O peso do voto no país do futebol e o impeachment


Segunda-feira, 9 de março de 2015, às 09h25 – atualizado às 17h39

Quatro meses após ser eleita pelas urnas, Dilma Roussef é execrada nas principais capitais do país com panelaço.

Gerson Soares

Quando os brasileiros se julgam um povo alegre, hospitaleiro e feliz estão certos. Quando o povo se diz abençoado por morar num país tropical de belas paisagens não há como negar. Mas há de se admitir: a política não é o seu forte.

Há quatro meses, depois de tantos desencontros que o último ano da primeira gestão da presidente Dilma Roussef proporcionaram, apenas os mais otimistas acreditavam em sua vitória nas eleições passadas contra forças como Aécio Neves e Marina Silva.

A economia dava o tom com nítidos sinais, como a queda da produção industrial e diversos setores desconfiados daquilo que viria de um governo desgastado com várias acusações de corrupção, a vergonhosa impunidade no caso do Mensalão e o fracasso da Copa do Mundo, além das verbas destinadas à construção de estádios, com exigências que ficariam conhecidas como padrão Fifa. O trocadilho foi usado para pedir melhorias na saúde, educação e segurança nos mesmos padrões.

 

A presidente Dilma Roussef em rede nacional de televisão, no Dia Internacional da Mulher.  Foto: reprodução

A presidente Dilma Roussef em rede nacional de televisão, no Dia Internacional da Mulher. Foto: reprodução

 

No país onde o futebol é venerado, ao ponto de que durante o panelaço promovido na noite de ontem (8), manifestantes e torcedores se confundissem entre qual era o motivo da barulheira, a humilhante e histórica derrota por 7 x 1 para a Alemanha na Copa do Mundo – promovida a peso de ouro no Brasil – deu esperança aos opositores do governo. Contavam que ela não conseguiria se reeleger com tantos desafetos, apaixonados pelo futebol. Porém, distanciados da política.

Poucos dias antes do segundo turno das eleições do dia 26 de outubro de 2014, a revista Veja noticiou um escândalo bombástico, desvendado pela Polícia Federal, de que a presidente e candidata Dilma Roussef e o ex-presidente Lula sabiam dos desvios e fraudes na Petrobras. Numa tentativa de abafar o caso, o PT ainda tentaria impedir a circulação da revista, que ganhou repercussão em todo o território nacional.

Mas nada disso foi capaz de demover a opinião de metade do país, que elegeu Dilma Roussef e o PT para mais quatro anos. Ontem, a presidente pediu calma ao povo e culpou novamente o alarmismo das notícias – apesar da inflação em alta, baixo crescimento da indústria, crises energética e hídrica, e da palavra impeachment. Seu partido, que representou em fala tradicional no Dia Internacional da Mulher, atribui à burguesia as manifestações contrárias ao governo.

Atualmente conhecida e comentada na imprensa mundial, a Operação Lava Jato da Polícia Federal, praticamente veio a público com a prisão do doleiro Alberto Youssef, que em troca da delação premiada confessou fazer parte e forneceu informações sobre o esquema de corrupção na Petrobras, apelidado de Petrolão – primo-irmão do Mensalão.

O desenrolar dos fatos está abalando ainda mais os investimentos, a economia, a vida das pessoas e envolve gente graúda em diversos níveis governamentais e empresariais. Os executivos das maiores empreiteiras do país estão no banco dos réus e os nomes dos envolvidos chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Fernando Collor, único presidente brasileiro a ter seu mandato interrompido por um impeachement, tinha uma situação muito diferente em 1992. Conseguir que aconteça o mesmo com Dilma Roussef pode ser uma difícil missão aos seus opositores. O panelaço de ontem e a manifestação marcada para o dia 15 deste mês, terão a força necessária para removê-la do Palácio do Planalto?

A maioria comenta, especula, mas duvida que o PT perca o poder. A não ser que algo muito extraordinário aconteça, tão maior do que uma goleada de 7 x 1, o dólar a R$ 3,10 ou um escândalo de bilhões desviados. O peso do voto teria sido muito maior e a som do panelaço mais estridente em outubro passado. Parafraseando Zagalo, o campeão do futebol: “Agora, vocês vão ter que me engolir”, dirá o governo. Por mais quatro anos, no mínimo.

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Autor: alotatuape

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