Retratos da Saúde no Brasil

Quarta-feira, 11 de junho de 2014 às 20h40

Gerson Soares

Enquanto a Fifa deixa de pagar os impostos que caem duramente nos bolsos dos brasileiros, doentes definham nos hospitais sem recursos. Falta tudo, inclusive vergonha. A mesma vergonha que andou sobrando aos organizadores da Copa. Mas distante dos olhos, as imagens que veremos não agridem a consciência de quem vive num Brasil inexistente, onde a ilusão encobre a indiferença com a Justiça.

As imagens e as reportagens que veremos é uma denúncia contra a mais desumana condição a que são submetidos os doentes e necessitados no Brasil. O mesmo país que pretende ganhar um campeonato de futebol das equipes estrangeiras, fazendo firulas com a bola, cujos protagonistas irão receber polpudos salários e prêmios por isso, além das glórias, louros e mais uma enxurrada de convites para posar nas fotografias e campanhas publicitárias. Estão certos, cada um na sua. Aqui é assim.

 

 

Situação de hospitais e postos de saúde da família no Brasil em 2013. Foto: Divulgação/CFM

Situação de hospitais e postos de saúde da família no Brasil em 2013. Foto: Divulgação/CFM

 

Desde que o Brasil ganhou o incauto direito de sediar a Copa do Mundo da Fifa em 2014, Alô Tatuapé posicionou-se contra e por diversas vezes lançamos a nossa opinião, numa dessas oportunidades intitulada “Jogo de Espelhos”, onde mostramos o disparate de um país imenso como este, rico e economicamente maduro, permitir que seus cidadãos ainda vivam comendo lixo. Sim, lixo. Isso mesmo, crianças, velhos e adultos esperavam caminhões no lixão para pegar o que melhor lhes servisse, a fim de sobreviverem.

A glória que o futebol brasileiro construiu lhe valeu o título de país do futebol. Mas é também o país que cobra os impostos mais caros do mundo, por um serviço sem qualificação. Em todas as áreas encontramos distorções entre algo espetacular e degradante como veremos a seguir. A burocracia dá margem à contínua corrupção e aos desmandos, às injustiças.

Situação de hospitais e postos de saúde da família no Brasil em 2013. Foto: Divulgação/CFM

Situação de hospitais e postos de saúde da família no Brasil em 2013. Foto: Divulgação/CFM

Envergonha-nos esta notícia, mas é necessário expor essa chaga. Uma delas, há outras. A saúde no Brasil é uma piada por falta de políticas sérias e isentas de interesses particulares escusos. Para que a Fifa deixasse de pagar uma fortuna em impostos, o governo do PT e sua base no Congresso criou leis e modificou outras com enorme rapidez e eficiência para isentá-la daquilo que todos os brasileiros pagam. Mas não conseguem aprovar um conjunto de leis para a Saúde.

Uma prova disso é o estado em que se encontra, denunciado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Essa categoria, a dos médicos, nem por isso se sente privilegiada o bastante para fazer greve. Se o fizesse, como tem sido visto por um sindicalismo oportunista e manobreiro, o Brasil morreria mais um pouco. Mais do que já morre em cada hospital, mais do que já falece de suas faculdades mentais por tais absurdos permitir.

Ao contrário de fazer greve, o CFM e os Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) denunciam a situação real de pobreza, ao contrário da ostentação que pratica há sete longos anos de preparação para a Copa que passará a ser vivida à partir de amanhã. Um mês de festa e expectativa pela vitória, pela chegada à final, como se essa fosse a única coisa que importa e nada mais houvesse para ser feito.

Em nosso entendimento, não há o que festejar enquanto muitos dos compatriotas não têm força na voz ou no coração para cantar as palavras do Hino, por lhe negarem o mínimo de dignidade que neste caso é ser atendido numa cama de hospital adequada. “Dos filhos deste solo és mãe gentil”, não todos os filhos, só os que detêm privilégios e deles não se afastam, às custas da penúria dos outros. Ser brasileiro não é só torcer durante 90 minutos, isso é fácil. Difícil é escolher quem vive ou morre, quem vai para a cirurgia, quem fica aleijado, num hospital da dita sétima economia do mundo. Os médicos ainda precisarão fazer isso, enquanto as cornetas dos torcedores estiverem tocando nos estádios construídos a peso de ouro.

 

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Autor: alotatuape

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