A humanidade vive, talvez, seu momento mais paradoxal. Nunca fomos tão capazes de avançar, e nem estivemos tão expostos a nossa própria capacidade de retroceder. De um lado, a Ciência rompe fronteiras que, até pouco tempo, pertenciam apenas ao campo da imaginação. A recente missão Artemis II, que nos recoloca na órbita da lua, não é apenas um feito tecnológico: é um símbolo. Representa a possibilidade concreta de estabelecer presença humana permanente fora da Terra.

Hoje, já se fala com seriedade sobre bases lunares, exploração de recursos, identificação de água em estado sólido e, mais do que isso, sobre a preparação para missões tripuladas ao planeta marte.

Mas é justamente neste ponto que o contraste se torna inevitável: enquanto desenvolvemos tecnologias capazes de nos levar a outros mundos, seguimos incapazes de resolver conflitos neste, que é a nossa casa. Em pleno século 21, ainda convivemos com guerras devastadoras, como entre Rússia e Ucrânia, e, mais recentemente, entre os Estados Unidos, Israel e Irã – esta última, aliás, reacende o temor de novos conflitos de ampla escala e prova que a lógica da destruição ainda ocupa espaço relevante nas decisões governamentais e humanas.

Este é o paradoxo central: a mesma raça que domina a física necessária para sair da Terra, ainda não controla, plenamente, os impulsos que a levam a exterminar seu semelhante.

Somos capazes de construir foguetes reutilizáveis, desenvolver Inteligência Artificial (IA), mapear o genoma humano — mas ainda falhamos em estabelecer consensos mínimos que garantam paz.

A contradição não é apenas moral; ela é estratégica. Cada embate armado representa não apenas vidas perdidas, mas, também, recursos desviados e que poderiam estar financiando Educação, Inovação, Saúde (com ênfase à busca de cura para doenças que interrompem a vida de milhares de pessoas em todo o mundo, todos os dias), ou, até mesmo, a própria exploração espacial.

Em vez disso, aportes infindáveis são consumidos em disputas que, na maioria das vezes, têm raízes em interesses geopolíticos, econômicos ou ideológicos, e que poderiam ser resolvidos por meio do diálogo, da empatia, da consideração mútua.

Guerras, enfim, não causam somente a dor inerente a perdas – elas atrasam a humanidade como um todo. Interrompem cadeias produtivas, destroem Infraestrutura, desorganizam sociedades e criam gerações marcadas por traumas psíquicos.

Tais conflitos impactam Economias em escala global, elevam preços e geram indiscutível instabilidade. É como se estivéssemos, ao mesmo tempo, construindo o futuro e sabotando o presente.

Por isso, o verdadeiro desafio da humanidade pode ser que não seja tecnológico, mas, sim, civilizatório. Explorar o espaço é, sem dúvida, uma das maiores expressões da nossa capacidade. Contudo, garantir a paz, deveria ser a maior prova de maturidade e de evolução.

Se conseguirmos alinhar estas duas dimensões, o avanço científico e o progresso humano, estaremos, de fato, prontos para dar o próximo passo. O futuro, afinal, não depende apenas de até onde podemos chegar, mas, principalmente, de como escolhemos conviver enquanto caminhamos.


Paulo Serra – Especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é 1º vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB e presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo; foi prefeito de Santo André-SP, de 2017 a 2024.

 


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


Leia outras matérias desta editoria

Corrupção: a conta que o Brasil não pode mais pagar

É impressionante como temos, constantemente, nos governos dos partidos de esquerda — que dirigem o país há cerca de 17 anos e meio —, escândalos que contribuem para nos colocar entre os países mais corruptos do mundo, conforme dados da Transparência...

Lula e Flávio faltam a debate na Band; Zema cancela participação em cima da hora

Se a questão era evitar os desgastes em confronto com questões sensíveis, o não comparecimento deixa em aberto uma lacuna de credibilidade. Antes de quaisquer análises, a ausência de três presidenciáveis comprova o distanciamento que ainda existe entre as...

As eleições brasileiras no radar da geopolítica mundial

No início dos anos 1990, Francis Fukuyama tornou-se um dos mais debatidos cientistas políticos do mundo ao formular a tese do “fim da história”. Influenciado pela filosofia da história de Hegel, Fukuyama não afirmava que os acontecimentos deixariam de...

As mulheres que carregam vaga-lumes no estômago iluminam a História

Todas as mulheres carregam vaga-lumes no estomago, segundo um antigo ditado galego. Em algumas, estes vaga-lumes estão adormecidos, mas podem acordar a qualquer momento, em outras, por vezes cansados da luta, deitam-se para repousar. E há aquelas movidas...

Cuidar de quem protege é zelar por toda a sociedade

Ao longo de quase três décadas na segurança pública, subindo degrau por degrau em um ambiente ainda permeado por machismo e preconceito, entendi que a trajetória de um agente não pode ser dissociada de sua dimensão humana. A conciliação entre a maternidade...

A sala escura e o ritual da presença: por que a infância precisa do cinema como destino

Existe algo profundamente transformador no ato deliberado de sair de casa para ver um filme. Não se trata apenas de apertar um botão no controle remoto no intervalo entre uma tarefa e outra, mas de um movimento intencional. Escolher a sessão, fazer o...

Com reação analógica do Estado, golpe digital é crime que compensa no Brasil

Os números da mais recente edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública parecem autorizar conclusão otimista: o Brasil mata menos. A afirmação é verdadeira, mas incompleta. A redução dos homicídios representa avanço civilizatório que merece...