Há algumas semanas, abordei em um levantamento o período de mais de um mês que torcida do Corinthians levou para produzir cerca de 43 mil menções à hashtag #FicaMemphis, nas redes sociais, e forçar o clube a reabrir uma negociação que já era tratada como encerrada. Achei, naquele momento, que era um bom exemplo de como pressão digital orgânica muda decisões institucionais. Não sabia que, em menos de duas semanas, teria em mãos um caso que faz aquele parecer lento.

Entre a madrugada de 31 de agosto e a manhã de 2 de setembro, pouco mais de 36 horas de fato relevantes sendo divulgados sobre o desdobramentos do Caso Master, o cruzamento de citações a “Alexandre de Moraes” e “Daniel Vorcaro”/“Banco Master” gerou 148.702 menções em português nas redes, segundo levantamento que realizei a partir de dados Brandwatch. Mais de três vezes o volume do #FicaMemphis, gerado em uma fração do tempo. Se o caso do Corinthians foi pressão digital, este se trata de uma avalanche.

Como gatilho, uma reportagem, que fez um volume de postagens tímido (103 menções durante todo o 31 de agosto) explodir na virada para 1º de setembro, quando o relatório da Polícia Federal sobre as mensagens recuperadas do celular de Vorcaro, até então desconhecidas, teve o sigilo retirado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no STF, e a imprensa passou a publicar seu conteúdo em cascata.

Não é uma crise. São quatro, empacotadas na mesma cobertura: Vorcaro pediu, por mensagem, proteção a Andrei Rodrigues (diretor-geral da PF) e a Paulo Gonet (PGR), com a PF concluindo que o destinatário final da articulação era o próprio Alexandre de Moraes. Moraes teria editado, às 23h04, um contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master. Vorcaro teria autorizado cartões de crédito de R$ 300 mil para os filhos do ministro. E, dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes se precisava deixar o país, mensagem que hoje sustenta a tese de aviso prévio. Por cima de tudo isso, Mendonça cobrou explicações da PGR sobre a suposta proteção e pediu que o próprio plenário do STF analisasse o caso em sessão pública, enquanto Gonet, do outro lado, pedia a nulidade do relatório.

82,3% do volume total de menções ao tema aconteceu num único dia, 1º de setembro, com pico às 21h. A curva caiu na madrugada seguinte e teve um repique menor entre 6h e 10h de 2 de setembro. Ou seja, mesmo depois do pico, a história ainda tinha degrau para subir.

96,2% de tudo isso está concentrado no X. Não é uma crise de opinião pública geral, é uma crise do público institucional-político engajado naquela plataforma, e qualquer leitura que ignore essa ressalva vai superestimar o tamanho real do fenômeno na rua. Ainda assim, não é algo descartável.

Dentro do que foi classificado por sentimento (35% do total, cobertura típica de ferramentas automáticas), a proporção negativo/positivo é de 6,7 para 1, um desequilíbrio que mostra que, sempre que a conversa sai do relato factual, ela pende contra os envolvidos: Moraes, Vorcaro e, por extensão, o próprio STF.

O dado mais revelador para quem pensa em risco institucional, porém, não é de volume, é de hashtag. #Andrémendonça aparece com 1.137 menções, praticamente empatada com #globonews. Um ministro que deveria ser nota de rodapé jurídico virou personagem central da narrativa. E isso importa, pois transforma o que poderia ser um problema pessoal de reputação de Moraes em um problema de coesão institucional do Supremo como um todo.

Nos dois casos que acompanhei nas últimas semanas, seja com a torcida do Corinthians e o público político do X, o padrão de fundo é o mesmo. Quando uma decisão de bastidor é mal explicada ou vem à tona por vazamento, em vez de comunicação institucional, a velocidade da reação digital passa a ditar o ritmo da crise, não o contrário.

A diferença é de escala e de risco. Um clube de futebol pode perder um jogador ou uma diretoria; uma corte constitucional que vira assunto de #foramoraes e #impeachmentja, amplificado tanto por Deltan Dallagnol e o Novo quanto por Glauber Braga e a Revista Fórum, direita e esquerda replicando o mesmo conjunto de fatos, está lidando com um risco de percepção que nenhuma nota técnica de sexta-feira à noite resolve.

Para quem toma decisão em ambiente regulado, como bancos, tribunais, empresas listadas , a régua deixou de ser “quanto tempo até a próxima coletiva de imprensa” e passou a ser “quanto tempo até a próxima hora de pico no X”. Neste caso, foram 21 horas. Quem espera mais do que isso para se explicar já está respondendo à pergunta errada.


Lilian Carvalho – PhD em Marketing, professora de Marketing Digital da FGV/EAESP.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


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