Esta não é uma história de ficção; é baseada em fatos reais.

A temida Inquisição (séc. XII e XIII) da Idade Média queimava pessoas vivas. Quando não havia provas para condená-las, alegava-se bruxaria ou curandeirismo. A partir do séc. XV, já na Idade Moderna, os protestantes foram considerados hereges e inimigos dos tribunais católicos, e houve um capítulo especial sobre os indígenas.

Contra os inimigos, havia à disposição uma lista de engenhosas criações para tortura. As vítimas sofreram abusos sexuais, particularmente as mulheres presas; os bebês que nasciam também desapareciam, e houve uma série de arbitrariedades cometidas contra a humanidade. As fragilidades dos seres humanos — principalmente daqueles que discordavam das determinações do autoritarismo episcopal e dos monarcas — foram exploradas pela força e pelo medo.

As atrocidades do passado fizeram com que Sua Santidade, o Papa João Paulo II, formulasse um pedido solene de perdão pelos erros e excessos cometidos por membros da Igreja Católica durante a Inquisição. Isso ocorreu em março de 2000, durante a missa do Jubileu do Vaticano, que ficou conhecida como Day of Pardon (Dia do Perdão). O Santo Padre pediu a Deus que perdoasse as faltas cometidas durante a longa história que abrangeu as dramáticas penas da Inquisição, as divisões religiosas e a violência contra as mulheres e os judeus.

A parte que toca os povos indígenas atinge também os nativos que viviam no Brasil no período colonial. Os rituais dos povos tradicionais e a recusa em adotar integralmente o catolicismo também geraram denúncias e processos pelo Santo Ofício. Enquanto pagãos, até 1537 eles foram considerados desprovidos de alma, por conveniência dos primeiros colonizadores. Naquele ano, o Papa Paulo III emitiu a bula Sublimis Deus, declarando os nativos como seres humanos verdadeiros. Até então, haviam sido escravizados, massacrados e dizimados por doenças; as mulheres eram transformadas em escravas sexuais ou concubinas.

Todos esses atos descritos até aqui, com poucos detalhes, eram praticados em nome da legalidade. Nessa toada, uma outra longa e misteriosa história se conecta: a dos Templários. Sua fama chega aos nossos dias em produções cinematográficas, muitas vezes embutida nos textos de forma sutil.

Aquilo que a lei é capaz de impor pela força — estatutos e centenas de milhares de teorias e práticas legais — muitas vezes se resume aos interesses de poucos em detrimento da vontade da maioria. Não pela verdade e pela justiça, mas pela conveniência e pelo poder; interesses pessoais, distantes daqueles que deveriam ter um olhar mais magnânimo e sábias decisões.

O que temos observado ao longo das últimas duas décadas no Brasil é um retorno a medidas adotadas para proteger grupos, corporações e prerrogativas especiais — imunidades que os distanciam das regras obedecidas pela sociedade como um todo, criando um status de intocabilidade. São os chamados “intocáveis” da jovem República.

É bom lembrar que o Brasil era Pindorama (Terra das Palmeiras), nome dado por aqueles que aqui viviam antes de os europeus chegarem. Desde a primeira denominação europeia, Ilha de Vera Cruz, 526 anos se passaram. Desses, são 204 de Independência, que se comemora no dia 7 de setembro, e a nossa República já completou 136 anos.

Apesar dos dois séculos independente, jovens brasileiros que estão completando 25 anos, e irão exercer seu direito ao voto daqui a menos de um mês, ainda não conseguiram divisar um país em que não houvesse escândalos conectados à corrupção. Mera comparação, com um dos piores períodos, no qual a corrupção se tornou endêmica e institucionalizada.

A já amadurecida Pindorama ainda não conseguiu proporcionar aos seus filhos um sentimento de patriotismo. Ainda pensa em como lhes possibilitar caminhar com liberdade e respeito pelas ruas, e cria listas de leis que não são respeitadas.

Enquanto a ciência transporta as mentes a limites cada vez mais distantes da Via Láctea, a nossa humilde galáxia, por meio dos estudos astronômicos e da tecnologia espacial, por aqui ainda estamos discutindo se aqueles que deveriam nos proteger podem continuar cometendo abusos em nome da míope leitura das leis que irão protegê-los.

A reflexão que fica é se a sociedade deve aceitar que o Brasil continue sendo conhecido como um dos países mais corruptos do planeta ou se levantará, erguerá a cabeça acima dos ombros e dirá: basta de corrupção, injustiças e favorecimentos legalizados.

A Idade Média da Europa, trazida para o Novo Mundo, ficou para trás. Todavia, nos encontramos exatamente no mesmo patamar de interesses dos colonizadores, que visavam a seus próprios benefícios em uma terra inóspita. O Brasil possui um potencial tão gigante quanto o seu tamanho. Não é uma ilha, como imaginaram os primeiros europeus. Entretanto, como ocorreu há séculos, está sendo minado por poucos. É possível, ou não, aprender com as antigas lições para alterar os rumos do futuro. A história não nos engana.


Gerson Soares – Jornalista e escritor.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I. / IA Image


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