Políticos brincam com a economia visando às eleições de outubro e provocam reações em cascata, impactando os negócios.

Por Redação | ASP News


Imagine que você é dono de uma pequena confecção ou de uma loja de bairro. Você planeja seu estoque, contrata um ajudante e tenta equilibrar as contas sob uma carga tributária que parece não dar trégua. De repente, as regras do jogo mudam. Depois, mudam de novo. Esse “vaivém” não é apenas um termo técnico; é o que tira o sono de milhares de empreendedores brasileiros que tentam sobreviver no dia a dia.

Na noite desta terça-feira (12/05), o Governo Federal oficializou o fim do imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50 — a famosa “taxa das blusinhas”. A medida, assinada pelo presidente Lula via Medida Provisória (MP), zera a alíquota de 20% que ele mesmo havia ajudado a criar em 2024.

Uma “facilidade” com preço amargo

Para quem compra, o alívio no carrinho parece uma vitória imediata. Mas, nos bastidores da economia real, o sentimento é de que o governo está “vendendo” uma facilidade para esconder as dificuldades profundas que ele mesmo sustenta. O professor de economia Ivan Rizzo, da FIA Business School, aponta que a falta de dados técnicos para essa reviravolta repentina levanta o alerta do populismo. Segundo ele, “o mesmo governo que criou a taxa agora a retira sem nenhum dado que justifique essa medida”. Com as eleições de 2026 batendo à porta, a canetada parece mirar muito mais a popularidade do que a saúde financeira das empresas nacionais.

O desabafo de quem produz no Brasil é uníssono. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, é enfático ao dizer que “permitir a entrada de importações de até 50 dólares sem tributação é o mesmo que financiar a indústria de países como a China, principal exportador de produtos de baixo valor para o Brasil, especialmente no setor têxtil. O prejuízo é direto a quem fabrica e comercializa em território brasileiro”. Para Alban, o objetivo da taxação nunca foi punir o consumidor, mas proteger a economia, e a mudança atual “vai na contramão do bom senso”.

O grito do comércio local

No varejo de São Paulo, o sentimento de injustiça é palpável. Aldo Nuñez Macri, presidente do Sindilojas-SP, manifesta profunda preocupação e afirma que “a taxação até então vigente contribuía para reduzir distorções competitivas históricas, desencadeando efeitos positivos na economia, como a retomada do crescimento em segmentos relevantes do varejo e o aumento da geração de empregos”. Para ele, o Sindilojas-SP seguirá atuando contra o que chama de “retrocesso que a publicação dessa MP representa e que tem impacto direto sobre a sustentabilidade das empresas nacionais”.

Essa visão é reforçada por Alfredo Cotait Neto, presidente da Associação Comercial de São paulo – ACSP e da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil – CACB, que não hesita em apontar o uso da máquina pública para fins eleitorais: “A menos de cinco meses do primeiro turno eleitoral, preferiu-se priorizar as eleições ao empreendedor brasileiro”. Segundo Cotait, a medida subsidia o concorrente estrangeiro com o dinheiro que o Estado deixa de arrecadar, tudo às custas do pequeno comerciante que recolhe seus tributos integralmente.

A Associação Brasileira da Indústria Têxtil – Abit completa o coro, afirmando que “é inadmissível que empresas brasileiras arquem com elevada carga tributária e exigências trabalhistas enquanto concorrentes estrangeiros passam a ter vantagens ainda maiores”.

Ironias e contradições no tabuleiro político

O cenário político em torno dessa MP beira o surrealismo. De um lado, a base governista defende que o imposto de 20% era regressivo e que o fim da taxa aumenta o poder de compra das classes C, D e E. Que coloca em dúvida suas reais intenções. Se o imposto é considerado regressivo, não deveria ter sido criado pelo então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, atualmente candidato ao governo de São Paulo, em 2024, que passou a ser chamado de “Taxad”.

Do outro, a oposição comemora a isenção, mas aponta o dedo para o erro da criação da taxa em 2024 e o oportunismo da revogação agora.

Em um movimento peculiar, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) parabenizou o presidente Lula pela medida, mas não sem uma dose de ironia, comentando que “tinha que ter eleição todo mês” para que o governo fizesse “as coisas certas”. O comentário ilustra bem o “vaivém”.

O mesmo governo e os mesmos parlamentares que implementaran o imposto sob as bênçãos da situação e da oposição, agora o retiram para tentar seduzir o eleitorado.

O que fica para o cidadão?

Enquanto as plataformas asiáticas celebram, o Brasil segue no caminho inverso do resto do mundo, que tenta proteger sua produção interna. Para o consumidor, a blusinha fica mais barata hoje; para o trabalhador do comércio, da pequena confecção e da indústria têxtil, a conta chega amanhã na forma de desemprego.

No fim das contas, a estratégia parece ser sempre a mesma: criar a dificuldade para poder oferecer a “facilidade” no momento em que o título de eleitor mais pesa.


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


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