Projeto Social Samurais da Leste: aulas de Jiu Jitsu, Judô e humanidade


Domingo, 15 de maio de 2016 às 08h35 – atualizado às 19h55


“É difícil falar de mim mesmo”, respondeu Cristiano quando perguntei sobre os detalhes do seu projeto social. Por isso o que lemos aqui foi o que conseguimos extrair do professor de Jiu Jitsu conhecido pelos amigos como Pelado, que se sente muito mais a vontade em meio aos seus alunos e colocando em prática os seus ensinamentos. No entanto, não lhe faltam palavras nem entusiasmo quando fala dos Samurais da Leste. Leia também matéria da ONU Brasil/UNESCO sobre este assunto.

Gerson Soares

tat samurais leste logoQuando chegamos para fazer esta reportagem na última quinta-feira (12) à sede do Projeto Social Samurais da Leste que fica na Rua Arnaldo Cintra, 173, no Tatuapé, onde se destaca principalmente o espaço totalmente ocupado pelo tatame, já imaginávamos que iríamos encontrar um lugar onde faltam recursos, pois para lá não converge patrocínio algum, tudo é feito na base do esforço pessoal. Isso não foi adivinhação, o motivo é porque na terça-feira (10), conversamos por mais de uma hora com o professor Cristiano Inocêncio da Silva, 32, o Pelado, a fim de extrair dele informações e conhecer melhor seu projeto social, uma obra em nome das artes marciais que ensina disciplina, respeito e fraternidade.

 

Projeto Social Samurais da Leste: início do treino. Foto: aloimage

Projeto Social Samurais da Leste: início do treino. Foto: aloimage

 

Segundo ele, depois de montar uma academia em sociedade, começou a dar aulas de Jiu Jitsu quando o professor principal saiu da equipe e ficou sozinho “com os pequenos”, até que as despesas o fizeram desistir, momentaneamente. Guerreiro, não se entregou assim tão fácil. “Me ofereci a uma igreja católica na comunidade do Esmaga Sapo (no bairro da Penha), para dar aulas a um grupo de crianças. Eu gostava muito, trabalhava de madrugada e a noite dava as aulas antes de ir trabalhar”, conta Cristiano.

A favela do Esmaga Sapo pegou fogo em 2012, o incêndio foi amplamente divulgado no noticiário e é exatamente por volta dessa época que as aulas do Pelado começaram. “Eu as levava para campeonatos e elas se destacavam. Era muito difícil, porque nem todas podiam pagar as taxas de inscrição. Juntava daqui, pedia dali, pagava do próprio bolso e lá íamos nós”, lembra. O tempo passou e chegamos a 2016. “No total, em quatro anos de projeto, temos 190 medalhas, conquistadas pelos alunos de 5 a 40 anos”, explica o professor.

 

O professor Cristiano inspeciona os alunos durante os abdominais. Foto: aloimage

O professor Cristiano inspeciona os alunos durante os abdominais. Foto: aloimage

 

A UNESCO (sigla da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), entidade fundada logo após o fim da Segunda Guerra Mundial com o objetivo de contribuir para a paz e segurança no mundo, através da educação, da ciência, da cultura e das comunicações, que tem a sua sede em Paris-França e atua em 112 países, também incentiva ações como a de Cristiano (leia aqui uma reportagem da ONU Brasil sobre o assunto).

Estivemos com os alunos do Tatuapé e foi possível constatar que o treino não é fácil. Quem conhece e pratica esportes e artes marciais, sabe que o esforço pessoal é muito importante, acreditar em si mesmo durante os treinos e ao mesmo tempo respeitar o companheiro ou nos campeonatos aquele que se torna um adversário, leva ao autoconhecimento, aperfeiçoamento das técnicas aprendidas e a uma amplitude da mente em várias direções. Certamente, como ocorre em outras modalidades esportivas, o Jiu Jitsu e o Judô ensinados nesse pequeno e apertado espaço do bairro, vai engrandecer essas crianças, projetando-lhes bons pensamentos para o futuro.

 

Início da luta entre as duplas. Foto: aloimage

Início da luta entre as duplas. Foto: aloimage

 

Logo na chegada nos deparamos com uma situação interessante, fomos apresentados ao aluno mais antigo, o Vitor Hugo. Sentados ao nosso lado estavam Evandro Silva de Lima, 32, e seu filho Cauê de 5 anos, moradores da comunidade do Pau Queimado – que fica próxima à ponte Aricanduva e a Rua Hely Lopes Meirelles – e dentro de poucos minutos iriam começar a participar do treino pela primeira vez. “Um projeto social como este tira a pessoa da rua e das más influências, fica mais educada, menos agressiva”, disse o pai do pequeno. “O Cauê ainda está na creche e sai às 16h30, vai completar cinco anos em julho”. Evandro é frentista, trabalha em um posto de gasolina e aos 15 anos treinou capoeira.

A hierarquia das faixas no Jiu Jitsu estão assim distribuídas: branca, amarela*, laranja*, verde*, azul, roxa, marrom, preta, vermelha e preta, vermelha. Cabe aos professores graduar seus alunos durante o período de aprendizado com até quatro graus por faixa, a ascensão também ocorre de acordo com seu julgamento que avalia uma série de fatores quanto ao desempenho e técnicas. Conversamos com um dos primeiros alunos do Pelado, Vitor Hugo Maggi, 15, treinando desde os 11 anos, que está na faixa azul e estuda no período da tarde. “Saio da escola às 18h30 e venho para o treino das 20h às 22h30. Aqui eu aprendo sobre respeito e disciplina. Gosto de ficar em casa, depois que comecei a treinar nem fico mais na rua”, disse orgulhoso o atleta.

 

Conversa com os alunos e explicações sobre a hierarquia de faixas e graus no Jiu Jitsu. Nesse horário, os pequenos e alguns outros já tinham ido embora, devido o horário das aulas e trabalho. Foto: aloimage

Conversa com os alunos e explicações sobre a hierarquia de faixas e graus no Jiu Jitsu. Nesse horário, os pequenos e alguns outros já tinham ido embora, devido o horário das aulas e trabalho. Foto: aloimage

 

Treino "puxado"

No horário, o treino tem início sem moleza para ninguém. Crianças, adolescentes, adultos, meninas e meninos, começam a correr no tatame para o tradicional aquecimento do Jiu Jitsu. Cristiano é duro e exigente, ninguém é poupado. “Se errar faz de novo”, brada num canto do tatame. Depois de 15 minutos, o jovem Evandro estava suando bastante, em compensação já tinha feito amizade com Maurício Rodrigues, 41, faixa azul terceiro grau. “No fim do ano vai fazer quatro anos que estou treinando”, calcula Maurício. “Eu era sedentário, tinha problema de coluna e agora agradeço ao Pelado pela minha condição melhor”, completa. O iniciante Evandro começou mesmo sem ter kimono (gi em japonês), assim como seu filho Cauê. Já na metade da aula, durante as lutas propriamente ditas, o rapaz recebeu o gi emprestado para poder lutar melhor.

Os 22 alunos presentes – no total são mais de 30 – se revezam em três duplas de cada vez para poder lutar no exíguo espaço, enquanto os outros observam encostados à parede. Depois de muita adrenalina, paradas para um gole d’água, às vezes numa garrafa dividida entre os amigos, o treino estava quase terminando, quando chegou Isabel Cristina de Souza Marcolino, para buscar o filho Richard, 12 anos, treinando no Samurais da Leste há três meses. Suas palavras falam da importância desse trabalho. “O Richard achou que estava treinando muito, tinha muito aquecimento e pensava em parar. Eu disse a ele: você vai desistir no primeiro obstáculo, sua vida vai ser cheia de obstáculos, tem certeza que vai querer desistir?”. Essa foi a resposta da mãe à nossa pergunta sobre como o treinamento estava influenciado na vida do filho.

 

Pelado e seus alunos no final do treino de quinta-feira (12/05). Foto: aloimage

Pelado e seus alunos no final do treino de quinta-feira (12/05). Foto: aloimage

 

“Como convivi desde criança nas comunidades do Pau Queimado e Esmaga Sapo, sei o quanto eles são carentes de tudo, inclusive de esportes, e senti o potencial dessas crianças, mas este esporte é muito caro (Jiu Jitsu), então resolvi também prestar os meus conhecimentos em escolas municipais e estaduais, hoje já tenho 13 alunos na Escola Benedita Ribas e quero conseguir muitos mais. Por isso, tenho um intuito maior – sempre foi o meu sonho, mas me faltou o financeiro – que é conseguir um patrocínio para seguir em frente com este projeto, poder ter mais aulas, no mínimo 2 por dia, poder tirar das ruas uma quantidade maior de crianças e colocá-las em uma excelente atividade e participar de mais campeonatos”, resume o professor Cristiano.

Sob a bandeira da Xtreme Gold Team, onde o faixa Marrom pratica Jiu Jitsu, o Samurais da Leste é um exemplo de que com garra e humanidade é possível fazer muito para melhorar o futuro das pessoas. Acreditamos que não faltarão incentivos ao Pelado para continuar o seu projeto social, quem quiser ajudar é só entrar em contato e assistir uma aula no Tatuapé (Rua Arnaldo Cintra, 173 - Tel.: (11) 94060-11026 WhatsApp, o espaço é pequeno, mas o coração não tem tamanho.

*Menores de 16 anos completos, de acordo com a Federação Paulista de Jiu Jiitsu.

 

O professor Cristiano, no centro da imagem (ajoelhado), com os companheiros de treino da Xtreme Gold Team, no Tatuapé. Foto: aloimage

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