Primeira expedição liderada no Caribe identifica 25 ecossistemas de fontes frias, 20 possíveis novas espécies e mapeia 13% do assoalho marinho local.


PORT OF SPAIN, Trinidad e Tobago — Uma expedição científica pioneira liderada por pesquisadores do país realizou o mapeamento mais abrangente do mar profundo ao redor das ilhas caribenhas. A bordo do navio de pesquisa R/V Falkor (too), pertencente ao Schmidt Ocean Institute, a equipe identificou mais de 25 fontes hidrotermais frias ativas, registrou cerca de 20 potenciais novas espécies para a ciência e cartografou 13% do território marítimo do país durante um mês de navegação.

 

Peixe-anguila (Pachycara caribbaeum) repousa sobre um leito de mexilhões quimiossintéticos (Gigantidas childressi) ao largo da costa de Trinidad e Tobago. Noventa e três por cento de Trinidad e Tobago situa-se abaixo das profundidades acessíveis ao mergulho recreativo, colocando seus maiores ecossistemas na zona mesofótica (entre 30 e 199 metros) e no oceano profundo. O contexto geológico das duas ilhas é ideal para a manutenção de habitats quimiossintéticos. Crédito da foto: ROV SuBastian / Instituto Oceanográfico Schmidt

 

Entre as prováveis novas espécies catalogadas está um polvo observado originalmente em 2014, durante uma expedição da qual participou a cientista-chefe do projeto, dra. Diva Amon. Na ocasião, a ausência de dados adicionais impediu a confirmação taxonômica, lacuna que os amostradores e registros do recente levantamento permitirão sanar. Os pesquisadores também documentaram corais, esponjas carnívoras e lagostas-queimadas. A amostragem biológica resultou na coleta de mais de 700 espécimes, destinados ao Zoology Museum da University of the West Indies em St. Augustine, multiplicando por doze o acervo de águas profundas da instituição.

“Como a primeira expedição de águas profundas liderada localmente na história de Trinidad e Tobago, essas descobertas são a prova de que cientistas caribenhos podem revelar nosso próprio patrimônio marinho”, afirmou a cientista-chefe da expedição e codireora da organização SpeSeas, dra. Diva Amon. “Cada nova descoberta que fazemos, seja um ecossistema, espécie ou comportamento, aprofunda nossa compreensão do que está em jogo e fortalece nossa capacidade de atuar como verdadeiros guardiões dessa parte oculta, mas crítica, do nosso país”, completou a pesquisadora.

 

Polvo do gênero Graneledone, uma possível nova espécie, se move pelo fundo do mar durante uma expedição oceânica em águas profundas na costa de Trinidad e Tobago. Essa espécie foi observada pela primeira vez durante uma expedição da qual a Dra. Diva Amon (SpeSeas) participou em 2014, mas só foi confirmada ou coletada nesta missão. Os pesquisadores fizeram dezenas de outras descobertas na viagem, incluindo pelo menos 20 possíveis novas espécies, três das quais podem ser novos gêneros. Crédito da foto: ROV SuBastian / Instituto Oceanográfico Schmidt

 

Mapeamento batimétrico e identificação de ecossistemas

A navegação resultou no mapeamento de mais de 11.335 quilômetros quadrados do assoalho oceânico até então não cartografado. Os dados batimétricos permitiram localizar 219 plumas de bolhas — indicadores geológicos de emanações gasosas no fundo do mar. Alimentadas por energia química, como a liberação de metano do subsolo marinho, as fontes hidrotermais frias sustentam organismos como mexilhões, mariscos e vermes tubulares por meio de bactérias quimiossintéticas, independentes da radiação solar.

Com o auxílio do veículo operado remotamente (ROV) SuBastian, a equipe confirmou visualmente 25 ecossistemas de fontes hidrotermais frias. A maior estrutura identificada possui cerca de 2.000 metros quadrados de área contínua coberta por fauna bentônica. De acordo com os pesquisadores, as informações biológicas e cartográficas obtidas subsidiarão o ordenamento espacial marinho e as políticas de governança ambiental de Trindade e Tobago, incluindo o planejamento de novas Áreas Marinhas Protegidas.

 

Estrelas-do-mar quebradiças simbióticas se agarram a um coral de águas profundas na costa de Trinidad e Tobago. Uma equipe de pesquisa liderada pela bióloga marinha Dra. Diva Amon (SpeSeas), composta em grande parte por cientistas trinitários e tobagonianos, explorou o território de águas profundas da ilha para documentar ecossistemas raros e orientar os esforços locais de conservação. Crédito da foto: ROV SuBastian / Instituto Oceanográfico Schmidt

 

A expedição testou também um novo protocolo de criopreservação para tecidos animais vivos. A técnica evita os danos estruturais celulares comuns ao congelamento direto em nitrogênio líquido, mantendo a integridade biológica do material para análises genéticas e fisiológicas futuras.

“Estar presente nessa expedição foi uma oportunidade incrível de ajudar a criar o primeiro ‘zoológico congelado’ do Caribe”, afirmou a pesquisadora do Harbor Branch Oceanographic Institute da Florida Atlantic University, dra. Megan Conkling. “Ao criopreservar tecidos de mais de 86 espécies de esponjas, corais e pepinos-do-mar de águas profundas, estamos preservando recursos biológicos vivos que fornecem uma linha de base inestimável para compreender as mudanças futuras nos ecossistemas”, explicou a cientista.

 

A equipe científica encontrou essa rara queda de uma Mobula (raia-manta) a 1.025 metros de profundidade; quando animais morrem no oceano, seus corpos frequentemente afundam até o fundo do mar, criando um rico banquete alimentar que nutre centenas de espécies de águas profundas em um ambiente geralmente com escassez de alimentos. Crédito da foto: ROV SuBastian / Instituto Oceanográfico Schmidt

 

Registros inéditos e presença de resíduos antrópicos

O estudo registrou eventos biológicos raros, como a carcaça de uma arraia do gênero Mobula depositada no leito oceânico, servindo de fonte de nutrientes para organismos detritívoros, como caranguejos e vermes. A equipe registrou imagens em alta resolução do peixe black swallower (Pseudoscopelus altipinnis) com distensão estomacal provocada pela ingestão de presas maiores que o próprio corpo. No total, ao menos 54 espécies nunca antes observadas nas águas territoriais do país foram documentadas, incluindo tubarões-fantasma e vermes do gênero Osedax.

Apesar do isolamento das áreas pesquisadas, os sensores visuais do ROV registraram a presença de lixo de origem humana no fundo do mar, demonstrando a abrangência do impacto antrópico mesmo em ecossistemas inexplorados. Paralelamente às atividades no mar, os cientistas promoveram ações de divulgação científica que alcançaram mais de 2.000 pessoas por meio de transmissões do programa Ship-to-Shore, além de palestras presenciais para mais de 1.000 estudantes e gestores públicos antes do embarque.

“A nova técnica de criopreservação é um passo notável para os estudos de preservação de espécies e eventualmente democratizará a preservação de amostras de tecidos no mar”, afirmou a diretora executiva do Schmidt Ocean Institute, dra. Jyotika Virmani. “Aliar essas capacidades de ponta à expertise científica local garante que pesquisadores caribenhos não apenas descubram as maravilhas de suas próprias regiões marinhas, mas também liderem o caminho na ciência oceânica e na gestão ambiental da próxima geração”, concluiu a executiva.

 

A equipe recolhe em segurança o ROV SuBastian — veículo operado remotamente — após um mergulho bem-sucedido. O ROV explorou as fontes hidrotermais frias no mar profundo de Trinidad e Tobago. O robô de águas profundas é conectado ao navio por um cabo umbilical e içado a bordo por meio de um sistema de lançamento e recuperação em pórtico A (A-Frame). Crédito da foto: Mónika Naranjo González / Schmidt Ocean Institute

 


Sobre as Organizações

O Schmidt Ocean Institute foi fundado em 2009 por Eric e Wendy Schmidt para impulsionar as descobertas necessárias para compreender os oceanos, sustentar a vida e garantir a saúde do planeta por meio da pesquisa científica de alto impacto, avanço tecnológico, compartilhamento aberto de informações e engajamento público. Para mais informações, visite www.schmidtocean.org.

A SpeSeas foi criada em 2017 com o objetivo de avançar na conservação marinha por meio da pesquisa científica, educação e advocacia ambiental em Trinidad e Tobago e em toda a região do Caribe. Para mais informações, visite https://speseas.org/

A Florida Atlantic University (FAU) atende a mais de 32 mil estudantes de graduação e pós-graduação em seis campi na costa sudeste da Flórida. Reconhecida entre as principais universidades públicas dos Estados Unidos, a instituição destaca-se pela alta produção de pesquisa de nível R1 pela Carnegie Foundation e pelo compromisso com o engajamento comunitário e a mobilidade social. Para saber mais, visite www.fau.edu.


 

Destaque – Um caranguejo-rei (gênero Lithodes) desloca-se pelo assoalho oceânico a 1.083 metros de profundidade. Considerados predadores de topo em ambientes de mar profundo, esses caranguejos foram documentados por pesquisadores durante a busca por plumas de bolhas associadas a fontes hidrotermais frias inexploradas. Crédito da foto: ROV SuBastian / Schmidt Ocean Institute


Leia outras matérias desta editoria

Mar profundo de Trindade e Tobago revela ecossistemas inéditos

Primeira expedição liderada no Caribe identifica 25 ecossistemas de fontes frias, 20 possíveis novas espécies e mapeia 13% do assoalho marinho local. PORT OF SPAIN, Trinidad e Tobago — Uma expedição científica pioneira liderada por pesquisadores do país...

Mapeando o Atlântico profundo: como a cooperação internacional está transformando a ciência dos oceanos

Projeto reúne pesquisadores de vários continentes e revela novas formas de entender e proteger ecossistemas marinhos Compreender o estado dos ecossistemas do oceano profundo — e como eles podem evoluir — é um dos maiores desafios da ciência marinha atual....

UE – Projeto SEAS oferece soluções inovadoras em ciência oceânica

As Nações Unidas endossam o projeto SEAS em reconhecimento aos seus esforços em prol da sustentabilidade marinha. Desde o seu lançamento em 2022, o SEAS é financiado pela União Europeia – UE. O projeto oferece a pesquisadores de pós-doutorado oportunidades...

Oceano: pescadores ganham ‘olhos tecnológicos subaquáticos’ – conheça o SMARTFISH, vídeo

Um novo conjunto de inovações tecnológicas visa melhorar o monitoramento dos estoques pesqueiros para mitigar os impactos da pesca não regulamentada e aumentar a sustentabilidade das colheitas. A pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (ou pesca...

Mar Sem Fim visitou Abrolhos antes da tragédia de Mariana, assista aos vídeos

Conheça Abrolhos e os detalhes com João Lara Resende, do Mar Sem Fim.

Os “Big Five” do Oceano: explorando as águas da África Oriental

Quando você pensa em animais africanos, o que você lembra? Provavelmente, os “cinco grandes”: leões, elefantes, leopardos, búfalos e rinocerontes. Mas a África também tem uma quantidade incrível de diversidade marinha nos recifes de coral e nas águas abertas em torno...

Oceano: formação para enganar os predadores

Em alguns casos, no entanto, os predadores também se adaptam para caçá-los, a fim de obter seu alimento, apesar da movimentação engenhosa de suas pequenas presas.