O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao comércio internacional representa muito mais do que uma decisão econômica. Trata-se de um movimento que reorganiza as relações comerciais globais, aumenta a insegurança dos mercados e impõe novos desafios para países que dependem das exportações para gerar emprego, renda e desenvolvimento.

Para o Brasil, os impactos podem ser significativos. Por isso, diante deste cenário preocupante, a principal obrigação da União deve ser a de ampliar o diálogo. É hora de fortalecer a Diplomacia, abrir canais de negociação e aproximar os setores produtivos, a fim de se reduzir os prejuízos ao País.

Porém, este episódio revela outro grave problema: o custo da polarização política. Há anos, defendo que o maior prejuízo desta radicalização não está restrito ao ambiente de intolerância que se cria, mas, sobretudo, ao seu poder de contaminar as relações institucionais, econômicas e diplomáticas, tornando o Brasil mais vulnerável, justamente quando mais precisa construir pontes.

Vivemos um momento em que praticamente toda discussão termina dividida entre os extremos. A Política, então, deixa de ser instrumento para a superação de desafios e o oferecimento de soluções para o dia a dia dos brasileiros e se transforma numa arena, num campo de batalha, num espaço de constante enfrentamento.

Enquanto isso, demandas fundamentais continuam esperando por respostas. A produtividade, por exemplo, permanece baixa, a infraestrutura carece de investimentos, a Educação exige avanços urgentes, e a inovação cresce lentamente, enquanto a competitividade da indústria precisa ser fortalecida. Estas, entre tantas outras, deveriam ser prioridade da agenda pública. Infelizmente, quando a polarização domina o debate, estas pautas desaparecem. Sobram discursos, ataques (inclusive, às instituições). Faltam resoluções.

O mais preocupante é que esta tensão vai além dos partidos e das ideologias e produz, também, reflexos internacionais. O Brasil passou a ocupar espaço em disputas externas, enquanto governos estrangeiros também se manifestam sobre temas internos. Por óbvio, quanto maior a instabilidade política, menor tende a ser nossa capacidade de construir relações sólidas e defender os interesses econômicos do País.

Quem paga essa conta nunca são apenas os governos. Paga o empresário, que deixa de investir; o produtor, que perde mercado; o trabalhador, que vê as oportunidades diminuírem; e a família, que enfrenta inflação, juros elevados e menor crescimento econômico, perdendo, inclusive, a cada dia, o poder de compra. Em outras palavras, quem sempre paga, e caro, é o cidadão comum.

Por isso, o momento exige maturidade. Defender o Brasil significa colocar o interesse nacional acima das disputas políticas, compreender que diálogo não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade, e entender que negociar não é abrir mão de princípios, mas, sim, proteger empregos, investimentos e oportunidades.

O tarifaço americano é alerta importante. O Brasil carece, insisto, de menos polarização e de mais gestão; de menos discursos para alimentar torcidas e de mais políticas públicas voltadas a resultados. O País precisa de menos conflitos permanentes e de mais capacidade de alcançar consensos.


Paulo Serra – Especialista em Gestão Governamental (EPD) e em Financiamento de Infraestrutura e PPPs por Harvard (EUA). Graduado em Direito e ex-aluno de Economia da USP, é professor universitário e foi prefeito de Santo André-SP (2017–2024). Atua como vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB, presidente do PSDB-SP e vice-presidente da Federação PSDB-Cidadania paulista.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


Leia outras matérias desta editoria

20 anos da Lei Maria da Penha, o Estatuto da Vítima, o spray de pimenta e a proteção à mulher ainda em falta

Principal norma brasileira para prevenir, punir e erradicar a agressão doméstica e familiar contra a mulher, a Lei Maria da Penha (11.340/2006) completa 20 anos em agosto. Mesmo com previsão de expedição de medidas protetivas de urgência, tipificação de...

Concessão de benefícios do INSS para entregadores de App é justiça social

Concedida em caráter liminar e com abrangência nacional, a Justiça do Trabalho determinou recentemente que o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) deve analisar caso a caso pedidos de benefícios a entregadores por aplicativos que tenham se acidentado...

Violência política de gênero: quando a lei existe, mas a proteção não chega

A cada mulher que assume um mandato eletivo no Brasil, soma-se uma probabilidade concreta de sofrer violência por isso — não apesar de estar na Política, mas justamente por ingressar nela. Segundo o Censo das Prefeitas Brasileiras (mandato 2021/2024), do...

O tarifaço americano e o preço da polarização: quando a conta chega ao cidadão

O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao comércio internacional representa muito mais do que uma decisão econômica. Trata-se de um movimento que reorganiza as relações comerciais globais, aumenta a insegurança dos mercados e impõe novos desafios...

PL da Misoginia: quando o ódio às mulheres deixa de ser opinião e se torna crime

A recente decisão da Câmara dos Deputados, em Brasília-DF, de submeter o Projeto de Lei (PL) da Misoginia (896/2023) a regime de urgência, reconfigura, em termos simbólicos e normativos, o lugar da violência de gênero no Direito Penal brasileiro. Ao...

Quando o golpe usa o próprio sistema de Justiça

Fraude que se vale de dados reais expõe falhas institucionais e exige resposta conjunta de tribunais, bancos, plataformas e advocacia. Um golpe silencioso, sofisticado e cada vez mais frequente vem se espalhando pelo país: o golpe do falso advogado....

Copa do Mundo: a camisa da Seleção pesou menos do que deveria

O futebol sempre foi muito mais do que um esporte para o Brasil. Durante décadas, vestir a camisa da Seleção significou representar a história de um povo, carregar a esperança de milhões de brasileiros e defender um símbolo que ultrapassava os 90 minutos...