Domingo, 21 de agosto de 2016, às 11h59


Jogadores recusam usar conquista como vingança por derrota na Copa do Mundo e esperam que medalha de ouro no futebol sirva para superar traumas.

Por Valéria Zukeran | Rio 2016

A conquista da medalha de ouro no futebol masculino sobre a Alemanha nos Jogos Rio 2016 teve muitos significados para os jogadores e o técnico Rogério Micale. Muitos, menos um: o de vingança pela derrota por 7 a 1 na Copa do Mundo de 2014, disputada no Brasil. Alívio, orgulho, alegria, sim, fizeram parte do discurso.

 

Jogadores da Seleção Brasileira de Futebol chegam para receber a inédita medalha de ouro. Foto: Getty Images / Laurence Griffiths

Jogadores da Seleção Brasileira de Futebol chegam para receber a inédita medalha de ouro. Foto: Getty Images / Laurence Griffiths

 

Decisivo na partida por ter marcado o gol no tempo normal e cobrado o pênalti que definiu a conquista da medalha de ouro, o atacante Neymar desabafou. “Esta é uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida. Agora eles [os críticos] vão ter que me engolir”, disse o jogador, que nos primeiros dois empates da seleção no Rio 2016 ouviu a torcida no Mineirão chamar o nome de Marta, estrela da equipe feminina, quando tocava na bola. “A única coisa que passou pela minha cabeça foi que eu tinha que fazer isso [conquistar a medalha de ouro]. Eu cumpri meu sonho.”

Outro jogador fundamental, o goleiro Weverton, preferiu falar menos de sua atuação em momentos importantes na partida ou do pênalti que defendeu para falar sobre Neymar. “Eu disse ao Neymar que Deus tinha dado a ele uma segunda chance”.

O técnico Rogério Micale falou sobre a importância e o futuro dois jogadores. “Há um enorme orgulho em compartilhar esta medalha de ouro com Neymar. Ele é o ponto de referência para o futebol brasileiro”, disse o treinador da seleção, que ainda afirmou prever um futuro de novas vitórias para o jogador. “Ele tem apenas 24 anos. Já ganhou a prata [Olímpica], agora ganhou uma medalha de ouro. O próximo passo natural para ele é vencer uma Copa do Mundo.”

 

Goleiro alemão Timo Horn até que tentou,mas não conseguiu alcançar a bola, depois do chute excepcional de Neymar que ainda deu um toque na trave antes de entrar.Foto: Getty Images / Paul Gilhan

Goleiro alemão Timo Horn até que tentou,mas não conseguiu alcançar a bola, depois do chute excepcional de Neymar que ainda deu um toque na trave antes de entrar.Foto: Getty Images / Paul Gilhan

 

O treinador não deixou de ressaltar a importância de Weverton na conquista do ouro. O jogador só integrou o time Olímpico na fase final da preparação, depois que o goleiro convocado, Fernando Prass, sofreu uma contusão. “Quando liguei para ele, sabíamos que ele poderia ter que defender pênaltis e ele não nos decepcionou”, afirmou Micale.

O treinador não escondeu que sentiu um enorme peso sobre seus ombros, mas que agora pode respirar aliviado. “Agora sinto realização, alívio e alegria por este momento sem precedentes no futebol brasileiro. Eu me sinto mais calmo agora. Conforme o tempo passar, vou saborear esta vitória”.

Sem vingança

Entre os jogadores questionados sobre uma possível vingança contra os alemães pela derrota por 7 a1 na Copa do Mundo, a resposta foi unânime. “Desde minha primeira vez na seleção Olímpica, sempre repetiam isso, a questão da Alemanha. Tinha isso [essa motivação], mas nada comparado à motivação de um Maracanã lotado”, disse Rafinha.

“Em nenhum momento a gente colocou na cabeça que seria uma revanche. A gente veio com o propósito de vencer o jogo. É outro ano, outra categoria, outra geração, outros jogadores, a gente não pode pensar em algo do passado e trazer para o presente”, ponderou Rodrigo Caio.

Para Renato Augusto, que viveu um momento especial por ter sido criado nas redondezas do Maracanã, a esperança é de que a medalha de ouro possa iniciar um novo momento na relação entre a torcida e a seleção. “Não gosto de comparar [a equipe Olímpica com a seleção da Copa de 2014] porque são times diferentes. A derrota para a Alemanha vai ser uma cicatriz que vai ficar, não dá para apagar, mas a gente tem de mudar isso. Hoje saí com um orgulho tão grande de ser brasileiro, de ver o torcedor assim feliz. Espero que seja uma virada de chave”.

O que ficou entre os jogadores é a certeza de que a medalha de ouro vai marcar época. “É muito gratificante ganhar aqui e escrever nossos nomes na história com tão pouca idade. Essa medalha vai ficar guardada por muitos anos nas nossas vidas. Vai ser eterna porque foi a primeira”, disse Gabigol.

Uma nova filosofia de jogo?

Os jogadores também comentaram o fato de o time ter atuado diferente do que tem sido visto na seleção principal, com muitos jogadores de ataque e uma marcação avançada. “Você pode jogar com quantos atacantes quiser. Temos de mudar essa ideia de que, se você joga com quatro atacantes, é um time ofensivo e, se joga com um, é um time defensivo”, defendeu Renato Augusto.

“Podemos ter quatro atacantes que ajudam os laterais a marcar. Não existe um modo perfeito de montar o time. Com os jogadores que a gente tinha deu certo, foi perfeito.”

Rodrigo Caio concordou com o colega na avaliação de que o jogo apresentado pelo Brasil só foi possível por causa das características dos convocados. “Pela qualidade, pela geração, pelos jogadores que temos, foi possível fazer isso. Temos dois zagueiros rápidos, um time muito compacto. É difícil marcar pressão nos 90 minutos e a gente mostrou isso”, completou.

Dupla britânica comemora recorde no Velódromo. Foto: Getty images/Bryn Lennon

Dupla britânica comemora recorde no Velódromo. Foto: Getty images/Bryn Lennon

Leia mais sobre
JOGOS OLÍMPICOS
RIO 2016

Leia as últimas publicações