Solange Monteiro ­— Editora da Conjuntura Econômica da FGV IBRE.


Alto nível de inadimplência preocupa em momento de desaceleração econômica, alertam pesquisadores do FGV IBRE.


A tendência de desaceleração econômica prevista para o segundo semestre no Brasil tem acendido o alerta para um elemento: a saúde financeira das famílias. Mesmo com a taxa de desemprego atingindo o mínimo histórico, o crescimento da população ocupada se dá predominantemente em vagas formais – consideradas de melhor qualidade – e a renda disponível do brasileiro estar em rota de crescimento desde 2022, o nível de endividamento e inadimplência da população permanece alto. Dados da Serasa apontam que, em julho, 47,93% da população adulta do país estavam inadimplentes, ou seja, com um compromisso de pagamento não honrado no prazo estabelecido.

“Desde a pandemia, observamos uma mudança no padrão histórico. Antes, quando a renda aumentava, o endividamento caia. Depois de 2020, essa correlação negativa não aconteceu mais”, afirmou Rodolpho Tobler, economista do FGV IBRE, em encontro promovido pela Associação Brasileira de Embalagens (Abre). Além do efeito de pressões inflacionárias e juros altos, que corroem o poder de compra do consumidor, outro elemento por trás dessa transformação, afirmou Tobler, é o aumento da bancarização e do acesso ao crédito, ampliando o potencial de endividamento dos consumidores, nem sempre conscientes de como usá-lo adequadamente. O economista destacou ainda uma mudança no perfil da inadimplência: enquanto o “calote” de dívidas não financeiras (como contas de serviços públicos) caiu cerca de 10 pontos percentuais desde o início de 2021, as dívidas financeiras não pagas cresceram na mesma proporção, reforçando essa tendência de maior abertura para o endividamento. O descompasso entre o ritmo de evolução do acesso a crédito e do letramento financeiro da população, entretanto, é um risco alertado por pesquisadores e mercado, tratado na Conjuntura Econômica de novembro/24.

Inadimplência cresce nas dívidas financeiras (em %, com ajuste sazonal)

Fonte: Serasa

“Se sob uma conjuntura de melhora do emprego e da renda observamos a inadimplência em um nível tão alto, isso poderá significar um problema ainda maior quando os efeitos da desaceleração econômica começarem a ser sentidos nesses indicadores”, alertou Aloisio Campelo Junior, superintendente de Estatísticas Públicas do FGV IBRE. As estimativas do IBRE para o crescimento da massa salarial ampliada – somatória de salários e transferências de renda – é de 3,6% em 2025, contra 7,7% em 2024 e 5,4% em 2023.

Situação financeira das famílias em %, com ajuste sazonal

Fonte: Sondagem do Consumidor FGV IBRE

No evento, Tobler também destacou que esse desequilíbrio financeiro também é refletido nos resultados da Sondagem do Consumidor do FGV IBRE cujo indicador, apesar de registar oscilações, se mantém em um nível desfavorável (86,2 pontos em agosto, significativamente distante do patamar de neutralidade, de 100 pontos), sugerindo “um quadro de cautela e preocupação com o futuro tendo em vista, principalmente, os altos níveis de endividamento e inadimplência das famílias”, como destacou a economista Anna Carolina Gouveia na divulgação do Índice de Confiança do Consumidor. “Na sondagem, buscamos conhecer a situação financeira das famílias. Comparando os resultados com os de uma década atrás, observamos um aumento importante daqueles que declaram estar usando a poupança para quitar despesas e daqueles que estão se endividando”, ilustrou. “Enquanto em 2010-2014 as respostas dessas duas alternativas somavam em torno de 12% do total, agora são 23,5%”, comparou, reforçando a preocupação com o momento em que o mercado der sinais de desaceleração.


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


Leia outras matérias desta editoria

Petróleo salta com crise no Oriente Médio e impulsiona exportações do Brasil, aponta FGV

Alta ligada à guerra no Irã fortalece vendas externas, mas pressiona importações e reduz saldo comercial em março A escalada da crise no Oriente Médio, com impacto direto sobre o mercado global de petróleo, já começa a produzir reflexos no comércio...

Boom de imóveis na planta em SP expõe cobrança de INCC e leva a ações por reembolso

Com mais de 136 mil unidades lançadas em um ano, cresce a contestação judicial de cobranças indevidas em contratos corrigidos pelo INCC. O forte aquecimento do mercado imobiliário em São Paulo tem impulsionado não apenas os lançamentos de imóveis na...

IGP-10 dispara 2,94% em abril de 2026 e acende alerta para inflação no Brasil, diz FGV

Alta foi puxada por matérias-primas e impacto de combustíveis; índices ao produtor, consumidor e construção registram aceleração simultânea. O Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) registrou alta de 2,94% em abril de 2026, segundo dados divulgados pela...

Emprestar o nome pode virar dívida: 6 em cada 10 brasileiros já assumiram risco por terceiros, diz Serasa

Pesquisa mostra que 34% ficaram endividados após ajudar amigos ou familiares; país já soma mais de 82 milhões de inadimplentes. Emprestar o nome para ajudar alguém a conseguir crédito segue sendo uma prática comum no Brasil — mas com riscos elevados. De...

Eleições devem impactar consumo em 2026, e 40% dos brasileiros já planejam cortar gastos, diz pesquisa

Levantamento da Neogrid com o Opinion Box mostra que brasileiros devem reduzir gastos em 2026, com eleições influenciando decisões de consumo. Uma pesquisa realizada pela Neogrid, em parceria com o Opinion Box, revela uma mudança relevante nos hábitos de...

Páscoa 2026: Ipem-SP alerta para golpes no peso de ovos de chocolate e pescados; veja como não sair no prejuízo

Órgão orienta consumidores sobre irregularidades em embalagens, brindes e balanças; cuidados simples evitam riscos à saúde e ao bolso Com a aproximação da Páscoa, cresce a procura por pescados, ovos de chocolate e outros produtos típicos da data. Diante...

Conflito no Oriente Médio pode pressionar economia do Brasil, alerta Cofecon

Com juros reais acima de 10%, Brasil enfrenta pressão inflacionária diante de choque global de oferta; Estreito de Ormuz concentra preocupações sobre energia e comércio internacional O Conselho Federal de Economia (Cofecon) alertou, nesta segunda-feira...