Tatuapé e as águas que escorrem silenciosamente

Águas: Rua Emílio Mallet com Francisco Marengo. Foto: aloimage

Águas: seguindo o veio na Rua Francisco Marengo, próximo à Rua Euclides Pacheco. Foto: aloimage

Águas: seguindo até a Rua Azevedo Soares. Foto: aloimage

Águas: depois de seguirmos o veio d'água, chegamos ao Hospital São Luiz, na Rua Antonio Camardo, esquina com a Francisco Marengo, onde na saída dos encanamentos havia uma coloração esbranquiçada. Foto: aloimage

Um encontro das águas do chamado Ciclo Hídrico ocorre aqui e prossegue até o Rio Tietê, segundo informações da Sabesp: excessos despejados na sarjeta pelo Hospital São Luiz e pelo edifício que fica na esquina das ruas Emílio Mallet e Francisco Marengo. Foto: aloimage

Águas: Rua Vilela próximo à esquina da Rua Serra de Bragança. Foto: aloimage

Águas: Rua Antônio Fernandes de Abreu próximo à Praça José Luiz.Foto: aloimage


Terça-feira, 7 de julho de 2015, às 17h31


A Terra é um só corpo, onde a Natureza interage com seus elementos. Se reduzirmos cada continente, às peculiaridades de cada país, depois a cada uma das suas cidades, pequenos vilarejos e bairros, chegaremos às nossas próprias casas e aos nossos próprios costumes. Depois, se voltarmos o olhar para os céus e imaginarmos que é o mesmo a cobrir todos os oceanos e as profundezas destes a atingirem o cerne, o centro planetário em sua menor partícula, concluiremos que fazemos parte de um só lugar e aquilo que a um macular terá reflexos sobre todos.

Gerson Soares

Reflexões à parte, o mais importante é percebermos que cada cidadão tem pensado melhor a Natureza, sobre vários aspectos, tendo o objetivo de resolver como sua vida se integra a ela e como vai deixar o planeta para as próximas gerações. Refletir sobre a água e o uso desse bem, está na pauta das conferências nos lugares mais distantes, entre os líderes das mais destacadas instituições e essas decisões afetarão a vida de todos e aqui mesmo no Tatuapé ela será alterada, caso não seja possível entender a tempo, todas as consequências da exploração do solo e suas vertentes que podem afetar a falta ou a impossibilidade de uso da água no futuro.

Desde 1993, quando o Alô Tatuapé iniciava sua trajetória, tomamos conhecimento das águas que escorriam pelos meios-fios das ruas, o número era bem menor e não chamavam a atenção como agora, quando a água se torna alvo de debates e estudos. Devido à própria geografia do Tatuapé, histórias antigas que remontam ao início do século XX, sobre enchentes e os lamaçais que ocorriam em disputadas vias da atualidade – como as ruas Itapura ou Tuiuti – não tinham tanta importância. As águas pluviais abundavam, havia muitos córregos e riachos e graças a isso, assim como ao trabalho dos chacareiros e imigrantes, o bairro se tornou esteio hortifruti da grande cidade. Entre uma época e outra a realidade mudou, assim como o clima. Há 20 anos, o Tatuapé ainda era considerado um bairro bucólico, de ares interioranos.

As águas dos lençóis freáticos, que se alimentam mutuamente e dão vida ao solo, unindo-se aos aquíferos – como o sensível Guarani – estão sendo deslocadas de seus leitos devido às explorações urbanas, como redes de esgotos, canalizações de rios e córregos e a construção civil. Nesse sentido, qualquer morador do Tatuapé sabe que a questão resume-se ao número imenso de edifícios que se ergue nesta região, a fim de atender uma demanda crescente não só por moradias, mas também pelos atrativos do bairro.

As opiniões dividem-se sobre reportagens como esta, conforme os interesses de cada um. Mas o fato é que nem o bairro suporta tantos empreendimentos imobiliários sem ônus, ou tampouco a possibilidade da cavernização e o uso do solo deixará de ser um assunto para debates; muito menos as águas expelidas nas ruas, vindas diretamente dos lençóis freáticos, voltarão ao seu reduto natural.

As águas que escorrem silenciosamente são misteriosas até que alguém se disponha a estudá-las e a seguir seu limo, formado pelo tempo em que se esvai o líquido mais comentado dos últimos tempos. Esses veios se espalham pelo bairro e hoje (6/7) decidimos seguir mais um deles, desde as imediações da Rua Cantagalo – de onde prossegue no sentido da Radial Leste – até encontrar a fonte, vinda do alto da Rua Francisco Marengo. Ao encontrá-la deparamos com uma das instituições mais respeitadas de São Paulo, que há pouco tempo se faz presente no Tatuapé, o Hospital São Luiz, é de lá que a água escorre e só vai parar quando chegar ao poluído Rio Tietê, onde de nada servirá.

Encontro das águas

Na esquina da Rua Emílio Mallet com a mesma Francisco Marengo, outro veio d’água se encontra com o primeiro, brotando de um edifício construído nessa confluência. Pela força e pelo tempo em que ocorre esse encontro, já produziram o rompimento do concreto, recentemente implantado, numa das poucas soluções razoáveis para as inúmeras valetas do Tatuapé (veja matéria: Tatuapé e as valetas).

As águas perdidas podem ser vistas em muitos lugares, como na Rua Antônio Fernandes de Abreu esquina com a Praça José Luiz, no final da Rua Emílio Mallet ou em vários outros pontos. Por esse motivo entramos em contato com a Sabesp, para saber se isso é normal, principalmente em tempo de manifestações, contenções e aumentos nas tarifas de água e energia elétrica. Em resposta ao nosso questionamento, a assessoria da empresa informou que essas águas não servem para uso doméstico, mas podem ser utilizadas de outras formas, como lavagem e limpeza.

No dia 22 de abril deste ano, foi sancionada a Lei Municipal nº 16.174, e a partir dessa data a prefeitura teria 90 dias para regulamentá-la – esse prazo vencerá no dia 22 deste mês de julho. Essa lei, conhecida como PROSUB (Programa de Reaproveitamento de Águas de Drenagem Subterrânea), obriga que as novas construções apresentem um memorial sobre como as águas dos lençóis freáticos serão reaproveitadas e também faz exigências para que se evite atingir essas camadas aquíferas. As construções já existentes, com áreas acima de 500 metros quadrados, deveriam estar adaptadas a outra Lei Municipal de nº 13.276 de 2002 (lei das piscininhas), que em resumo também obriga a coleta e distribuição das águas.

Esta reportagem foi iniciada nesta segunda-feira (6) e teve continuidade durante esta terça-feira. Nesta manhã, foi possível observar mais um regato das águas. Desta vez lá estava na Rua Vilela, quase esquina com a Serra de Bragança. A água escorre há tanto tempo, que já formou um limo acentuado no meio-fio. Apesar de tentarmos conversar com os responsáveis pelos domicílios, onde funcionam comércios, isso não foi possível, por volta das 8h. Uma senhora que estava na recepção de uma dessas empresas, disse não ter conhecimento do fato de a água brotar de um cano em frente àquele domicílio, dizendo que deveria estar vindo do vizinho e desconversou ao ouvir o soar do telefone. Mais à frente, na portaria de um edifício, fomos informados sobre o prédio possuir um reservatório, que quando atinge determinado limite, uma bomba expele a água para a rua através de encanamentos.

Respostas

No decorrer desta matéria constatamos esses canos, que são vistos nas imagens. O que faz crer o cumprimento da lei das piscininhas, mas essa lei não explica por quanto tempo a retirada de água do solo vai ser feita e se isso irá prejudicar os lençóis freáticos. Levamos essa questão à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, subordinada à Prefeitura da Cidade de São Paulo. Divulgaremos as respostas sobre a existência ou não desses estudos, assim que recebermos um parecer do órgão.

Em contato com o DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica), do Governo do Estado de São Paulo, obtivemos a confirmação de que essas águas são atingidas pelas perfurações da construção civil e o excesso pode ser lançado diretamente nas galerias pluviais ou no caso das construções mais antigas na sarjeta. Com isso, a água cumpriria o que denominam Ciclo Hídrico. Caso o condomínio ou a edificação desejar utilizar essa fonte d’água precisa pedir autorização para receber uma outorga do DAEE. A questão que levantamos junto ao departamento é se existe um estudo sobre o quanto esse ciclo pode estar prejudicando o solo e até quando não representará problema para a cidade ou no caso de bairros como o Tatuapé que apresentam expansão imobiliária acentuada. A resposta também será divulgada oportunamente.

Em contato com a assessoria do Hospital São Luiz, desde o final da tarde desta segunda-feira, até o horário desta publicação o hospital ainda não havia se manifestado sobre o assunto.

Fatos e pesquisas

Em reportagem da Folha de São Paulo, datada de 23 de novembro de 2014, o Tribunal de Justiça de São Paulo, na Rua Conde Sarzeda, Liberdade, afirma que fez várias tentativas para utilizar os milhares de litros da água expelida de meia em meia hora na sarjeta, “mas o forte cheiro de esgoto inviabiliza o uso”.

O uso do solo foi tema de uma entrevista com o diretor do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas – CEPAS da Universidade de São Paulo – e professor do Instituto de Geociências da USP, Ricardo Cesar Aoki Hirata. Segundo ele, as águas subterrâneas, ou aquíferos urbanos no Brasil, estão contaminados por nitrato – uma substância proveniente do vazamento da rede de esgoto e fossas sépticas. Leia a matéria completa.

O silêncio das águas que escorrem pelas sarjetas, verdadeiros regatos que são, só será ouvido quando todos puderem entender a importância de desperdícios como estes, mostrados nestas poucas imagens. Que mesmo leis municipais, como a 13.276, podem equivocar-se ao afirmar que o excesso possa ser dispensado, levando-o às galerias pluviais, em que pelo menos parte do fluxo será destinado ao Rio Tietê, onde a vida quase inexiste em grande extensão dele, devido à falta de planejamento urbano. Numa região Sudeste castigada pela estiagem, onde a paisagem do Cantareira, o mais importante reservatório de São Paulo, transformou-se em retrato da seca nordestina até poucos meses atrás, água é assunto sério, precisamos ouvir sua silenciosa voz.

Nove quilômetros de adutoras fazem ligação até o rio Guaió. Foto: A2img / Daniel Guimarães

Nove quilômetros de adutoras fazem ligação até o rio Guaió. Foto: A2img / Daniel Guimarães

Leia mais sobre
ÁGUA

 

Valeta na esquina das ruas Euclides Pacheco e Francisco Marengo: até mesmo a traseira dos carros chegam a bater no chão, devido o desnível do asfalto. Foto: aloimage

Valeta na esquina das ruas Euclides Pacheco e Francisco Marengo: até mesmo a traseira dos carros chegam a bater no chão, devido o desnível do asfalto. Foto: aloimage

Leia mais sobre
BAIRRO

 

Leia também:

Área de Proteção Ambiental Sistema Cantareira. Foto: Portal do Governo / Divulgação

Área de Proteção Ambiental Sistema Cantareira. Foto: Portal do Governo / Divulgação

Seca nordestina em São Paulo

A represa Jaguari, que integra o Sistema Cantareira. Foto: Erika K. Nakamura/Divulgação

A represa Jaguari, que integra o Sistema Cantareira. Foto: Erika K. Nakamura/Divulgação

Os 10 erros da Sabesp que provocaram a falta de água em São Paulo

 

Leia as últimas publicações

Recent Videos

Acompanhe a votação da denúncia contra o presidente Michel Temer, ao vivo
Telescópio Gigante Magalhães, vídeo
Catálogo on-line reunirá informações de 2,3 mil espécies de peixes de água doce
Faça um passeio pelo “solo alienígena” do exoplaneta TRAPPIST-1d
Video: Venha com a gente para as profundezas dos Corais da Amazônia
Desmatamento dispara na Amazônia, vídeo
Benefícios da caminhada e da bicicleta superam malefícios da poluição do ar
Animação sobre a prevenção do câncer de mama
  • Acompanhe a votação da denúncia contra o presidente Michel Temer, ao vivo

  • Telescópio Gigante Magalhães, vídeo

  • Catálogo on-line reunirá informações de 2,3 mil espécies de peixes de água doce

  • Faça um passeio pelo “solo alienígena” do exoplaneta TRAPPIST-1d

  • Video: Venha com a gente para as profundezas dos Corais da Amazônia

  • Desmatamento dispara na Amazônia, vídeo

  • Benefícios da caminhada e da bicicleta superam malefícios da poluição do ar

  • Animação sobre a prevenção do câncer de mama

Categorias

alotatuape

Autor: alotatuape

Share This Post On

Enviar um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*