Preservação da Amazônia já é questão de sobrevivência

Segunda-feira, 1 de setembro de 2014 às 08h50 – Atualizado às 15h37

 

Gerson Soares

Há décadas, mais do que as quatro, citadas na esclarecedora reportagem sobre a água que consumimos e o que ocorrerá com a falta dela, exibida ontem no Fantástico, trazendo mais uma vez à tona a questão amazônica – repetidamente divulgada pelas agências de notícias, sites, TV, rádio e toda a imprensa. A Globo emitiu mais um pedido de socorro no seu programa dominical visto por milhões de pessoas, um alerta dos jornalistas, cientistas, das ONGs e desde os ocupantes dos mais altos postos da sociedade brasileira até os cidadãos brasileiros que se somam para a preservação dessa dádiva que é o Amazonas.

Apesar de tudo e de todos, os interesses financeiros de ordens diversas continuam desafiando a natureza, contrapondo-se à opinião pública e à lei estabelecida, trabalhando sorrateiramente, como os vermes que habitam o chão e reciclam a própria floresta, muito mais úteis em sua função essencial do que aqueles que só pensam no dinheiro, nos lucros materiais. E, apesar das possibilidades que a moeda lhes oferece, possuem apenas uma diminuta visão, uma turva consciência do que possa significar a palavra futuro e o quanto ele pode estar próximo ao presente, como demonstram as mudanças climáticas que afetaram as precipitações chuvosas em São Paulo, exaurindo os sistemas de abastecimento de água.

O jornalismo do Alô Tatuapé, menciona a questão amazônica há mais de 20 anos, sendo um elo dessa corrente em prol da sua preservação, inclusive da Mata Atlântica. Somos apenas um gomo unido ao todo, perante os gigantes da mídia, como a Rede Globo que desponta no país e se eleva com mais essa reportagem que esclarece de maneira concisa o que vai acontecer se os interesses financeiros não forem suplantados e continuarem impunes, elevando suas decisões acima das leis que dizem respeito ao país, ao Cone Sul e ao planeta.

Ativistas do Greenpeace protestaram na madeireira Pampa Exportações Ltda, próximo a Belém (PA), contra a exploração ilegal e predatória de madeira na Amazônia (©Paulo Pereira/Greenpeace)

Cito um incrível exemplo, fácil de entender aos paulistas admiradores do litoral. Até meados do século XX, por volta dos anos 50, foi possível guardar a visão de um mar azul das praias de Santos, como José Menino, Embaré, Gonzaga entre outras; hoje o mar é marrom e as areias brancas são pretas. O advento do Emissário Submarino que se voltou primeiramente na direção da Praia Grande, local menos valorizado até então, jogava o esgoto das casas e dos prédios em profusa construção, no mar. Praia Grande e Cidade Ocian foram as primeiras praias a perderem o viço e a cor azul-esverdeada das suas águas devido à interferência dos interesses imobiliários e a permissividade administrativa unida com a falta de planejamento das autoridades constituídas. A ação deixou o mar como o conhecemos hoje, em tom café. Quem viu o mar azul de Santos, o tem na memória; quem não viu, só em fotos. Infelizmente sua maioria está em preto e branco.

Esta referência estende-se ao Rio Tietê, Guarujá e a outras obras onde imperou a falta de consciência ambiental. Mas o motivo para chamarmos de incrível, o exemplo da poluição do mar na Baixada Santista, que segue pelo país, é porque ao mesmo tempo em que as empresas incentivavam a compra dos novos apartamentos, à venda nos prédios recém-construídos na orla com vista para o oceano – hoje vários deles em processo de avaliação pela Prefeitura, pois estão inclinando – e as prefeituras em suas diversas gestões apregoavam a beleza do balneário e as obras de urbanização – cujo motivo principal era atrair para os banhos de mar, a praia e os belos jardins de Santos –, além de chamar a atenção para a infraestrutura que estava sendo montada, inclusive a imobiliária, decidiram implantar um sistema que depositaria toda a sujeira no mar, bem em frente aos empreendimentos, à praia e aos jardins, através dos canais e do famigerado Emissário Submarino.

O resultado de tão pouca previdência foi que o esgoto começou a aparecer, ficando a céu aberto em alguns pontos e disfarçado em outros, através da extensa orla marítima e das ruas que nela desembocam, principalmente em Santos. Nestas, o odor fétido do esgoto e a visão proporcionada chegaram a ser insuportáveis. A conclusão da engenhosidade do absurdo foi a degradação da qualidade da água do mar e a desvalorização dos imóveis, sendo que muitos proprietários venderam e foram para o Guarujá. E esta seria mais uma longa história, fincada nas páginas da improbidade administrativa com que o país ainda se depara e da falta de cumprimento das leis em favor de políticas duvidosas e apaziguantes.

Vista aérea da floresta amazônica, perto de Manaus, capital do Amazonas. Foto: Neil Palmer (CIAT) / Wikipedia

Na Amazônia está ocorrendo algo parecido em proporções milhões de vezes agigantadas, cujas consequências serão catastróficas e o exemplo citado acima serve de fato, mas perante a qual não passa de uma ilustração.

A falta de gestão competente e a atuação lenta contra a exploração distante da sustentabilidade no Amazonas, ilustro com as palavras do pesquisador do Inpa, Antônio Nobre, em entrevista à reportagem do Fantástico: “Se você tivesse uma chaleira gigante ligada na tomada, você precisaria de eletricidade da Usina de Itaipu, que é a maior do mundo em potência, funcionando por 145 anos para evaporar um dia de água na Amazônia. Quantas Itaipus precisaria para fazer o mesmo trabalho que as árvores estão fazendo silenciosamente lá? 50 mil usinas Itaipu”, explicou.

Os engajados no trabalho contra a deterioração da Amazônia pedem justiça e providências imediatas e enérgicas às autoridades do Brasil. Deixar destruir ou continuar tratando o assunto como gripe que se cura sozinha ou pauta e obra de ONGs que nada tem de melhor a fazer, é medonho. Fechar os olhos para a ação funesta sobre o Amazonas é de uma imbecilidade sem tamanho, quando se ignora a perda da riqueza implícita, da sabedoria dos indígenas que aos poucos desvanece; um território de cuja biodiversidade quase nada se sabe, onde novas espécies são descobertas a cada expedição, que poderá trazer divisas ainda desconhecidas ao país, que dará suporte às novas gerações, beleza natural e enleva a identidade nacional.

Ter a verdadeira consciência de que a má gestão da região amazônica trará até mesmo a desertificação em mais uma parte do país em prazo indeterminado e já afeta o clima do planeta, proporcionando lucros a apenas meia dúzia de interessados e apaziguados é intolerante. Nem mesmo o gigantismo do Amazonas é suficiente para dimensionar tanto disparate.

Vista aérea da floresta amazônica, perto de Manaus, capital do Amazonas. Foto: Neil Palmer (CIAT) / Wikipedia

A fotografia abaixo, tirada de satélite mostra desmatamento, com corte e queima, da floresta amazônica ao longo do Rio Xingu. A foto foi tirada a partir da Estação Espacial Internacional, uma plataforma a partir da qual os astronautas podem capturar imagens da Terra a partir de uma variedade de ângulos de visão. A perspectiva acima mostra tanto a posição horizontal ea extensão das linhas de incêndio próximos ao rio, ao mesmo tempo, proporcionando uma sensação de a estrutura vertical das plumas de fumaça. As áreas mais claras e coloridas dentro do canal do rio são barras de areia, que mostram que o rio está em seu estágio anual de baixa. Em escala, o canal do rio é de aproximadamente 63 km de comprimento, neste ponto de vista. Foto: ISS Expedition (NASA Earth Observatory). Tradução: Google

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Autor: alotatuape

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