Temos tanto para comemorar… Ôôeaaaa!

Segunda-feira, 30 de junho de 2014 às 8h31 – atualizado às 11h23

 

Gerson Soares

Jazidas de minérios, ouro, montanhas de ferro, água, aquíferos, fauna, flora, uma beleza imensa, natureza magnífica, pedras preciosas, petróleo e a chegada às quartas de final da Copa do Mundo, que não é nossa, é da Fifa e seus critérios polêmicos, exigências rígidas e as belas propagandas, muito bem elaboradas, aí sim com a nossa cara, como a Fifa imagina, apropriadas para ilustrar a nossa realidade. Um menino sonha, os prédios são desalinhados, coqueiros frondosos se misturam aos telhados das favelas que dividem os gritos de Brasil, Brasil, com os moradores dos prédios de apartamentos luxuosos, ao lado delas. Essas são as favelas de zinco e papelão, onde a lei se esquece de existir, mas que viram cenário de filmes famosos. E assim, o sonho acontece, o caos se transforma em alegria aos olhos do mundo. Um povo tão bom, alegre e feliz que pode doar carinho até quando está triste, porque esquece de si mesmo. Mas quando a alegria passa, se lembra. Até o próximo jogo, são momentos de verdade e ilusão. É difícil entender. Mas o Brasil ainda joga, está vivo na Copa.

 

comemorar o que

Olhos perguntam atentos. Comemorar o quê? Ilustração: aloart

 

 

Temos tanto a comemorar que o próprio mundo nos vê com esperança e nós também parece que a guardamos num cantinho do coração. Ela rebrilha como as estrelas da bandeira nacional quando a seleção entra em campo com o verde e amarelo canarinho. Verde das nossas matas, que os estrangeiros conhecem melhor e valorizam-nas muito além da nossa imaginação. Japoneses, ingleses, americanos, franceses, extraem o conhecimento da natureza exuberante e documentam para o mundo a sabedoria dos povos da floresta, dos índios brasileiros.

Os europeus desfrutam momentos extasiantes durante a Copa, seu dinheiro vale o dobro do nosso, são bem recebidos e aclamados, como num mundo de fantasia, onde chegam para receber toda a atenção e serem os protagonistas. Nada contra. Afinal, além de terem conquistado essa condição sob o signo da liberdade lutando contra a opressão em seus países, vieram para a nossa casa agora, a fim de festejar, são nossos convidados e manda a tradição brasileira recebê-los bem, como está sendo feito.

Eles podem comemorar, passaram por anos de guerra, crueldades e o medo, agora merecem viver em paz. Uma tranquilidade conquistada a duras penas que a história é capaz de mostrar. No Brasil não há canhões, nem tampouco campos de concentração, descriminação religiosa ou racional, a guerra aqui é surda e muda. Mas existe um sistema enraizado sob um manto escuro que não é revelado. Ele mantém a maior parte da população sob o jugo da injustiça social, sob o medo da autoridade e mais recentemente diante da sanha dos bandidos, da algoz burocracia.

A presidente Dilma Roussef comemorou junto com os torcedores. Ela também tem esse direito, é brasileira como todos os outros. Porém, a algo mais que lhe dá alegria, uma semana extra de relativa tranquilidade, enquanto o Congresso está em banho-maria, devido aos jogos. A derrota da Seleção, poderia abreviar-lhe várias questões difíceis, como as causadas pelas pataquadas na Petrobrás, investigadas por Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) e a mais nova contribuição à insensatez do seu governo, a Política Nacional de Participação Social, tomada como afronta pela oposição congressista.

Mesmo pequenas, as manifestações populares continuam bravamente. Esses sim, os verdadeiros guerreiros, aqueles que mesmo tidos como mortos buscam forças em algum lugar dentro de si, do seu coração, dos seus músculos e ousam opor-se à festa da fantasia verde e amarela, patrocinada por bilhões e montanhas de dinheiro. Mas o Brasil entrou em clima de jogo e enquanto isso durar comemoração não vai faltar. Muitos torcem para que a brincadeira acabe logo. Todos torcem pelo Brasil, poucos pelos brasileiros esquecidos. Comemoração é para quem pode e tem motivo. Quem não tem, sai às ruas e protesta, mesmo que seja para reclamar por quem não reclama, por quem se esquece que o verdadeiro Brasil, ainda não entrou em campo, está jogando nas divisões inferiores, está tentando chegar a alguma peneira para ter uma chance. É aquele menino da propaganda da Copa da Fifa… Ôôeaaaa!

alotatuape

Autor: alotatuape

Share This Post On

Enviar um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*