúscula.

As rochas do devoniano brasileiro também preservam restos de plantas pequenas e alguns insetos. “No devoniano, a vida macroscópica começava a se espalhar pelos continentes. Os pioneiros foram a flora e os insetos.”

A biodiversidade devoniana no Brasil precisa ser melhor estudada, principalmente em termos de paleobiologia e de relações biogeográficas. “Precisamos abandonar a paleontologia de gaveta e começar a entender as relações evolutivas entre todos aqueles animais. Precisamos começar a fazer a ciência do século 21.”

Equipamento usado para dosar a radiação nas amostras de sangue dos pacientes após a aplicação do radiofármaco Cr51-EDTA (foto: ivulgação); à direita, pacientes que tiveram a reposição hormonal suspensa durante um tratamento com radioiodo apresentaram prejuízo de 18% na taxa de filtração glomerular (imagem: NIH).

Equipamento usado para dosar a radiação nas amostras de sangue dos pacientes após a aplicação do radiofármaco Cr51-EDTA (foto: ivulgação); à direita, pacientes que tiveram a reposição hormonal suspensa durante um tratamento com radioiodo apresentaram prejuízo de 18% na taxa de filtração glomerular (imagem: NIH).

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