Moradores da Chácara Santo Antônio, subdistrito do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, reportam a cobrança de valores mensais para um suposto serviço de vigilância noturna que, segundo relatos, funciona como uma espécie de ‘pedágio’ para que possam sair e retornar às próprias residências com sensação mínima de segurança.


De acordo com entrevistas realizadas na segunda (9) e terça-feira (10), os valores cobrados variam entre R$ 50 e mais de R$ 100 por mês, dependendo do tipo e tamanho do imóvel — residência ou comércio. Os entrevistados pediram para não serem identificados por receio de retaliações.

Segundo os relatos, o vigia permanece durante a noite acionando uma sirene para marcar presença na região. Quando precisam sair ou chegar em casa, moradores afirmam que telefonam para ele, que comparece ao local e permanece observando enquanto realizam a entrada ou saída dos imóveis.

Ficou sem resposta a questão sobre a possibilidade de vários moradores ligarem. Como seriam atendidos?

Fontes policiais ouvidas pela reportagem informaram que esses vigias particulares não podem portar arma de fogo e, em tese, não teriam condições de enfrentar criminosos armados. A orientação, nesses casos, seria acionar a Polícia Militar pelo 190. Ação disponível para qualquer cidadão.

Sirene acima do permitido e sensação de insegurança

Uma das moradoras entrevistadas afirmou que chegou a pagar pelo serviço, mas decidiu interromper o pagamento. “Como saber se era ele que estava chegando?”, questionou, referindo-se ao procedimento de ligar antes de sair ou entrar em casa. “Se estou dirigindo, fica difícil ligar e depois esperar que ele chegue.” Ela também mencionou o uso constante de uma sirene que, segundo nossos levantamentos, ultrapassa 120 decibéis — nível considerado acima do permitido pela legislação para áreas residenciais, que é de 55 decibéis.

Assaltos à luz do dia e medo à noite

Além da vigilância noturna com sirenes, moradores relatam episódios de violência durante o dia. Conversamos com outra moradora e sua filha. Ela conta que alguns bandidos já são até conhecidos. “Outro dia, tiraram as compras do carro de uma senhora, colocaram no deles e foram embora.”

Outra vítima afirmou ter sido assaltada por três homens armados na frente dos filhos. Apesar de haver imagens de câmeras de segurança, ela diz que não recebeu retorno sobre o andamento da investigação pelo 30º Distrito Policial (DP). O caso ocorreu há mais de um ano.

Segundo a moradora, no 30º DP a situação teria sido tratada de forma corriqueira. Ela também relatou que ouviu de agentes que os crimes ocorrem com maior frequência às sextas-feiras, pois “a polícia prende e o juiz solta”, ironizando. A reportagem não obteve confirmação oficial das fontes policiais ou da Justiça a respeito dessa declaração.

 

Placas fixadas em diversas fachadas na região da Chácara Santo Antônio, no Tatuapé, entre as ruas Novas Jerusalém e Antonio de Barros. Fotos: aloimage

 

Placas com referência ao 30º DP

Moradores que aderem ao serviço são orientados a instalar placas nas fachadas de suas casas com o nome do vigia. Imagens registradas durante a apuração mostram que diversas placas fazem referência ao 30º DP.

O uso desse tipo de identificação é proibido e, em 2022, o vigia foi notificado pelo então delegado titular, William Wong, a retirar as placas. O 30º DP é um órgão estadual vinculado à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e a utilização do nome sugere vínculo institucional indevido.

As imagens mostram que, mesmo após a determinação para retirada das placas há 4 anos, elas continuam expostas nas fachadas das residências.

Inquérito e ausência de resposta oficial

A reportagem participou de reunião do Conseg Tatuapé (Conselho Comunitário de Segurança) e enviou ofício ao delegado titular do 30º DP, Marcos Galli Kasseb, solicitando esclarecimentos sobre a segurança no bairro, uso de placas e andamento de investigações. Nenhum dos órgãos se manifestou a respeito.

Segundo relatos, a cobrança desse ‘pedágio’ não seria formalmente obrigatória, mas moradores afirmam sentir-se intimidados. Alguns dizem que não houve reação quanto ao cancelamento do pagamento; outros relatam postura mais ríspida por parte do vigia Wesley Nunes Costa, nome que aparece em algumas placas com outro layout.

Foto: aloimage

 

Um inquérito instaurado em 2022 foi encaminhado à Promotoria de Justiça Criminal do Foro Regional VIII – Tatuapé sobre a atuação desse vigia e um dos seus contratados (leia aqui). O processo permaneceu paralisado por cerca de um ano. Após andamento, o nome do vigia, inicialmente investigado, não constou mais nos autos, permanecendo o nome de um colaborador também acusado, que acabou absolvido pelo Ministério Público antes de eventual julgamento.

A reportagem permanece aberta a manifestações das autoridades policiais e do Ministério Público.


Destaque – Crimes sem solução e impunidade deixam moradores sobressaltados com a violência na região da Chácara Santo Antônio, no Tatuapé. Imagem: aloart / G. I. / IA image


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