Pesquisas com araucárias em São Paulo são reunidas em livro


Terça-feira, 13 de outubro de 2015, às 07h40


Resultados de uma série de pesquisas multidisciplinares sobre araucárias no Estado de São Paulo foram reunidos no livro Floresta com araucária: composição florística e biota do solo, publicado pela Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq). As pesquisas foram realizadas no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA).

Diego Freire | Agência FAPESP

As florestas com araucárias já ocuparam uma área de 180 mil km² entre os estados do Sul e do Sudeste brasileiros, reduzida especialmente pela ação do homem a não mais que 6 mil km² de fragmentos florestais. Por conta dessa redução, a araucária é considerada ameaçada de extinção pela International Union of Conservation of Nature.

 

Nascer do sol com pinheiros-do-paraná (Araucaria angustifolia) vistos no Parque Nacional da Serra da Bocaina, Brasil. Foto: Heris Luiz Cordeiro Rocha / Wikimedia

Nascer do sol com pinheiros-do-paraná (Araucaria angustifolia) vistos no Parque Nacional da Serra da Bocaina, Brasil. Foto: Heris Luiz Cordeiro Rocha / Wikimedia

 

Para os pesquisadores, os resultados apresentados no livro formam um arcabouço de conhecimento que pode ser utilizado no manejo mais adequado de florestas replantadas para que se evite o extermínio da espécie, entre outras contribuições.

“Sobraram pouquíssimas plantações nativas de araucária que e, se queremos trabalhar no sentido da sua preservação, temos que conhecer melhor toda a microbiota que convive com essa planta. Isso se aplica tanto ao replantio como às florestas nativas, que não são puras e crescem junto a outros tipos de árvore”, disse Elke Jurandy Bran Nogueira Cardoso, professora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) e coeditora do livro ao lado de Rafael Leandro de Figueiredo Vasconcellos.

Para isso, além da diversidade vegetal e dos microrganismos do solo em florestas nativas de araucária no Estado de São Paulo, os pesquisadores estudaram florestas replantadas e degradadas, sob forte influência antrópica, como áreas de pastagem, considerando a macrofauna do solo, bactérias promotoras do crescimento de plantas, o controle biológico de fitopatógenos e uma série de estudos variados em torno da araucária.

“Sabe-se que nenhuma planta cresce sozinha. Elas têm seu microbioma tal como os animais, os seres humanos. Sem ele, uma planta ou uma floresta não pode viver saudável. Para manutenção da saúde dos solos, é preciso que haja essas funções microbianas funcionando, as mais variadas, e interagindo entre si, de maneira que se faça um bom equilíbrio entre elas e o estabelecimento da floresta”, disse Cardoso.

Os estudos sobre a micorriza da planta – a associação entre sua raiz e fungos para troca de nutrientes – levaram à descoberta de uma peculiaridade da araucária em relação às demais coníferas do mundo: o grupo foi um dos primeiros a publicar que ela é uma planta de micorriza arbuscular, caracterizada pela penetração do fungo nas células da raiz, e não de ectomicorriza, em que os fungos apenas a circundam.

“A micorriza arbuscular é um tipo predominante nos trópicos, enquanto que a quase totalidade das coníferas do mundo tem ectomicorriza. De modo geral, a origem da maioria das coníferas é de clima temperado e praticamente todas as conhecidas têm ectomicorriza, que é predominante em árvores desse clima. Em compensação, em regiões tropicais, como na Floresta Amazônica e na Floresta Atlântica, a grande maioria das árvores tem micorriza arbuscular. Acredita-se que, durante a evolução, a araucária tenha apresentado essa tendência por ter se desenvolvido numa região onde predomina a micorriza arbuscular nas árvores”, explicou Cardoso.

De acordo com a pesquisadora, o conhecimento sobre a micorriza pode ajudar a salvar as araucárias da extinção por levar a técnicas de manejo mais eficientes, como a inoculação de fungos micorrízicos em mudas para que elas cheguem ao campo mais fortes e mais bem preparadas para sobreviver ao transplantio.

“Com a ajuda desses fungos, mesmo as árvores que crescem em solo relativamente pobre conseguem obter os nutrientes necessários para seu bom crescimento e formação dessas plantas majestosas que caracterizam a araucária adulta”, afirmou.

Além da interação com microrganismos, as pesquisas tratam da relação da araucária com outras plantas e das implicações de sua preservação na agricultura.

“Sabemos que muitas das árvores que crescem dentro de florestas de araucárias são leguminosas, com potencial de fixação de nitrogênio através dos nódulos. Essas plantas enriquecem o solo com nitrogênio, que vai ser partilhado pelas araucárias. Tudo isso compõe um ciclo virtuoso que precisa funcionar para que o solo permita que as plantas cresçam de forma saudável, com menos incidência de pragas e doenças, menos necessidade de adubo e pesticida – enfim, como ocorre naturalmente na natureza”, disse Cardoso.

Para a pesquisadora, a compreensão sobre as funções ecossistêmicas envolvidas no processo de crescimento da araucária pode levar ao desenvolvimento de técnicas que as reforcem.

Os estudos da estrutura da comunidade arbórea e de aspectos da regeneração natural de remanescentes florestais de araucárias em São Paulo foram feitos principalmente no Parque Estadual de Campos do Jordão e em Barra do Chapéu.

Também foi estudada a diversidade genética da planta. Por meio do sequenciamento de DNA de regiões conservadas foi feita uma avaliação da variabilidade intraespecífica que pode auxiliar no desenvolvimento de manejos para aumentar a produção do pinhão.

“As araucárias são plantas dioicas, que apresentam árvores femininas e masculinas. Na época do plantio não se consegue saber se a planta é macho ou fêmea, apenas quando ela frutifica que se pode verificar se ela vai produzir pólen ou pinhão – claro, se ela for polinizada. Devido a isso, precisamos ter certa quantia de machos e fêmeas misturados para que todas as plantas possam ser polinizadas e produtivas”, disse Carsoso.

Para auxiliar nesse processo, foram medidas, por meio de estudos moleculares das fêmeas, quais seriam as distâncias máximas que serviriam para uma fecundação efetiva e uma produtividade adequada do pinhão, a fim de se conhecer o número mínimo de plantas machos e fêmeasnecessárias numa área para que haja produtividade satisfatória.

Além de Cardoso e Vasconcellos, assinam o livro Camila Maistro Patreze, Carlos Marcelo Ribeiro, Daniel Bini, Daniel Lammel, Dilmar Baretta, Jamil de Morais Pereira, Júlia Lima, Kikyo Yamamoto, Marina Horta, Marta Camargo de Assis, Milene Moreira, Natália Macedo Ivanauskas, Priscila Trigo, Rafael Borges da Silva Valadares, Rafaela Neroni, Rochelle Lima Ramos dos Santos, Rodrigo Trassi Polisel, Rose Pereira Muniz de Souza, Sebastião Venâncio Martins, Simone Cristina Braga Bertini, Siu Mui Tsai, Tiago Maciel Ribeiro e Vinícius de Castro Souza.


fapesp livro araucariasFloresta com araucária: composição florística e biota do solo
Editores: Elke Jurandy Bran Nogueira Cardoso e Rafael L. F. Vasconcellos
Lançamento: 2015
Preço: R$ 50
Páginas: 269

Realização de medida radiométrica sobre painel de referência padrão. Essa medida é utilizada na comparação com aquelas realizadas sobre outros paineis de referência levados a campo. Como são vários painéis, todos são comparados com um mesmo padrão. Foto: divulgação

Realização de medida radiométrica sobre painel de referência padrão. Essa medida é utilizada na comparação com aquelas realizadas sobre outros paineis de referência levados a campo. Como são vários painéis, todos são comparados com um mesmo padrão. Foto: divulgação

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