Longe do ideal de comunidade proposto por Adam Smith, o país patina no desenvolvimento ao normalizar o ganho individual, a captura de renda por elites públicas e um sistema de Justiça desenhado para blindar os seus.
Quando Adam Smith publicou A Riqueza das Nações em 1776, ele eternizou o conceito da “mão invisível”, sugerindo que a busca individual pelo sustento e pelo lucro acaba, indiretamente, gerando riqueza para toda a sociedade. No entanto, uma das maiores distorções intelectuais da história recente foi resumir o pensamento de Smith a um egoísmo desenfreado.
Dezessete anos antes, em sua obra Teoria dos Sentimentos Morais, Smith deixou claro que o mercado e a sociedade só prosperam se houver uma clara conexão moral: a simpatia (empatia) e o respeito inabalável à justiça. Para ele, o interesse próprio nunca poderia atropelar as leis ou se apoiar em privilégios concedidos pelo Estado. Se a busca pelo ganho individual não estiver ancorada no bem-estar comunitário e em regras do jogo que valham igualmente para todos, o sistema colapsa em desigualdade e decadência.
O Brasil parece ser o laboratório perfeito do que acontece quando ignoramos esse alerta moral. Ao longo de séculos, consolidou-se no país uma cultura comportamental onde a ideia de comunidade é sistematicamente relegada ao segundo plano, preterida por benefícios individualizados, proteção de corporações e uma rede de privilégios que sufoca qualquer chance de desenvolvimento igualitário.
O comportamento que molda as “Regras do Jogo”
Essa dinâmica comportamental foi detalhada pelo economista Douglass North, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1993. North demonstrou que o desenvolvimento de uma nação é ditado por suas instituições, que nada mais são do que as “regras do jogo” na sociedade. Essas regras dividem-se em formais (leis e constituições) e informais (hábitos, costumes, cultura e códigos de conduta).
Quando a cultura informal de um povo premia a “esperteza”, a busca por atalhos e a proteção de grupos de interesse (o chamado rent-seeking ou captura de renda), as leis formais acabam sendo desenhadas para refletir esse comportamento.
No Brasil, os talentos intelectuais e os recursos financeiros muitas vezes não são direcionados para a inovação, produção ou geração de valor real para a comunidade. Em vez disso, migram para o esforço de obter um “quinhão de privilégio” junto ao Estado. É a mentalidade do “salve-se quem puder” ou do “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”, o exato oposto da simetria moral e da empatia social exigidas por Smith para que uma nação avance.
A corrupção como teto invisível do progresso
Esse comportamento de sobrepor o interesse privado ao coletivo encontra o seu ápice na corrupção sistêmica, apontada por especialistas como o principal freio de mão do desenvolvimento nacional.
A corrupção no Brasil não é um desvio pontual; ela funciona como um imposto invisível e regressivo que corrói a infraestrutura, a saúde e a educação. De acordo com o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), o Brasil amarga uma posição histórica incômoda, permanecendo estagnado bem abaixo da média global. Em avaliações recentes, o país registrou apenas 35 pontos em uma escala de 0 a 100, ocupando a 107ª posição entre mais de 180 nações.
Essa percepção reflete o quanto as práticas de desvios, fraudes e fisiologismo político estão enraizadas. A corrupção destrói a confiança nas instituições, afasta o investimento estrangeiro produtivo e, acima de tudo, destrói o tecido social: o cidadão comum, ao perceber que o sistema é fraudado no topo, perde o estímulo de cooperar com a comunidade, reforçando o ciclo de individualismo defensivo.
Uma justiça que protege “apadrinhados”
Para que a engrenagem do privilégio funcione sem sobressaltos, ela precisa de um escudo — e no Brasil, esse escudo frequentemente é o próprio sistema de Justiça. Uma das facetas mais perversas do atraso nacional é a percepção de que as leis não se aplicam da mesma forma a depender do sobrenome, do cargo público ou do poder econômico do réu.
Enquanto o cidadão comum enfrenta a lentidão e o peso de um sistema punitivo severo, as elites políticas e econômicas contam com uma infinidade de recursos, prescrições e interpretações jurídicas maleáveis. O Judiciário brasileiro, que deveria ser o fiador da igualdade de todos perante a lei, muitas vezes comporta-se como uma corporação que protege seus próprios interesses e os de seus apadrinhados.
Relatórios recentes de órgãos de transparência apontam com preocupação a normalização de conflitos de interesses no topo do Judiciário e a proliferação de eventos de lobby judicial. O comércio informal de sentenças e as conexões estreitas entre escritórios de advocacia de familiares de magistrados e grandes decisões do Estado escancaram que, no Brasil, a balança da justiça pende para o lado de quem tem acesso às cortes, e não de quem tem o direito.
Diagnóstico do IPEA: a aristocracia estatal e o abismo social
Essa disparidade é corroborada por dados empíricos de órgãos como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O diagnóstico sobre a estrutura de salários e benefícios do setor público escancara como o próprio Estado atua como um motor de desigualdade de renda, em vez de um redistribuidor.
Embora a base do funcionalismo público (professores, policiais e servidores municipais) receba salários modestos, o topo da pirâmide estatal — que engloba o alto escalão dos poderes Judiciário, Legislativo e Ministério Público — usufrui de uma verdadeira “aristocracia de benefícios”.
Penduricalhos isentos de impostos, gratificações autoconcedidas e reajustes automáticos criam um abismo salarial em relação à iniciativa privada e ao cidadão comum que paga os impostos. Essa estrutura de incentivos atrai as mentes mais brilhantes do país não para a geração de novas indústrias ou pesquisas científicas, mas para carreiras burocráticas cujo objetivo é o usufruto da estabilidade e de vencimentos muito acima da realidade econômica do país.
O caminho da mudança: romper o pacto do compadrio
O Brasil não avança entre as nações desenvolvidas porque optou por manter um pacto social baseado no privilégio em vez do mérito, na captura do Estado em vez da livre iniciativa justa, e no individualismo oportunista em vez da empatia comunitária.
Para romper essa inércia histórica, não basta apenas alterar leis frias no papel; é necessária uma profunda mudança comportamental e cultural. Esse processo começa pelo empenho no controle da corrupção; fim do corporativismo, por meio de uma reforma administrativa profunda capaz de extinguir privilégios e penduricalhos que hoje sustentam o topo do funcionalismo público.
Paralelamente, o país precisa assegurar uma isenção real na Justiça, fortalecendo órgãos de controle externo como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para coibir o lobby e o nepotismo velado que ainda comprometem a equidade dos tribunais. Essa transformação exige também uma transparência radical, abrindo canais de controle social real sobre cada centavo gasto em emendas parlamentares e obras públicas.
No fundo, trata-se de resgatar a empatia coletiva e entender, como Adam Smith ensinou há 250 anos, que uma sociedade sem um senso de justiça e de empatia recíproca estará sempre condenada a ser rica apenas para alguns e cronicamente pobre para todos.
Destaque – O Brasil parece ser o laboratório perfeito do que acontece quando ignoramos o alerta moral eternizada por Smith em 1776. Imagem: aloart / G.I.



