PDE, ZEIS e o Inferno de Dante

Quinta-feira, 26 de junho de 2014 às 8h07 – atualizado às 10h12

Gerson Soares

CMSP – No final da sessão plenária de ontem (25), vereadores exaltados como José Police Neto (PSD), que tiveram problemas com integrantes do MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto) que continuam acampados em frente à Câmara Municipal de São Paulo (CMSP), para defender seus interesses na votação das ZEIS.

Os debates estiveram voltados para o projeto do Plano Diretor Estratégico da cidade de São Paulo (PDE). Segundo o líder do governo, vereador Arselino Tatto (PT), foi firmado acordo com as lideranças dos partidos para que as sessões desta quarta e quinta-feira fossem utilizadas exclusivamente para discussão do projeto. Segundo, informações da CMSP, até sexta-feira, o PDE deve ser colocado em pauta para votação final.

O relator do projeto, vereador Nabil Bonduki (PT), ocupou a tribuna nesta quarta para defender o substitutivo do PDE. “O planejamento urbano serve para organizar a cidade, estabelecendo regras para o uso e ocupação de solo e os programas públicos para as próximas três gestões municipais. São Paulo não pode mais se expandir horizontalmente. Precisamos agora conter esse processo para evitar que haja mais degradação de áreas de proteção ambiental e estabelecer claramente para onde a cidade vai se desenvolver a partir de agora”, disse.

 

 

Plenário da Câmara, ontem (25/6/14). Ao microfone Arselino Tatti e mais à esquerda Police Neto (em pé). Foto: RenattodSouza

Plenário da Câmara, ontem (25/6/14). Ao microfone Arselino Tatti e mais à esquerda Police Neto (em pé). Foto: RenattodSouza

 

O presidente da Comissão de Política Urbana, vereador Andrea Matarazzo (PSDB), será o primeiro a discursar sobre o projeto. Em seguida, segundo promessa do presidente da CMSP, vereador José Américo (PT), será a vez de Gilberto Natalini (PV), seguido dos demais vereadores inscritos, na sessão desta quinta-feira. Para garantir que todos os vereadores tenham tempo para discutir o projeto, o presidente da Câmara convocou a sessão ordinária e mais três extraordinárias.

O vereador Arselino Tatto (PT) usou o plenário para defender o vereador José Police Neto (PSD), duramente criticado por integrantes do MTST, que o acusam de ser o ‘vereador das empreiteiras’. “90% dos projetos do vereador Police são relacionados à moradia popular, por isso são injustas as críticas e acusações que foram feitas. Dialogamos com o movimento e eles entenderam que cometeram um erro. Quero dizer que o vereador tem a solidariedade de toda base do governo”, disse Tatto.

Integrantes do MTST estão acampados e afirmam que ocuparão as imediações da CMSP até a votação do PDE, pressionando os vereadores. O líder do movimento, Guilherme Boulos acusa os vereadores, entre eles Police Neto, de estarem fazendo lobby nas aprovações de interesse das empreiteiras. Nesse sentido fica mesmo sem explicação a liberação para construção de edifícios no interior dos bairros, que antes era de proibição para construções acima de oito andares no interior dos bairros. Os edifícios não poderiam ser de alto padrão e estar próximos às estações e terminais de transporte público, a fim de evitar o uso do carro, tido como vilão pela Prefeitura e suas secretarias ligadas à mobilidade urbana. Após a publicação do substitutivo esse veto caiu, deixando claro que houve pressão das construtoras junto aos vereadores, a fim de protegerem seus interesses.

Inferno de Dante

Enviamos há várias semanas, às assessoria de diversos vereadores, perguntas referentes às ZEIS, sobre as construções que avançam descaracterizando a paisagem dos bairros sem critério arquitetônico, impactante ou avaliações mais abrangentes como esta que está sendo feita durante os debates que originaram o PDE, mas nenhum deles respondeu. O que não se explica é ter o veículo individual como vilão e ao mesmo tempo liberar a construção de prédios que multiplicarão absurdamente o número deles nos bairros da cidade. Salvas as raras exceções, o que vemos é um conjunto de leis que irão favorecer alguns e prejudicar outros tantos, sem obter soluções práticas, como por exemplo, a proposta que oferecemos, mas que só poderia ser discutida depois da aprovação do PDE e com todas as implicações de um ano eleitoral, só seria discutida depois do recesso parlamentar de 2015.

A proposta do Alô São Paulo seria um escalonamento de horários para o trabalho, a escola, a universidade, dividindo os geradores de trânsito, possibilitando até certo ponto a escolha de qual tipo de transporte o cidadão utilizaria, ao invés de simplesmente taxar o automóvel como vilão, difundindo essa ideia entre aqueles que, ainda, não possuem um carro. Não se faz isso porque daria muito mais trabalho do que instituir algumas proibições e pronto, como o rodízio – que já não funciona. Se devemos transformar os carros em vilões eternos daqui para frente, então deveria ser proibida a venda deles, já que o feliz comprador não poderá utilizá-lo em breve, pelas diretrizes cada vez mais anunciadas pela Prefeitura.

Interesses setoriais, agressões, pressão psicológica, ganância, dinheiro, continuam década após década marcando a atuação política e a falta de participação dos mais interessados: o próprio povo. Se grupos populares como o MTST se organizam e legitimamente ou não, cabe à justiça julgar, conseguem que seus interesses sejam vistos através de atitudes pouco heterodoxas, parece ser a única forma de conseguir atenção para os problemas sociais gerados através dos tempos em São Paulo e no resto do país, que só agora afloram nas consciências coletivas que se aglomeram por uma oportunidade nos estudos, no trabalho, por uma vida digna ou melhor atendimento para a sua saúde.

É o Inferno de Dante que se instala, antes mesmo da aprovação das novas diretrizes que regerão a vida de milhões em São Paulo.

Com informações da CMSP
alotatuape

Autor: alotatuape

Share This Post On

Enviar um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*