O norueguês caboclo


Domingo, 19 de julho de 2015, às 06h46


Claudia Izique Agência FAPESP – Alfred Andersen, um jovem pintor norueguês, encantou-se com o Paraná quando, a caminho de Buenos Aires, em 1893, o navio em que viajava fez uma escala técnica em Paranaguá. Decidiu ficar. Casou-se com uma descendente de índios Carijós, deu aulas de pintura e retratou a burguesia que, em troca, o acolheu.

Morto em 1935, Andersen passou à história como pai da pintura paranaense: sua casa transformou-se num museu, suas obras tornaram-se referências regionais e sua trajetória converteu-se num “terreno fértil para a pesquisa em sociologia da arte”, afirma Amélia Siegel Corrêa, autora do livro Alfredo Andersen – Retratos e paisagens de um norueguês caboclo.

A pesquisa envolveu consulta a diversas fontes bibliográficas, inclusive na Noruega, para entender a formação artística e a identidade do pintor.

A pesquisa envolveu consulta a diversas fontes bibliográficas, inclusive na Noruega, para entender a formação artística e a identidade do pintor.

O livro, publicado com o apoio da FAPESP, corresponde à tese de doutorado de Corrêa na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), orientada por Leopoldo Garcia Pinto Waizbort, também com bolsa da Fundação. “O objetivo é entender os condicionantes sociais e históricos da atividade do artista”, resume Corrêa. O livro, em que ela também analisa as obras do pintor, será lançado em 6 de agosto, na Livraria Cultura, em Curitiba, no Paraná.

A pesquisa envolveu consulta a diversas fontes bibliográficas, inclusive na Noruega – onde Andersen nasceu, em 1860, filho de um capitão de navio e de uma dona de casa –, para “entender a formação artística e a identidade do pintor”.

Nos primeiro e segundo capítulos, Corrêa percorre a biografia e a trajetória artística do pintor, que começou a frequentar escola de desenho aos 14 anos e teve sua formação marcada pelo retrato e pelo paisagismo, tradicionais na Noruega, ainda fortemente contaminado pelo realismo.

Andersen vendeu a primeira tela em 1888 e, em 1891, numa exposição individual, comercializou cinco dos dez quadros expostos. Sua arte, no entanto, desenvolveu-se na “periferia” da cultura europeia que tinha epicentro em Paris e no impressionismo. “Se a pintura naturalista perdia cada vez mais espaço na Europa com o avanço das vanguardas, ele foi bem recebido no Sul do Brasil”, afirma.

Um país promissor

Foi com essa bagagem que Andersen aportou no Brasil, país que ele conhecera anos antes, em viagem com o pai. “Instalar-se num país promissor era compatível com um homem de trinta e poucos anos que via sua carreira artística sob ameaça de fracasso.”

No capítulo três, Corrêa analisa a fase brasileira do pintor, principalmente, os retratos, de forma a apreender, “pelo contexto social e pelas redes de relações que foram produzidas”, a relação entre arte, cultura e política no Paraná e a posição do pintor nessa configuração.

A fotografia, na época, já fazia sucesso no Brasil e Andersen fez dela uma aliada: aceitava encomendas a partir de fotos de pessoas. “Costumava dizer que era mais fácil ser pintor do que fotógrafo”, ela conta. Pintava ao gosto de fregueses – comerciantes, profissionais ligados ao porto de Paranaguá, à estrada de ferro ou à erva-mate –, que consideravam o retrato um “símbolo de status”, e assim garantia o sustento da família. Mudou-se para Curitiba e ampliou sua rede de relações para incluir também literatos e políticos.

No quarto capítulo a autora investiga as pinturas de paisagens, gênero pelo qual ele se tornou mais conhecido: marinhas do litoral, cenas do porto e paisagens de Rocio, até chegar ao tema “canônico” dos pinheirais. “É possível perceber, também, o processo de mudança da fatura estética do pintor, o que se deu tanto pelo contato com outros paisagistas brasileiros, como pelas pressões do mercado”, ela explica.

O quinto capítulo tem como pano de fundo a belle époque curitibana. Com a República, a promulgação da 1ª Constituição da província do Paraná e o crescimento da indústria do mate e da madeira, a atividade artística se expande e começam a surgir as primeiras exposições, assim como as primeiras tentativas de instauração de uma Escola de Música e Belas Artes, que se concretizará apenas em 1948.

No sexto e último capítulo, Corrêa explora a posição de Andersen nesse novo ambiente, tendo como foco o casamento nativo e a sua condição de estrangeiro. “Entramos na casa do pintor através das suas pinturas, inclusive dos retratos afetivos dos seus familiares”, afirma. As cenas de gênero, ela sublinha, configuram a faceta mais autoral da sua produção. “É onde ele mostra o seu cotidiano e seu caminho sem volta rumo à luz e à cultura brasileira.”


Alfredo Andersen – Retratos e paisagens de um norueguês caboclo
Autora: Amélia Siegel Corrêa
Editora: Alameda
Ano: 2014
Páginas: 380

Experimentos realizados no Instituto Butantan testou in vitro a atividade da epiisopiloturina contra diversos tipos de parasita. Foto: Divulgação

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