O vírus mortal da má formação médica

Médico Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica

Má formação médica. Ilustração: aloart


Sábado, 8 de agosto de 2015, às 12h12


Dias atrás o Governo Federal anunciou a criação de mais cursos de Medicina até 2016. Serão 2.290 vagas de graduação, em 36 municípios do país, de onze estados – nenhum deles capital. Todas as cidades selecionadas têm 70 mil habitantes ou mais e não contam com graduação na área.

Lamentavelmente é a recorrente aposta na quantidade em detrimento da qualidade. Em boa parte dessas localidades, não há docentes suficientes nem hospital-escola com vocação para o ensino. O resultado é que o Brasil colocará, daqui alguns anos, profissionais mal preparados na linha de frente do atendimento, expondo a população ao risco.

É importante ressaltar que, além de toda a estrutura física imprescindível, uma escola médica deve ter tradição para garantir uma formação efetiva também do ponto de vista ético. Não é apenas transmitindo conhecimentos que se consolida o bom médico, é preciso ensinar também a conduta humanista, na qual a relação médico-paciente é baseada na confiança e respeito, e não somente em um atendimento frio e científico. É fundamental que quem ensina o faça pelo testemunho da sua presença; que compreenda a diferença de escolaridade e educação médica e que tenha condições de ensinar com base na construção de valores. Sem isso, nunca teremos um médico adequadamente formado, apenas um simples “curador de doenças”.

Medicina não é apenas estudar a ação de substâncias no organismo, verificar o funcionamento de órgãos ou realizar procedimentos cirúrgicos precisos. O médico deve aprender a construir o próprio conhecimento. Amar a profissão e ter em mente que está se educando para tratar doentes, e não apenas doenças.

Isso posto, vale reafirmar que correremos riscos frequentes, enquanto a quantidade de profissionais for o centro da discussão, e não a qualidade da formação. A realidade é que, em muitos locais, escolas médicas são abertas com o único propósito de trazer vantagens econômicas para a instituição, o que se traduz no perigoso desinteresse pela saúde da população.
O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo já evidenciou, concretamente, a necessidade de ações urgentes para coibir a formação insuficiente nas escolas médicas. Para conhecer a real extensão do perigo que corremos ao buscar assistência com a nova safra de graduados, basta consultar os números do Exame do Cremesp de 2014.

Submeteram-se à prova 3.359 recém-formados. Dos 2.891 inscritos de São Paulo, 55% (1.589) tiveram média de acerto inferior a 60% ao conteúdo apresentado. Entre os novos médicos de outros estados, a reprovação foi de 63,2% - indicativo que a situação, já insustentável em São Paulo, pode ser ainda pior em outros rincões.

A ignorância é atestada em questões simples como o atendimento inicial ao traumatizado e pneumonia, por exemplo.

O quadro é assustador. De qualquer forma, avaliar escola por meio do aluno carrega viés enorme. Isso sem falar que é fundamental levar em conta a parte prática, não somente o conteúdo teórico. Aliás, a medicina é fundamentalmente habilidade, ética e atitude, um exame teórico deixa de avaliar o graduado em sua plenitude.

A saúde da população deve ser levada mais a sério.

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