Moradores do Tatuapé, Vila Gomes Cardim e Chácara Santo Antônio denunciam um cenário alarmante: enquanto crimes como furtos e invasões continuam acontecendo, vigias noturnos utilizam sirenes de alta intensidade durante toda a madrugada e cobram para fazer isso.


Rotina de barulho e sensação de abandono

Todos os dias, nos mesmos horários, o som de sirenes corta a madrugada em ruas do Tatuapé e bairros vizinhos. A prática, atribuída a vigias noturnos que atuam na região, tem gerado revolta entre moradores, que relatam noites sem dormir, estresse constante e sensação de abandono por parte do poder público.

Segundo denúncias apuradas pela reportagem, o uso contínuo das sirenes não ocorre por acaso. Para moradores, trata-se de uma estratégia que condiciona a população ao barulho — criando uma falsa sensação de segurança e incentivando o pagamento pelo serviço.

Introduziram a opção de acompanhamento enquanto as pessoas entram ou saem de casa, aumentando a possibilidade de riscos. Os problemas, segundo relatos, já são conhecidos pelas autoridades — mas seguem sem solução.

Cobranças e eficácia questionada

Relatos indicam que os valores cobrados pelos vigias são irregulares e definidos de forma aleatória. Um morador da Rua Ana de Proença foi direto: “Não adianta nada, eu não pago mais”.

A avaliação é de que, apesar da presença dos vigias e do uso de sirenes, continuam sendo registrados casos de furtos e tentativas de invasão.

Apesar do barulho intenso — que pode ultrapassar 120 decibéis —, moradores afirmam que os crimes continuam acontecendo. A avaliação é de que a atuação não inibe criminosos, que já conhecem a rotina e se aproveitam da ausência posterior dos vigias.

 

Fonte: SSP / Gráfico: aloart

 

As reclamações também envolvem possíveis impactos à saúde e ao bem-estar. Moradores relatam dificuldades para dormir devido ao barulho contínuo. O problema ganha ainda mais relevância diante do mês de conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Pessoas com TEA, que representam cerca de 2,4 milhões de brasileiros (1,2% da população, segundo o Censo 2022), estão entre as mais afetadas por estímulos sonoros intensos, como sirenes.

Autoridades sob questionamento, aspectos legais e regulamentação

Especialistas apontam que a atividade de vigilância privada deve seguir normas específicas, incluindo restrições quanto ao uso de equipamentos sonoros e luminosos, além de exigências de regularização profissional.

Moradores afirmam que o problema é de conhecimento das autoridades, incluindo o 30º Distrito Policial, mas nenhuma medida efetiva foi tomada até o momento.

Documentos obtidos pela reportagem mostram que denúncias já foram formalizadas e chegaram ao Ministério Público de São Paulo, mas processos foram arquivados — o que levanta questionamentos sobre a condução dos casos.

Um problema que se expande

A chamada “indústria da insegurança”, como definem moradores, não se limita ao Tatuapé. Há relatos semelhantes em regiões como o Alto da Mooca, Carrão e em outros bairros, indicando expansão da prática.

Na madrugada de 21 de março, foram registrados furtos de fios de telefonia nas vias. As ruas onde a fiação for cortada com alicate são Emílio Mallet, Henrique Dumont e Antônio João Fiore. Segundo moradores e as imagens das reportagens desta série, situações semelhantes têm ocorrido com frequência na região. Os fios ficam pendurados no meio das vias.

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a atividade levanta dúvidas legais, especialmente por envolver:
• Uso de sirenes e giroflex sem autorização;
• Práticas de trânsito irregulares;
• Atuação sem regulamentação adequada.

Cobrança por respostas

Diante da continuidade dos problemas, moradores cobram respostas claras das autoridades:
– Por que as denúncias não avançam?
– Há fiscalização sobre esse tipo de atividade?
– Quem é responsável por garantir o sossego e a segurança da população?

Veja abaixo a página de um processo que começou com o registro de boletim de ocorrência eletrônico. O caso chama atenção para a forma como denúncias desse tipo vêm sendo conduzidas e levanta questionamentos sobre a efetividade das medidas adotadas diante de ocorrências recorrentes na região.

Enquanto isso, o barulho segue noite após noite — e a sensação de insegurança também.

 

 

 

Página de um processo arquivado, envolvendo denúncias de barulho provocado por vigias noturnos no Tatuapé, mesmo com a apresentação de provas consideradas consistentes. O documento final de arquivamento reúne assinaturas de autoridades da Promotoria Criminal do Tatuapé, da Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de São Paulo e do 30º Distrito Policial, e registra que o acusado e a vítima residem no mesmo endereço, sendo possível observar que só os nomes foram alterados, mas o texto é o declarado pela vítima. Os nomes completos foram omitidos, mas constam no processo. Foto: Reprodução / aloimage


Destaque – Fonte: SSP / Gráfico: e imagem: aloart / G.I.


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