Voltar aos cavalos e carroças causaria menos problemas, mas é preciso evoluir


Sexta-feira, 26 de junho de 2015, às 13h05 - atualizado às 16h39


Se voltássemos ao uso de cavalos e carroças, ou se ainda nem tivéssemos acabado com eles, não teríamos tantos transtornos quanto à poluição do planeta, sem contar a quantidade dos adubos naturais. No entanto, é preciso evoluir, apesar de o Brasil se apresentar ainda como terra de expiação em minha modesta opinião, dados os fatos que observamos diariamente na sociedade brasileira como um todo e esse olhar não é exclusivamente meu. A decadência da governança, que deveria dar o exemplo, parece seguir um caminho contrário em todos os sentidos da evolução, deixando para depois detalhes importantes. Mesmo assim, temos áreas que se destacam e é por essa via que o país um dia poderá alcançar degraus mais elevados na convivência humana, onde também se encontra a honestidade.

Gerson Soares

No dia 17 de junho, às 20h30, vimos agentes de trânsito escondidos nas sombras da noite para multar motoristas na esquina das ruas Cantagalo e Antonio de Barros, próximo à Praça Nicola Camardo e Rua Henrique Dumont, no Tatuapé. Ficamos imaginando qual seria a intenção da autoridade de trânsito com esse tipo de obscuridade. Certamente não é o de educar, já que o motorista não percebe o agente que está escondido, inclusive fazendo um papel que o expõe ao ridículo.

 

Detran Aricanduva: Um dos locais designados para que os motoristas e candidatos podem obter diversos serviços, entre eles o pagamento das taxas no Banco do Brasil: 3 caixas para atender milhares de pessoas = filas enormes e espera de horas para pagar uma taxas. Foto: aloimage

Detran Aricanduva: Um dos locais designados para que os motoristas e candidatos possam obter diversos serviços, entre eles o pagamento das taxas no Banco do Brasil: três caixas para atender milhares de pessoas = filas enormes e espera de horas para pagar uma taxa. Foto: aloimage

 

Fica claro que permitir a um agente de trânsito que se esconda para multar tem uma segunda intenção mais baixa, vil, que seria a de faturar às custas dos incautos e imprudentes, dos indisciplinados, a fim de educá-los pela punição. Dados mostram que as multas em São Paulo só aumentam o que leva a deduzir que apenas punir não está resolvendo o problema da indisciplina. Outro sintoma que remete a tal atitude é o da revolta. Mas esse já seria esperado, ninguém quer ser multado afinal, porém comete erros passíveis de punição, como avançar naquele exato momento em que o semáforo passa do verde para o amarelo ou deste para o vermelho, por exemplo. Parar sobre a faixa de pedestre, mesmo que apenas alguns centímetros.

Temos o caso de uma multa na cidade de Ubatuba: velocidade do motorista 58 Km/h, quando o máximo é de 50 Km/h. A cidade de São Paulo, pretende baixar mais 10 Km/h nas marginais, onde se chega a 90 Km/h e 70 Km/h, conforme a via, há outros pontos em que a máxima é de 50 Km/h. Nas estradas o máximo permitido é 120 Km/h, com variações as mais diversas que podem chegar aos 40 Km/h. A indústria automobilística se esforça em vender carros que chegam a 150 ou 180 Km/h, fácil e confortavelmente, mesmo sem serem estas as máximas dos automóveis médios vendidos no país que podem atingir velocidades ainda mais altas. As cidades vivem congestionadas e quando se alcança uma média de 40 Km/h na Radial Leste (onde o máximo permitido é 60 Km/h), via que liga a zona Leste ao centro da cidade de São Paulo, já é possível comemorar.

Por outro lado, existe uma indústria que se alimenta das multas e mais recentemente dos pontos na carteira, abrangendo um sem número de empresas que orbitam nesse universo, como autoescolas, CFCs (Cursos de Formação de Condutores), centros médicos e oftalmológicos e órgãos expedidores de documentos, como o próprio Detran-SP. Ao invés de fiscalizar a expedição de novas CNHs (Carteira Nacional de Habilitação), o Detran multa os infratores, ou seja, entrega a permissão para dirigir mesmo ao inábeis – sem condições psicológicas, motoras ou visuais – e depois coloca todos os motoristas no mesmo balaio, reduzindo a velocidade em nome dos acidentes provocados pelos embriagados, imprudentes e inconsequentes.

As punições variam, as multas são polpudas e as dificuldades para ter em mãos a CNH são criadas. Porém, dribladas nos CFCs, nos despachantes e autoescolas, que burlam o sistema através de subterfúgios conhecidos pelas autoridades, mas que são permitidos ou pior ainda conhecidos e tolerados. Essa permissividade lhes garantirá no futuro novos candidatos a multas e a indústria se renova a cada dia com os milhares de candidatos a motoristas, com ou sem habilidades para tanto.

Melhor seria voltarmos aos bons e fiéis cavalos, às lentas carroças, que além de não poluírem o meio ambiente eliminariam toda essa faceta obscura que envolve os órgãos de trânsito e as leis nocivas criadas por eles, salvo aquelas que realmente sejam educativas, mas que tenham como fundo a honestidade.

No Tatuapé, há histórias reais de que os animais de carga reconduziam aos seus devidos endereços os condutores da Prefeitura que vinham ao bairro recolher dejetos das chácaras – além do lixo também parte das hortaliças inutilizadas. Depois do trabalho se embriagavam e cabia aos burros sozinhos assumirem as rédeas e reconduzirem os carroções aos currais e depósitos, enquanto os funcionários curtiam a bebedeira na boleia. Hoje, em dia o transporte é por viaturas e motos modernas e os condutores se escondem nas sombras da noite para trabalhar.

Pelo jeito pouca coisa mudou em 100 anos. O povo ainda assiste às mais estapafúrdias ações de quem deveria lhes dar o exemplo. Só resta fazer o que faziam os antigos moradores do bairro, rir. Às futuras gerações de motoristas cabe avaliar aquilo que não devem fazer e como agir para atingir seus objetivos, sendo honestos consigo mesmos. Aos atuais condutores é preciso entender que os velhos tempos se foram. Hoje, o trânsito é lento, os semáforos são computadorizados e dificilmente se cruza dois quarteirões na luz verde do próximo semáforo. Portanto, não adianta querer voar num veículo que só é capaz de rodar no asfalto.

A honestidade deve prevalecer, custe o que custar. Ver agentes fardados escondendo-se atrás dos muros, das árvores e das bancas de jornais, a fim de faturar para o sistema, é a prova de que à evolução ainda é preciso dar um tempo. Cada indivíduo deve conciliar-se com sua própria consciência, não esperando que os órgãos públicos lhe imponham punições para discipliná-lo e ainda faturem um bom dinheiro com isso.

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