Incursão científica leva 16 pesquisadores a platôs isolados no norte do Amazonas para investigar a evolução de espécies em montanhas de altitude
Uma equipe de 16 pesquisadores brasileiros iniciou uma expedição científica de três semanas à Serra do Aracá, no extremo norte do Amazonas. O trabalho integra a última etapa de um projeto financiado pela FAPESP, com apoio do Exército Brasileiro, dedicado a mapear a biodiversidade e a história evolutiva dos ecossistemas de altitude da Amazônia.
Com altitudes de até 1.700 metros, a região abriga tepuis — montanhas de platôs planos com condições climáticas distintas das terras baixas da floresta. As etapas anteriores da pesquisa, realizadas no Pico da Neblina e na Serra do Imeri, resultaram na descoberta de novas espécies de sapos, lagartos, caranguejos e até de uma ave, feito raro na ornitologia.
“Até então, grupos pequenos de botânicos e zoólogos coletaram plantas e animais na Serra do Aracá, mas ninguém chegou a áreas tão isoladas como as que vamos adentrar”, afirma o zoólogo Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do IB-USP e líder da expedição.

Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e líder da expedição (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)
Ilhas de pedra e fronteira biogeográfica
A erosão ao longo de milhões de anos fragmentou o antigo platô contínuo do Planalto das Guianas, originando vales profundos e isolando os topos das montanhas. Esse processo gerou uma dinâmica de especiação insular, convertendo os tepuis em refúgios biológicos com alto grau de endemismo.
Diferente das montanhas da Mata Atlântica, cujas espécies derivam da vegetação ao entorno, a fauna e flora do topo dos tepuis não possuem relação com a planície amazônica vizinha. A Serra do Aracá localiza-se na transição entre duas províncias geológicas dos tepuis, o que deve revelar dados inéditos sobre as conexões históricas da região.
“A Serra do Aracá está justamente no limite dessas duas áreas. Por isso, não temos ideia do que vamos encontrar lá”, disse Rodrigues.

O ornitólogo Luiz Fábio Silveira, diretor do Museu de Zoologia da USP, em seu laboratório, durante os preparativos para a expedição à Serra do Aracá. Foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP
Inovações técnicas no campo
Além dos métodos tradicionais de coleta, os cientistas utilizarão análise de DNA ambiental (eDNA) em amostras de solo e água. A tecnologia permite identificar espécies microscópicas e animais de difícil captura que não são obtidos fisicamente em campo.
A equipe também realizará análises de parasitas e patógenos, mapeamento cromossômico de roedores e gravação contínua de áudios ambientais. O objetivo final é comparar a evolução demográfica dessas populações montanhosas com as de outras latitudes.
“Uma das perguntas que pretendemos ajudar a responder é o que aconteceu com a história demográfica dessas populações de espécies em latitudes muito diferentes de uma região não tropical. Queremos verificar se esse padrão é o mesmo”, concluiu Rodrigues.
Destaque – A expedição à Serra do Aracá, acompanhada in loco pela Agência FAPESP, é a terceira e última etapa de um projeto de mapeamento da biodiversidade das terras altas da Amazônia brasileira, com financiamento da FAPESP e apoio do Exército. Foto: Alexandre Percequillo)



