Vai um favorzinho aí?

Sexta-feira, 20 de junho de 2014 às 08h23 – atualizado às 10h53

Gerson Soares

“Dê um peixe a um homem e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar e você o alimentará por toda a vida.”

A frase acima é atribuída a Lao Zi, mais conhecido no Ocidente por Lao-Tsé, pensador chinês que teria vivido entre 570 e 490 a.C. ou 604 e 531 a.C. A inexatidão sobre o registro de seu nascimento e morte se dá pela antiguidade, mas as palavras a ele atribuídas explicam com sabedoria aquilo que não devemos fazer quando buscamos a evolução humana. O ensinamento, com o qual o mundo se familiarizou, parece ter sido convenientemente esquecido em detrimento do interesse em perpetuar a miséria no Brasil.

 

 

Pai ensina a pescar. Foto: Stock Photo

Pai ensina a pescar. Foto: Stock Photo

 

Segundo dados do próprio governo, já foram gastos 16 bilhões no Luz para Todos em 11 anos e estão sendo gastos outros tantos bilhões para manter o Bolsa-Família. Apesar disso ainda existem casos como estes que acabamos de ver. Logicamente que a vida é priorizada pelos seres humanos e se alguém lhe oferecer dinheiro para manter seus filhos numa escola você irá mandá-los para lá, principalmente se esse valor ajudar a sustentá-los, e além deles, mesmo que precariamente, a você e os demais membros da sua família.

O detalhe que está encoberto é o tipo de educação que está sendo oferecida e por quanto tempo essas pessoas ficarão dependentes desses valores. Alguém lhes contou sobre a frase de Lao Zi ou tentou aplicar-lhes o ensinamento? O sertanejo Francimar resolveu por conta própria o fornecimento de energia para sua TV, num sistema que apesar de improvisado, funciona. Mas ele mesmo fornece o caminho: “O dinheiro que gastei é muito para gente pobre como eu, mas não é nada para um governo. Colocar placas dessas aqui na comunidade sairia mais barato do que trazer postes até aqui em cima”. Simples para quem pode e tem conhecimento de tecnologias como a captação de energia solar.

Gastar 16 bilhões em 11 anos, manter essas famílias sem evolução, num caldeirão dissociado do Brasil que avança é desumano. Os recursos existem não se faz porque não se quer fazer. O Brasil sofre há décadas, muito antes de existirem os atuais partidos que polarizam a política nacional. Como cita a reportagem, ainda há brasileiros isolados do mundo pelas negligências de inúmeros governos e falta de organização. E se alguém disser para fornecermos sugestões temos uma caixa, aguardando o pedido. Existem mais alguns milhões delas espalhadas pelas consciências de quem passa fome, sofre com doenças sem assistência adequada, e por aí vai. É só pedir, que sugestões não faltarão.

O Congresso se preocupa com leis e mais leis, voltadas para cães, cosméticos, benefícios eleitoreiros de última hora, mais parece uma fábrica de legislar. No entanto, deixa de resolver problemas fundamentais, tapando um buraquinho aqui e um rombo ali, conforme as necessidades e os interesses se apresentam. O país, apesar de sua riqueza imensa, patina quando o comparamos com a evolução dos chamados emergentes e perde terreno para outros que ainda sonham em serem elevados a esse patamar. Os futuros governantes precisam entender de uma vez por todas que essa política, esse jeitinho brasileiro de fazer as coisas acontecerem em conta-gotas, através de um ou outro favorzinho, irá perpetuar reportagens como estas que vimos.

Os comentários a respeito da matéria estão no site da Tribuna do Ceará, onde o leitor poderá avaliá-los. Alguns exaltam as ações e outros demonstram a indignação com a política de fornecer o peixe ao invés de ensinar a pescar, ensinamento tão antigo, que parece ter sido convenientemente esquecido, pela centenária falta de responsabilidade com o povo brasileiro por parte da maioria dos governantes. E se alguém disser que já fez muito, diremos então que não fez direito e há muito por fazer.

Temos cada vez mais a convicção de que precisamos de alguns homens sérios, que resumam as necessidades, as prioridades, as ambições e o que se deseja para o futuro do país. Representantes da indústria, do comércio, dos estados, dos municípios, cientistas, médicos, ecologistas, as demais universalidades e a própria imprensa para numa única reunião definir-se um plano para ser discutido e ouvir a opinião pública. Ouvir e aplicar, muito diferente de ouvir e deturpar. O ensinamento recente do sertanejo Francimar, serve bem aos dias de hoje e coroa os milênios da sabedoria chinesa.

 

Leia a reportagem

alotatuape

Autor: alotatuape

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