Você treina. Talvez duas, três vezes por semana. Acorda cedo, vai à academia, cumpre a série. E mesmo assim, quando olha no espelho, sente que o corpo não está respondendo como deveria. A barriga continua no lugar. A massa muscular não aparece. A energia no fim do dia deixa a desejar. E uma pergunta vai ganhando força na cabeça: o que estou fazendo de errado? A resposta, na maioria das vezes, não é falta de esforço. É falta de estratégia.

O corpo de um homem ou de uma mulher com 40 anos ou mais é fisiologicamente diferente do que era aos 25. Isso não é pessimismo, é biologia, e entender essa diferença é o primeiro passo para não travar mais e começar a evoluir de fato.

A partir dos 40 anos, o organismo passa por transformações importantes. Os níveis de testosterona nos homens caem cerca de 1% ao ano após os 40 anos, segundo a Mayo Clinic. Nas mulheres, a aproximação da menopausa traz alterações hormonais que impactam diretamente a composição corporal e a disposição. Ao mesmo tempo, aparece com mais intensidade a sarcopenia (perda progressiva de massa muscular) e o metabolismo começa a responder de forma mais lenta a estímulos que antes repercutiam bem.

Tudo isso significa que o treino que funcionava aos 25 pode simplesmente não funcionar mais. Não foi porque o corpo ficou “ruim”, mas porque ele mudou e o treino não acompanhou essa mudança.

O problema não é o quanto você treina, mas como você treina

Um dos erros mais comuns entre pessoas acima dos 40 é insistir no volume sem pensar na qualidade. Mais séries, mais exercícios, mais dias na academia, porém o resultado costuma ser o oposto do esperado. Ocorre acúmulo de fadiga, a recuperação fica lenta, há maior risco de lesão e, naturalmente, menos resultado.

O que a ciência mostra é que, nessa faixa etária, o treino de força bem estruturado (com cargas progressivas, exercícios compostos e recuperação adequada, por exemplo) é o estímulo mais eficiente para preservar e ganhar massa muscular, além de manter o metabolismo ativo e melhorar a composição corporal. Então não é sobre treinar mais, é treinar com propósito.

A intensidade importa, mas o descanso importa é tão importante quanto ela. O corpo acima dos 40 precisa de mais tempo para se recuperar entre as sessões, mas ignorar isso é uma das principais razões pelas quais tantas pessoas treinam com dedicação e não obtêm retorno.

O treino precisa ser pensado para o seu corpo, para a sua rotina e para o resultado que você quer alcançar. Isso inclui escolher os exercícios certos, respeitar a progressão de carga, organizar os dias de treino de forma inteligente e dar atenção à alimentação e ao sono, que são parte inseparável do processo de capacitação física.

Uma pessoa com 42 anos, que dorme mal, trabalha sob pressão e tem pouco tempo disponível, precisa de um treino diferente de outra com a mesma idade e com uma rotina mais tranquila. O corpo não funciona no vácuo, e o treino também não pode funcionar assim.

Começar a treinar depois dos 40 (ou retomar após um período parado), é totalmente possível e traz benefícios comprovados para a saúde física e mental. No entanto, exige que a pessoa abandone a ideia de que esforço isolado é suficiente. Porque o esforço sem direção cansa, no entanto, o esforço com estratégia, transforma.

Se o seu corpo não está respondendo bem, possivelmente não seja hora de treinar mais, e sim de treinar diferente.


Rairtoni Pereira – Personal trainer há mais de 10 anos, ajudando pessoas a desenvolverem hábitos saudáveis e uma relação positiva com o próprio corpo. É autor do livro “5 Atitudes para criar o hábito de se exercitar todos os dias”.


Destaque – “O problema não é o quanto você treina, mas como você treina”, diz personal trainer. Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


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