A tensão na Cidade Universitária atingiu um novo patamar nesta quinta-feira (7). Após 22 dias de paralisação, estudantes da Universidade de São Paulo (USP) decidiram ocupar o prédio da Reitoria por tempo indeterminado.
A mobilização, que começou com um “trancaço” nos portões às 5h da manhã, culminou em uma assembleia massiva no fim da tarde, onde o grupo optou pela ocupação como resposta ao que chamam de “encerramento unilateral das negociações” pela administração central.
O impasse: reajuste de R$ 27 é considerado insuficiente
O cerne do conflito reside nas políticas de permanência estudantil. Os alunos rejeitaram a última proposta apresentada pela gestão do reitor Aluísio Segurado, que previa um reajuste de R$ 27 no auxílio integral do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE). Para aqueles que já residem na moradia estudantil, o aumento oferecido foi de apenas R$ 5.
O movimento classifica os valores como “migalhas”, especialmente diante do orçamento da universidade, que ultrapassa os R$ 9 bilhões. Segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE), a instituição possui caixa suficiente para garantir condições dignas sem comprometer as finanças.
Insalubridade e insegurança alimentar
Para além das cifras, a ocupação reflete um grito contra a precarização do cotidiano. Relatos de estudantes detalham condições críticas no Conjunto Residencial da USP (CRUSP), incluindo falta de água constante e mofo nos apartamentos.
A crise também chega ao prato: os manifestantes denunciam falhas graves nos bandejões, citando desde a oferta de alimentos estragados até episódios de refeições com larvas. “Não sairemos enquanto as pautas que envolvem o orçamento real não forem negociadas”, afirmou o DCE em nota oficial.
Cenário Político
A mobilização também ecoa críticas à gestão estadual. Os manifestantes vinculam a postura da reitoria às diretrizes do governo de Tarcísio de Freitas, questionando as prioridades de investimento na educação pública paulista. Até o momento, os estudantes afirmam que a ocupação só será desmobilizada quando a Reitoria aceitar o retorno das negociações presenciais com respostas concretas para a contratação de professores e melhorias estruturais.
O que é Permanência Estudantil e por que ela é o centro da greve?
Diferente do acesso à universidade — que é o ingresso via vestibular — a permanência estudantil é o conjunto de políticas que garante que o aluno, após ser aprovado, tenha condições reais de concluir o curso.
Muitos estudantes, especialmente os vindos de escolas públicas ou em situação de vulnerabilidade socioeconômica, enfrentam barreiras que vão além da sala de aula. Sem o apoio da instituição, a evasão torna-se inevitável.
Os pilares da permanência incluem:
• Moradia: Garantia de vaga em residências universitárias (como o CRUSP) ou auxílio-aluguel;
• Alimentação: Acesso a refeições subsidiadas nos restaurantes universitários (bandejões);
• Auxílio financeiro: Bolsas para custeio de transporte, livros e materiais didáticos;
• Saúde e apoio pedagógico: Assistência psicológica e suporte acadêmico para reduzir as desigualdades de formação.
Na USP, o movimento atual denuncia que os valores desses auxílios estão defasados em relação ao custo de vida em São Paulo, o que estaria transformando o sonho da graduação em uma jornada de precariedade.
Destaque – Invasão do prédio da Reitoria da USP. Foto: DCE / Guilherme Farpa




