O dilema de quem faz transplante de órgãos no Brasil: burocracia


Quinta-feira, 16 de abril de 2015 às 05h53 – Publicado originalmente no dia 11 de fevereiro de 2014

Começando pelas barreiras burocráticas, extremamente difíceis de serem transpostas para os menos favorecidos, devido a vários fatores, dentre eles a realização de exames no Sistema Único de Saúde (SUS) – condição primordial para a renovação dos processos e retirada dos medicamentos – a cada três meses os transplantados devem apresentar exames específicos para provarem suas enfermidades e também retirar em outro posto as receitas referentes a esse período (leia a reportagem feita na AME Maria Zélia, pelo Alô Tatuapé, nesta terça-feira [14/04/2015]).

Gerson Soares

Para isso devem marcar a consulta com o médico que lhes atenderá e expedirá o pedido dos exames, além de preencherem um formulário para renovação do processo (LME – Laudo para Autorização/Dispensação de Medicamentos Excepcionais e Estratégicos). Qualquer erro de código ou rasura nessa guia, preenchida a caneta pelo médico, e o formulário será rejeitado pelas atendentes do posto de saúde que fornece o remédio. Caso isso ocorra, o paciente deverá marcar novamente uma consulta com o médico para pedir que seja corrigido. Um tormento para ambos, médico e paciente, já que a Secretaria de Estado da Saúde altera os formulários e códigos, devendo o profissional estar atento também a isso, além de suas verdadeiras atribuições, que são voltadas à medicina.

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Se estiver tudo correto o paciente fará os exames, obterá as receitas, o formulário de renovação do processo e receberá os medicamentos. Se algo der errado, o caminho do calvário fica entre a boa vontade das atendentes e responsáveis pelos postos e a possibilidade da rejeição pelo corpo do órgão transplantado, caso o paciente não tome os remédios, que lhe serão negados. Se não tomar o remédio, a opção é a morte. A vida pouco ou nada significa para a burocracia, o paciente é apenas um número. Talvez, os burocratas ignorem que dois ou três dias sem o remédio, pode por em risco todo o trabalho de equipes médicas, horas de trabalho, e a humanidade das famílias que doam órgãos de seus entes queridos num ato de puro amor ao próximo.

Portanto, esta reportagem serve de alerta para esse sistema desumano. As pessoas que enfrentaram o calor, a fome e a sede naquele dia 3 de janeiro deste ano (2014), assim como em muitos outros dias, só o fizeram pelo bem dos seus entes queridos ou por si mesmas, pois sabem que se não tomarem os remédios morrerão ou no mínimo terão de passar pelas agulhas, bisturis, injeções e internações hospitalares para receberem um novo órgão. Aliás, a possibilidade de um novo transplante não passa facilmente pela cabeça de quem já fez o primeiro, e no Brasil ainda falta muito para que haja uma organização no recebimento dos órgãos doados. Simplesmente não há equipes suficientes para cumprir os protocolos dos processos de doações e a retirada dos mesmos, por isso se perdem corações, rins, fígados e tantos outros órgãos doados que poderiam aliviar a dor dos que esperam nas filas para receber um transplante.

 

Calorão: Apesar dos três aparelhos de ar-condicionado estarem instalados, nenhum funcionava. O que se viu foi o exemplo do Zé Mauro. Cuidados com a filha dos 9 aos 16 anos, no Hospital de Clínicas da Unicamp, acompanhando-a nas internações para tratamento dos rins. Depois disso doou o próprio rim para salvá-la. No dia 3, enfrentou mais de 6 horas para retirar os remédios que dão razão ao seu esforço, sem eles seria a volta às sessões de hemodiálise ou morta para a filha.  Foto: aloimage (celular)

Calorão: Apesar dos três aparelhos de ar-condicionado estarem instalados, nenhum funcionava. O que se viu foi o exemplo do Zé Mauro. Cuidados com a filha dos 9 aos 16 anos, no Hospital de Clínicas da Unicamp, acompanhando-a nas internações para tratamento dos rins. Depois disso doou o próprio rim para salvá-la. No dia 3, enfrentou mais de 6 horas para retirar os remédios que dão razão ao seu esforço, sem eles seria a volta às sessões de hemodiálise ou morta para a filha. Foto: aloimage (celular)

 

Para esclarecer melhor e resumidamente este assunto, onde a burocracia atravanca e transtorna, para obter os medicamentos o paciente deve cumprir todas as exigências estabelecidas ao pé da letra, pois os remédios para transplantados não são vendidos em nenhum lugar, só o governo pode fornecê-los, a venda é proibida. Ou seja, esse cidadão se torna refém do sistema, ficando à mercê de todo tipo de humilhações e imposições governamentais, de médicos e farmácias de alto custo. Se houvesse humanidade e a saúde no país fosse tratada como algo necessário à qualidade de vida dos cidadãos – trabalhadores que pagam ou pagaram impostos caríssimos durante toda a vida – e estes obtivessem o devido respeito, isso não seria tão difícil e esta reportagem, talvez nem precisasse estar sendo escrita.

Veja o que deve ser feito após um transplante, resumo:

– Visita ao médico a cada três meses;
– Retirada de formulário para renovação do processo a cada três meses (somente médicos cadastrados no SUS podem fornecê-los);
– Retirada de receitas para os remédios;
– Retirada de formulários para pedido de exames;
– Exames a cada seis meses (ou a critério médico);
– Retirada mensal de remédios.

Ao final de um ano, o paciente transplantado terá passado quatro vezes pelo médico, feito uma bateria de exames duas vezes e deverá ter ido 12 vezes ao posto de saúde retirar seus preciosos medicamentos.

Pouco? Fácil?

Nem uma coisa, nem outra. A questão é a falta de organização e humanidade, um estudo de casos ou grupos de casos que poderiam ter moderadas todas essas burocracias e dilemas. O desmembramento do atendimento. Falta interesse governamental e leis que obriguem o cumprimento de regras compatíveis com os casos, para isso existe a tecnologia e mão-de-obra chegando anualmente ao mercado de trabalho, através dos jovens que se formam nas mais diversas áreas, como as da saúde e tecnologia, por exemplo.

Se você tiver um bom plano de saúde, terá esse calvário amenizado, mas se depender da burocracia e da conhecida qualidade de atendimento do SUS, a situação se torna bem cansativa e a vida deixa de ter a valorização que merece. Não se pode culpar os governos pelas doenças de ninguém, mas é possível dizer que com alguma boa vontade esses dilemas poderiam ser bastante diluídos.

Algumas sugestões:

– Análise dos casos em que os pacientes não precisem buscar os remédios mensalmente e fornecê-los trimestralmente;
– Análise dos casos em que os pacientes possam apresentar exames a cada seis meses, a critério médico;
– Consultas semestrais ou a critério médico, não a critério burocrático;
– Melhoria da qualidade de atendimento, condições de higiene e conforto mínimo aos pacientes que frequentam os postos, como o fornecimento adequado de água para beber, banheiros limpos;
– Aumento do número de funcionários, a serem deslocados para esse tipo de função nos dias de pico, como no começo de cada mês;
– Consulta aos pacientes e médicos, através de pesquisas sérias, sobre suas reais necessidades, concluindo assim como orientar e se adaptar às novas situações.
– Emissão de formulários eletrônicos de acordo com um processo já existente;
– Checagem eletrônica, assim como o agendamento dos exames.

Alguns dos resultados esperados:

– Economia e diminuição de gastos desnecessários;
– Satisfação do público e elogios a um novo sistema;
– Profissionais contentes com o trabalho e engajados em suas verdadeiras atribuições que portanto terão mais dedicação.
– Médicos praticando medicina e não procedimentos burocráticos de preenchimento de formulários. Eles fornecerão as receitas e farão os pedidos de exames aos pacientes utilizando o mesmo sistema do ministério ou das secretárias estaduais de Saúde, utilizando tecnologia da computação.
– Os médicos poderão emitir receitas e formulários eletronicamente.

O que propomos são apenas sugestões, discutíveis e aperfeiçoáveis. Mas o verdadeiro objetivo é humanizar e desburocratizar esse sistema que nos últimos dez anos não se alinhou a nenhum dos confortos tecnológicos existentes em outras áreas nem as gastos, por exemplo, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, que aplica milhões em outros itens (leia a reportagem: Saúde de São Paulo investe milhões, mas negligencia detalhes).

 


 

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