O dilema de quem faz transplante de órgãos no Brasil: resignação e descaso


Quinta-feira, 16 de abril de 2015 às 05h53 – Publicado originalmente no dia 11 de fevereiro de 2014

Entre a vida e a morte já esteve, se salvou por pouco, mas ainda deverá percorrer uma longa estrada. A vida fica mais suave depois do transplante, porque viver com um órgão deficiente é um peso enorme. Que o digam aqueles que estão nas filas à espera de doador; de um órgão que mudará sua mente e seu corpo para sempre. Infelizmente, no Brasil existem mais doadores do que estrutura para receber os órgãos doados e muitos se perdem sem chegar até àqueles que tanto precisam dessas doações para retomar suas vidas.

Gerson Soares

São Paulo | Capital – Coração, fígado, rins, pâncreas, pulmões, entre outros, são alguns dos órgãos que podem ser doados, e após serem transplantados oferecem uma nova chance, uma nova vida ao doente. É possível dizer que para a maioria dos transplantados, a marcha sobre a Terra é aliviada pelo órgão recebido. Um exemplo disso, são os doentes renais que após o transplante – às vezes proveniente do pai, irmão ou parentes, que doam um rim por amor – se livram das seções de hemodiálise. Outro exemplo de alívio e renovação é o transplante cardíaco. O coração novo proporciona coisas simples para a maioria das pessoais normais, como dormir ou beber água à vontade, mas o órgão deficiente não lhes permite usufruir disso ou simplesmente tomar banho, não normalmente.

Salão do Posto de Saúde e Farmácia de Alto Custo da Vila Mariana, no dia 03 de Janeiro de 2014. Foto: aloimage (celular)

Salão do Posto de Saúde e Farmácia de Alto Custo da Vila Mariana, no dia 03 de Janeiro de 2014. Foto: aloimage (celular)

 

Ser alguém que recebe um transplante significa fazer parte de um universo que nos últimos 10 anos chega a 85.000 indivíduos (dados colhidos em fevereiro de 2014), computados apenas os transplantes de coração, fígado, pâncreas, pulmão e rim, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO). A cada dia, um batalhão de pessoas recorre aos postos de saúde de capitais como São Paulo, para retirar os remédios que evitam a rejeição dos órgãos transplantados, entregues gratuitamente nas chamadas farmácias de alto custo do governo, pois o custo altíssimo dos medicamentos impossibilitaria a compra pela maioria dos pacientes, além do que a venda é proibida pelo Governo. Os transplantados engrossam as filas dos postos de saúde que também fornecem remédios para outras doenças mais comuns – nem por isso menos importantes –, como diabetes, mal de Alzheimer, asma, entre outras.

Sem deixar de atribuir louvor ao Ministério da Saúde, ao repassar verbas às secretarias estaduais, por esse ato humanitário, porém constitucional, e tomando como base o Posto da Vila Mariana (onde se inclui a Farmácia de Alto Custo), na capital paulista, pudemos avaliar o calvário mensal imposto a quem precisa desses medicamentos para sobreviver, principalmente no que diz respeito aos imunossupressores que controlam a rejeição dos órgãos transplantados, já que sem eles o paciente terá o órgão conseguido a duras penas rejeitado pelo corpo e provavelmente irá falecer se não receber outro que o substitua, algo pouco provável.

“Meu remédio acaba hoje, não tenho nenhum para amanhã, por isso vou ter de esperar”. – Dizia uma das mulheres, irritadas com a demora no atendimento da Farmácia de Alto Custo da Vila Mariana, abanando-se com uma folha de papel, sem outro recurso senão aguardar.

Observamos o descaso dos atendentes, funcionários públicos arrogantes e cansados, acometidos ingloriamente por crises da Síndrome do Pequeno Poder, salvo as exceções que podem ser encontradas, como nesse mesmo local, onde existem pessoas que ainda buscam em sua humanidade uma forma de amenizar o sofrimento dos que para ali se dirigem.

No período de aproximadamente 7 horas que permanecemos junto aos portadores de enfermidades, de parentes ou pessoas que se encontravam ali para retirar medicamentos, pudemos observar as dificuldades e a falta de integridade daqueles que lidam com as preciosas verbas públicas, provenientes dos impostos pagos e pertencentes ao próprio povo que ali estava; tratados num conceito implícito de que estão sendo favorecidos de alguma forma pelo governo, como se tomar remédios contra a rejeição dos órgãos transplantados pelo resto de suas vidas fosse um prazer, ou ainda ter de retirar remédios essenciais fosse uma escolha.

Cadeiras sem encosto com ferros aparentes, aparelhos de ar-condicionado desligados ou quebrados, o calor insuportável do dia 3 de janeiro de 2014, cuja temperatura externa passava dos 32 graus, no interior do salão a sensação de calor era bem maior. O ar rareava, era quente, havia dificuldade para respirar e se alguém duvidar bastará perguntar a qualquer um que por lá permaneceu durante horas. Sobre perguntas, fizemos a seguinte para uma das atendentes, por volta das 16h30:

– Com licença, é possível aguardar lá fora? O calor aqui está difícil de suportar.
A resposta veio depois de alguns segundos de indiferença:
– Depois das 17h a porta fecha, quem estiver aqui pega o remédio, quem não estiver...

Ou seja, segundo o que foi possível entender, os pacientes deveriam permanecer no interior do salão suportando o calor, caso contrário, seriam barrados pelos seguranças e não poderiam mais retirar os remédios, apesar de terem uma senha esta não serviria para mais nada. Felizmente a porta não foi fechada, para alívio dos resignados pacientes. Talvez, a atendente estivesse querendo dizer que a entrega de senhas termina às 17h, mas não deixou isso claro. A atendente deveria ser lembrada de que trata com gente humilde, que vem de longe e as palavras podem soar estranhas. Talvez por isso, mais de uma centena de abnegados suava no interior do salão e não arredava o pé com medo de ficar sem os remédios, caso estivesse do lado de fora do salão Mesmo assim, alguns poucos se arriscavam, devido ao calor e à falta de ar.

Naquele dia 3 de janeiro de 2014, também descobrimos que o posto passaria por reforma, mas ninguém sabia informar quando isso iria acontecer, muito menos onde seria feita a entrega dos remédios, caso o espaço fosse interditado, causando pânico entre os pacientes e as pessoas que estavam ali em nome de parentes ou amigos. Desorganização, indiferença, falta de respeito, essas são palavras amenas para o descaso com a saúde e com aqueles que pagam por ela direta e indiretamente através dos impostos mais caros do mundo.

Um mês depois, em fevereiro, o Posto da Vila Mariana informava que o atendimento seria transferido para a Avenida Dr. Altino Arantes, 1344, na Vila Clementino, a partir de março. Leia abaixo como foi.

 


 

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