Flávio Ataliba Barreto — Graduado em economia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com doutorado em economia pela EPGE/FGV. Foi pesquisador visitante na Wharton School, Universidade da Pensilvânvia/EUA e Pós-Doutor em Economia Universidade Harvard/EUA e Universidade Técnica de Lisboa/Portugal. Atualmente é professor titular da UFC, Pesquisador Associado do FGV IBRE e Coordenador do Centro de Estudos do Desenvolvimento do Nordeste, do FGV IBRE.
João Mário Santos de França — Graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará (UFC) com Doutorado em Economia na EPGE-FGV/RJ. Professor do Programa de Pós-Graduação em Economia – CAEN/UFC onde também coordena o Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP. Já exerceu os cargos de Diretor Geral (2019-2022) e Diretor de Estudos Sociais (2017-2018) no Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará – IPECE do Governo do Estado do Ceará. Pesquisador do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste, FGV IBRE.
Plano Brasil Soberano tenta mitigar o tarifaço com crédito e incentivos. Porém, sem metas claras, pode gerar dependência e ineficiência. Para ser eficaz, é preciso estratégia nacional de internacionalização, com foco nas MPMEs.
O Plano Brasil Soberano busca mitigar o impacto do tarifaço norte-americano com crédito, incentivos fiscais, compras públicas e diplomacia comercial. Apesar de buscar proteger a oferta e o emprego no curto prazo, carece de estratégias robustas para diversificar mercados e produtos, dificultando a substituição rápida das exportações aos EUA. Sem metas claras e mecanismos de saída, há risco de dependência e ineficiência, preservando empresas pouco produtivas. Para ser eficaz, deve incluir uma estratégia nacional de internacionalização, com apoio especialmente às MPMEs, foco setorial, metas de abertura de mercados e monitoramento independente, transformando a resposta emergencial em estratégia competitiva sustentável.
Introdução
O Plano Brasil Soberano, anunciado em agosto de 2025, configura-se como a principal resposta emergencial do governo federal ao tarifaço norte-americano, que elevou em até 50% as tarifas de importação sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, afetando desde bens manufaturados de alto valor agregado até commodities processadas. O choque tarifário, de caráter abrupto e abrangência significativa, impôs a necessidade de uma ação coordenada para preservar a competitividade externa, sustentar o nível de emprego e atenuar potenciais repercussões sobre o equilíbrio macroeconômico.
A arquitetura do plano está organizada em três eixos estruturantes: o fortalecimento do setor produtivo, com foco em crédito, incentivos fiscais, compras públicas, facilitação logística e uso de instrumentos de seguro à exportação e ampliação do sistema nacional de garantias; a proteção aos trabalhadores, por meio de mecanismos de preservação de postos de trabalho e de amortecimento de renda; e a diplomacia comercial, englobando negociações bilaterais e multilaterais.
De acordo com a narrativa oficial, trata-se não apenas de uma medida defensiva de curto prazo, mas de um movimento para “reconstruir e fortalecer o sistema nacional de financiamento e seguro à exportação”, reduzindo a vulnerabilidade estrutural a choques externos. Contudo, a experiência histórica e as restrições fiscais e institucionais do país impõem questionamentos sobre a viabilidade e a eficácia dessa agenda.
Neste artigo, analisamos de forma integrada o detalhamento das medidas em cada eixo, explicitando objetivos, instrumentos e público-alvo, e discutimos os riscos de execução, como sobreposição de incentivos, gargalos administrativos e possíveis alocações ineficientes de recursos. Também examinamos os potenciais efeitos colaterais sobre a estrutura produtiva e as finanças públicas, bem como as implicações macroeconômicas. Por fim, discutimos as condições necessárias para que o Plano Brasil Soberano atinja seus objetivos declarados, destacando a importância da coordenação interinstitucional e da calibragem dos instrumentos para evitar distorções de mercado, de modo a maximizar seu potencial de mitigação dos impactos do tarifaço sem incorrer em custos fiscais desproporcionais ou retornos estruturais limitados.
Considerações Finais
O plano lançado pelo governo responde a uma necessidade imediata: evitar que o tarifaço norte-americano provoque o colapso de empresas exportadoras e uma onda de demissões em setores fortemente dependentes dos EUA. Ao oferecer crédito subsidiado, diferimento de tributos, compras públicas emergenciais e apoio logístico, o pacote cumpre a função de preservar capacidade produtiva e renda no curto prazo. Trata-se de um escudo emergencial legítimo, desenhado para dar tempo a empresas e trabalhadores ajustarem-se ao novo cenário. Contudo, ao concentrar esforços quase exclusivamente no lado da oferta, deixa em aberto o desafio mais complexo: assegurar novos mercados para os produtos que perderam competitividade nos Estados Unidos.
A experiência recente mostra que a diversificação comercial é lenta e onerosa. Reorientar bens como calçados, móveis ou manufaturados de maior valor agregado exige adaptações técnicas, certificações, redes de distribuição e campanhas de promoção em mercados já disputados por fornecedores consolidados. Mesmo no agronegócio, em que o Brasil dispõe de vantagens comparativas, a substituição plena do mercado norte-americano é rara e geralmente implica reduzir preços para atrair novos compradores.
É nesse ponto que a diplomacia comercial e a negociação direta com Washington tornam-se centrais. O comércio internacional é, por natureza, regido pela lógica da troca e do diálogo permanente. Mais do que resistir, o Brasil precisa negociar ativamente para reduzir os efeitos das tarifas e conquistar exceções. A experiência do governo Trump mostrou que diversos países, inicialmente atingidos pelas sobretaxas, conseguiram flexibilizações após rodadas de negociação, poupando setores estratégicos ou obtendo cronogramas diferenciados. O Brasil não pode abrir mão desse caminho, sobretudo porque milhares de empregos estão em jogo.
Fonte: FGV
Destaque – Imagem: aloart / G. I.



