Verticalização desenfreada e o fim da tradição do Tatuapé

Gerson Soares

Que não se iludam os futuros moradores que sonham em morar no Tatuapé ou no Jardim Anália Franco. Devido ao excesso de construções de prédios e de carros que se acumulam o bairro não é mais esse que as construtoras e empresas imobiliárias estão vendendo. O fim do Tatuapé bucólico foi determinado pelo próprio crescimento imobiliário e de demanda. Um sufocou o outro. Num determinado espaço demarcado por meia dúzia de casas, onde os terrenos são enormes, mas os moradores somariam 10 ou 12 carros, os empreendimentos multiplicam esses números até 30 vezes, no mesmo espaço. Uma verticalização desenfreada e irracional, já que nesse ritmo os próprios moradores não conseguiram mais sair de casa com seus automóveis e isso já está acontecendo. É notório que nos condomínios do bairro existe trânsito na garagem.

Mais um empreendimento de luxo, com valorização que deverá ultrapassar 10 mil reais o metro quadrado, na esquina da Rua Cantagalo com Praça Nicola Antonio Camardo. No lugar de um galpão e um posto de gasolina, uma torre com centenas de vagas para automóveis que engrossaram os congestionamentos do bairro. Em dois ou três anos poderão passar de 10.000 veículos facilmente. Foto: aloimage.

Mais um empreendimento de luxo, com valorização que deverá ultrapassar 10 mil reais o metro quadrado, na esquina da Rua Cantagalo com Praça Nicola Antonio Camardo. No lugar de um galpão e um posto de gasolina, uma torre com centenas de vagas para automóveis que engrossaram os congestionamentos do bairro. Em dois ou três anos poderão passar de 10.000 veículos facilmente. Foto: aloimage.

As vagas em prédios onde o padrão não permite mais do que uma vaga por apartamento, precisam ter um serviço de manobrista e isso é pago pelos condôminos, além do desconforto de pedir o carro cada vez que desejar sair de casa. Para algumas pessoas isso não é problema, mas denota que a quantidade de carros está desproporcional à capacidade para comportá-los.

O bairro não possui mais o ar interiorano de outrora, muito menos o bucolismo, declarados pelos corretores. Os sites das empresas anunciam tranquilidade e vendem problemas que só são descobertos quando o comprador passa a sair e voltar para casa. Não estamos falando da qualidade dos empreendimentos, não é esse o foco. A questão é até quando o bairro será vendido como um lugar com qualidade de vida e tranquilidade, que não existe mais devido aos próprios empreendimentos que se instalam a cada mês, a cada ano, ininterruptamente. Num frenesi construtivo de fazer inveja ao resto da cidade e talvez ao país.

Esta é a verdadeira imagem do Ceret: Mato crescido, tomando o parque, risco de proliferação da dengue. Foto: aloimage. Sábado, 7 de abril, 9h.

Esta é a verdadeira imagem do Ceret: Mato crescido, tomando o parque, risco de proliferação da dengue. Foto: aloimage. Sábado, 7 de abril, 9h.

A porção mais central do Tatuapé, além dos valorizados prédios de apartamentos, foi tomada em grande parte pelo comércio, bares e restaurantes que geram uma população flutuante totalmente alheia às tradições dos antigos que gradativamente vai se perdendo, inclusive a de cidade do interior que já acabou. Para dar uma ideia, num final de tarde qualquer, leva-se até 40 minutos para percorrer os oito quarteirões da Rua Emílio Mallet. Esse tempo pode ser estendido às Ruas Cantagalo até a Antonio de Barros, Azevedo Soares e Serra de Bragança, todas as adjacentes também estão congestionadas, quase o dia inteiro, pois os moradores que já conhecem o bairro tentam escapar do trânsito caótico através delas. Não há mais lugares para estacionar o volume de automóveis que circulam diariamente pelo bairro. Pode-se andar por toda a extensão da Rua Emílio Mallet sem encontrar uma vaga para estacionar.

O comércio não possui espaço para vagas de estacionamento, isso é raro, já que a maioria instala-se nas antigas residências de onde os proprietários se mudam para longe ou para os prédios. Os empreendimentos que estão sendo construídos inadvertidamente no bairro, sem o compromisso urbanístico em grande escala ou benefícios concretos faturam bilhões e não se tem notícia de alguma benfeitoria para a população, a não ser contar com a infraestrutura que se instala naturalmente para atender esses novos moradores e gerar mais progresso. Essa palavra serve para lembrar que nada há contra, mas é bom fazer algumas contas.

No Tatuapé não faltam escolas, universidades, shoppings, lazer, entretenimento e há um comércio pujante, até mesmo os parques mal cuidados são citados nos catálogos dos empreendimentos, com fotos que mostram, por exemplo, as alamedas do Ceret bem cuidadas, basta uma visita ou ler as últimas reportagens deste site sobre o parque para ver que isso não é verdade.

Sarjetão na Rua Itapura esquina com Rua Cantagalo: Exercício diário para os motoristas que precisam fazer peripécias para não baterem os carros. Foto: aloimage

Sarjetão na Rua Itapura esquina com Rua Cantagalo: Exercício diário para os motoristas que precisam fazer peripécias para não baterem os carros. Foto: aloimage

E se os vendedores usam os parques como garotos propaganda, por que não ajudar a conservá-los? Se as praças servem para o lazer dos novos moradores por que as construtoras não estão envolvidas nas questões de segurança e limpeza? O nivelamento dos sarjetões que atravancam o trânsito no bairro, também seria uma boa contribuição. É justo? Não? Com a palavra os interessados: Prefeitura, setor imobiliário e construção civil.

 

alotatuape

Autor: alotatuape

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