Os responsáveis não esclarecem sobre as reclamações de que vigia atua na ilegalidade com placas que sugerem parceria com a polícia, enquanto crimes continuam ocorrendo.
A sensação de insegurança que assola a Chácara Santo Antônio e a Vila Gomes Cardim, na Zona Leste de São Paulo, subdistritos do Tatuapé, ganhou um novo capítulo nesta madrugada de sexta-feira, 1º de maio. Enquanto o feriado do Dia do Trabalhador começava, residentes relataram um verdadeiro “show de sirenes” promovido por um vigia particular, cuja atuação levanta suspeitas sobre a eficácia do serviço e a suposta legalidade de sua parceria com as autoridades locais.
“(…) É que ele passa sempre… À noite ele passa, e às vezes acontecem coisas quando ele não está,” desabafa uma moradora que, por medo, prefere não se identificar. Leia as entrevistas.
Ilegalidade durante o período noturno
A atuação do vigilante, cujo nome estampa diversas fachadas do bairro, fere diretamente o Artigo 42 da Lei de Contravenções Penais. O uso de sirenes para marcar presença é proibido, mas continua sendo a principal ferramenta de marketing desse serviço, que cobra dos moradores para “garantir a ordem”.
Mais grave que o barulho é a indução ao erro: as placas instaladas nas residências aludem a uma parceria com o 30º Distrito Policial (Tatuapé). Imagens obtidas por nossa reportagem confirmam o uso do nome que sugere uma chancela oficial que, legalmente, não existe.

Reunião do Conselho de Segurança do Tatuapé 30º DP, dia 20 de outubro de 2025: Nessa data, levamos ao conhecimento das autoridades os fatos que vêm ocorrendo sobre segurança e vigias noturnos. Mais de 6 meses depois, nenhuma resposta oficial. Governo teve que enviar reforços ao bairro em fevereiro deste ano, após constatar aumento de 35% nos furtos. Foto: aloimage
Prevaricação e a sensação de impunidade
O atual delegado titular do 30º DP, Dr. Marcos Gali Kasseb, tem pleno conhecimento das atividades. No entanto, moradores questionam a falta de providências. Juridicamente, a omissão da autoridade pode ser configurada como negligência administrativa ou, se comprovado interesse pessoal, crime de prevaricação (Artigo 319 do Código Penal).
Assista aos vídeos na página principal
A falta de fiscalização não se limita à polícia. Representantes da CET (Companhia de Engenharia de Trânsito) foram alertados durante reuniões do Conseg Tatuapé sobre o fato de esses vigias trafegarem sistematicamente na contramão, além do que, o uso de sirenes também é proibido no âmbito legal do trânsito. Mesmo com vídeos comprovando as infrações — que podem custar até 7 pontos na CNH e multa de R$ 293,27 —, nenhuma autuação foi registrada.
O enigma dos furtos de fios

Vigia noturno “dono da área” ou um de seus contratados esperando para receber de um morador da Rua Antônio João Fiore: moradores pagam impostos caríssimos e ainda precisam pagar pedágio ao vigia para se sentirem seguros. Na madrugada anterior a esta imagem, a menos de 25 metros dessa residência, os fios da rua foram furtados. Foto: arquivo pessoal de morador.
A reportagem flagrou uma situação emblemática na Rua Antônio João Fiore: fios de comunicação cortados e pendurados a menos de 20 metros de uma residência onde o vigia acabara de receber por seus serviços.
Ocorrências frequentes, além da Antônio João Fiore, as ruas Emílio Mallet e Henrique Dumont, dentre outras vias dos locais por onde o vigia atua, sofrem com cortes sistemáticos de cabos.

Risco na rede elétrica e telecomunicações: fio cortado foi deixado pendurado na Rua Antônio João Fiore, na Vila Gomes Cardim. Para evitar acidentes, moradores o amarraram ao poste. Foto: aloimage
Em conversa com nossa equipe, um funcionário da Enel confirmou que, embora os cabos fossem de telecomunicações, a desordem na fiação coloca em risco toda a rede da área.
A coincidência entre a passagem do vigia e a ocorrência de “fatos bizarros” — que incluem desde furtos de fios até o relato de um sequestro de idosos com tortura para que liberassem valores, já ocorreram, como na Rua Professor Pedreira de Freitas — alimenta a teoria da dependência psicológica: o medo é utilizado como ferramenta de venda, a sirene como ferramenta de marketing.
Expansão do problema em São Paulo
O cenário descrito no Tatuapé não é isolado. Relatos semelhantes povoam bairros vizinhos como, o Alto da Mooca, Água Rasa, Carrão, Aclimação e vários outros na capital. A população exige providências.
Leia os depoimentos de quem teve coragem para se manifestar, pois muitos moradores sofrem por temerem represálias.
É importante frisar que uma mínima parte da população — que representa um bom lucro para os envolvidos — fomenta essa atividade, inclusive com risco jurídico, seja por medo ou coação. “A gente paga para não arrumar confusão”, relata outro morador da Rua Professor Pedreira de Freitas.

Placa com o nome do vigia, que foi o principal envolvido em inquérito (Artigo 42 – Contravenção Penal), comprova sua atuação na região e não apenas seu contratado, que, por motivo desconhecido, assumiu sozinho a autoria das infrações das quais ambos eram acusados. Leia o material. Foto: aloimage
Procuramos o 30º DP para esclarecimentos sobre as denúncias de omissão diversas vezes. Até o fechamento desta edição, não houve registro de ações efetivas, pelo contrário, a cada dia o barulho fica pior. Também aguardamos retorno oficial da CET e da Secretaria de Segurança Pública (SSP), com os quais estamos em contato.
Embora o Governo e a Prefeitura de São Paulo reforcem constantemente os esforços no combate à criminalidade, casos como este entram para o rol das “coisas estranhas” que desafiam a lei e o bolso do cidadão paulistano.
Destaque – Imagem: aloart / G.I.




